Umumbigo


25 de abril
Abril 25, 2015, 3:22 pm
Filed under: poesia

deixei cair uma gota de acetona

na tijoleira vermelha

foi sem querer mas o que interessa

se isto foi suficiente

para ver a cor desaparecer

corroída por uma gota

que não vi

e se isto acontecer aos cravos

vermelhos como devem ser os cravos

e se só sobrarem cravos brancos

e se puder uma gota

corroer a liberdade



sonho
Abril 25, 2015, 2:38 pm
Filed under: música | Etiquetas: , ,

que sempre que um homem sonha

o mundo pula e avança

como bola colorida

entre as mãos de uma criança.



Sobre o dia em que entornei a beleza inteira
Abril 19, 2015, 4:54 pm
Filed under: poesia

Ameaço olhar melhor a luz

e ser da altura do telhado

sabendo que o que é erguido, cai

e se caiu, foi antes erguido

como esta casa.

Se há relâmpago estoirando

fico debaixo da mesa

em frente à pintura

experimentável

contornável

trincando a alegria de

poder ainda responder a tudo.

É maior do que o escuro

(e se a gravidade o permitir)

quer sair da parede

trepar os pés

e chegar às nuvens,

– imensa –

ou outro sítio qualquer

acima do azul e

das casas de ancas largas

que dão à luz.

São por inteiro

com gente dentro,

sem gente nenhuma

e beijam de olhos abertos

– os olhos nunca se fecham –

ao respirar, suar

tão arquitetonicamente disfuncionais

como as nossas cabeças

e eu que, enfim

perdi a chave

e o corpo na gaveta.

Tu em telas nuas

ensaias nascer,

talvez dançar, morrer

e sabes que há perigo

desde o começo

porque o calor passa

mesmo se a porta severa

está aberta

e deixa entrar tanto sol.

São riscos de aço luzindo

e eu aqui exposto

em subversão

ou desconstrução

mas onde estão as coisas?

Entornei a beleza inteira.

Talvez lembre que um dia disseram

assim:

se a vela lança uma chama mais alta

no momento em que se vai extinguir,

as casas mudam de cor

e são raras,

nunca te esqueças que

finitas e profanas

como nós.

Ruiu o teto

e sou frágil

na parede.

abril de 2015, no catálogo de exposição da minha irmã

Ana Pais Oliveira | Pintura fora de si (ou algumas soluções de habitação)



casa
Abril 12, 2015, 9:39 pm
Filed under: poesia

o meu pai nunca deixou de dizer

põe um chapéu na cabeça

a estrada é perigosa

o açúcar é veneno

e neguei a repetição

muitas vezes

quando ela é só

amor

e se o achei controlador

pesei depois as palavras

controla a dor

então o meu pai só quer ver-me

sem dor, então é amor

e eu não sou mãe

para saber desta matemática,

o meu pai tem olhos muito azuis

vi-o semi-cerrá-los contra o sol

para ver o melro

no fio do cabo elétrico

preto, bico amarelo

e ouvindo-o dizer

que coisa bonita,

o meu pai alinha as coisas

o jardim

a casa

quer a vida reta e justa

sem sobressaltos

e nós somos sobressaltos

o que é curioso porque

o meu pai procura os dias certos

e teve três filhos

logo aí

aceitou o desvio, o erro

amaciado com a alegria da Rosa

a minha mãe

que olha como quem só tem paixão

desenha palavras com morangos

nos bolos que dizem

parabéns e idades

e nomes

os nossos

porque o dela

sabe-o depois dos nossos

e sei que pelo menos há uma pessoa

no mundo feliz

a minha mãe

feita trovoada de risos

e mil coisas que abraça

e se um dia capotou o carro

pôs-se logo de pé

é assim, um raio de

energia

não precisamos de luz

quando há a minha mãe,

e a minha maior sorte

é nascer dos meus pais

num dia quente de verão

o último botão desta roseira

escreveu o meu irmão

de seu nome marta, pois então

e com muita honra o oliveira,

comigo a minha irmã  foi mamã aos oito

e é uma sorte ser irmã

dos meus irmãos

o Ricardo falando-me com olhos

intensos a brilhar

das melhores coisas do mundo

o melhor livro

a melhor música

o melhor filme

querendo eu ter essa inteligência

e o assobio ao descer as escadas

a Ana fingindo que não soube

que fui às gavetas dela

buscar uma blusa maior que não me serviu

mas que me aproximou de crescer

eu que queria ser grande como ela

e temos hoje dois corações

dois fios iguais ao peito

cúmplices

cabeças que dizem coisas iguais,

demos os três aos meus pais uma bicicleta

estática

e pedalam no sítio

mas eles não estão ali

claro que vão por aí fora

e avançam dimensões

muitos planetas

som e luz e tudo

porque são meus pais

ainda não disse que o nome é Joaquim

pais dos meus irmãos

e avós da Leonor, Mimi:

que sorte têm

de serem crianças com os avós

que são os meus pais.

abril de 2015



matilde
Abril 12, 2015, 9:37 pm
Filed under: poesia

como é usar camisa de ganga

e ser poeta da alegria

não duvidar da magia

do quotidiano

do cometa

dedo no chinelo

e nuvem de cabelos sem regra

não tolerar reticências

isso não

subir a montanha

entrar na fenda

escura

trincando o medo, sorrindo ao medo

(o jeito é desinteressado)

– podem matá-las,

por favor?

(talvez expoente máximo

do interesse em tudo)

não sabem

o mundo que cresce

num ponto final

não sabem o mundo

eminente num sinal de perigo

nem mesmo desacelerar

a subida do sol

quando acendo os olhos

no sal

e há

finalmente mar.



abril
Abril 6, 2015, 9:03 pm
Filed under: poesia

Veio o sol

ao jardim atrás da casa.

Não podia ser na estrada

porque isso só falaria

do fumo de escape.

Aqui há outro

escape: feliz

e dá vontade de rir

como a mesma palavra

pode falar de poluição

ou fruição.

Riem-se elas de nós

e isto é claro como água

e eu tenho sede e eu

sei-o alto

mesmo de olhos fechados

porque estão quentes,

vêem tudo cor de ameixa

cor de romã

sei lá se

não é só tijolo laranja,

campos de trigo.

Deito-me de barriga

para o ar

e toco o meu umbigo,

sei que também aqui

está a minha mãe.

A tua mãe

no teu umbigo

e olha que quando

juntamos as barrigas

talvez conversem.

Ao sol

acontece tanta coisa.