Umumbigo


maré esquecida
Agosto 31, 2015, 10:55 pm
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estão crianças a dar à costa como peixes grandes

são meninos e meninas como peixes grandes

e na verdade eram meninos pequenos

não mentimos ao dizer que eram meninas pequenas

com olhos grandes de crianças embaladas

que deviam ser crianças como nós já fomos

– agora somos gaivotas que se emocionam com

o horror

mas logo voam para outra praia.



corrida
Agosto 31, 2015, 3:09 pm
Filed under: poesia

olho para todos os lados à procura de
algo que me faça abrir os olhos com ânsia
logo sei que o que queria de verdade

era realmente querer muito uma coisa
querer tanto, querer intensamente
fechar os olhos e querer por exemplo

que amanhã esteja sol para ir à praia
ou que chovendo desça o preço do gasóleo
qualquer coisa como querer muito e a sério

que amanhã a lua seja cheia, alta, alva
sabendo ofuscar qualquer neón a piscar
e que haja mesa com toda a família contente

estão também todos os amigos tocando cotovelos
qualquer coisa como querer a sério e de verdade
que de manhã tenha tempo para me espreguiçar

que acorde então sem olheiras, com ar de
absoluto repouso e todos me olhem e perguntem
como é possível o absoluto repouso como é?

ou que tenha tempo de ler todos os livros
de ver todos as óperas e jogar todos os bingos
que me façam querer ter muito mais tempo

para plantar um pomar da raiz à fruta
para perder o medo irracional dos cães
quando poderiam ser melhor amigo

por querer tanto, querer estupidamente
fechar os olhos e desejar por exemplo
beber água da nascente mais longínqua

cumprimentar um perfeito estranho
com efusão e pompa e circunstância
para vê-lo baralhado perguntando quem é

e correr numa estrada reta mesmo sabendo
que cansa demasiado mas o que quero é
passar a barreira dos dez quilómetros

eu nunca corri dez quilómetros.



figueira
Agosto 27, 2015, 11:10 pm
Filed under: poesia

primeiro o silêncio e depois

a beleza das coisas salva um segundo

quando é sol e criança a crescer

importante é haver floresta, mel, pincel

volta de carrossel

a beleza das coisas salva um segundo

quando é corpo e riso no mar

importante é haver língua, brinco, tulipa

coroa de enfeitar

a beleza das coisas salva um segundo

quando é espanto feito arrepio

importante é haver romã, livro, assobio

melodia de lembrar

primeiro o silêncio e depois

a beleza das coisas salva a vida inteira

importante é adormecer debaixo da figueira.



necessidades
Agosto 22, 2015, 6:48 pm
Filed under: poesia

é necessário algum caos como
gavetas abertas, um garfo entre as colheres
despentear o mundo com toda a certeza
também beijar os olhos logo ao nascer
falo de todos aqueles que for possível, sim
esquecer o que esperar se tudo são
lírios e delírios
e o que há mais

é necessária a fúria de uma onda enorme
olha como transforma quem a vê da praia
ou do farol ou do carro
podem ser crianças besuntadas de gelado
podemos ser nós a secar lembranças na pele, somos
e apesar do medo do abismo
queremos vê-lo para contar a todos como é
mas a nós não

são necessárias palmeiras altas para subirmos
a essa ideia que se escondeu no fim de tudo
num sonho dentro de um sonho e outro
onde pedimos licença mas somos selvagens
animais cheios de dúvidas, tantas
– não arrumes o garfo
– não?
– sim



o meu relógio
Agosto 18, 2015, 11:15 pm
Filed under: poesia

o meu relógio parou nas vinte para as nove

quieto

como se não soubesse que o universo está a morrer

que o segundo que é sumiu

e este segundo mais também submergiu

o meu relógio sabe que o universo está a morrer

e daí? tem esta rebeldia bonita de ter tempo

– vou engoli-lo para ficar imediatamente

suspensa.



certeza
Agosto 12, 2015, 4:26 pm
Filed under: poesia

sobre as pessoas que têm muitas certezas

pressinto serem elas a maior incerteza

as certezas e as pessoas

pressinto serem elas a maior incerteza



God only knows
Agosto 12, 2015, 11:52 am
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