Umumbigo


No tempo dos duelos ainda não cresciam estes plátanos
Novembro 8, 2015, 8:34 pm
Filed under: crónica

Para ver a altura das árvores é preciso atirar a cabeça para trás. As copas largas formam um céu verde que enquadra o caminho. Estaria este vento há 149 anos?

As folhas voam a velocidade impressionante. É outono e essa é a ordem natural das coisas e das estações. Por isso há ouriços no chão e ramos grandes que se partiram dos plátanos, tentemos não tropeçar neles.

Os bancos são vermelhos no Jardim de Arca d’Água, no centro da Praça de 9 de abril. Aqui encontram-se três nascentes que formam o manancial de Paranhos e abasteceram as fontes e os chafarizes até aos finais do século XIX.

Caminho neste espaço aberto do Porto com prédios e casas a toda a volta. Uma pomba segue à minha frente, parece querer indicar-me o caminho. Para a direita a VCI, para a esquerda o centro ou poderemos ignorar a placa e continuar na praça, por aí vamos.

Tropecei num galho maior. Poderia ter tropeçado na raiz que rasgou com ousadia o cimento, mais discreta, mas tropecei num galho tão grande quanto visível. Distrai-me a olhar a cabine telefónica abandonada com os cabos elétricos à mostra como órgãos que já não são vitais.

Lembro-me que há 149 anos correu aqui algum sangue.

Mas mais à frente há o coreto muito bonito de madeira e é urgente vê-lo melhor. Dentro, alguém escreveu “liga ao coração dela”.

Um homem vê a corrida furiosa das folhas, seduzem-no rodopiando em círculos dançantes. E ali está o homem que liga a alguém e olha a estrada com expectativa, esperando a chegada.

Depois há o rapaz apressado que leva um saco de compras. E também a senhora que fuma sentada com uma vista privilegiada para o lago. Está pensativa como todos os que fumam em bancos de jardim e esperam sentados debaixo de árvores grandes.

Com alguns minutos de observação sabemos que quem mais anda por entre as magnólias e os cedros são pessoas que passeiam cães, ou cães que passeiam pessoas, não sabemos bem qual é afinal o papel de cada um.

Passa um carro de coleção e parece estarmos noutro século. Alguém saberá se estaria este vento? Os candeeiros são antigos e não dizem quantas pessoas já iluminaram. As pessoas não fazem barulho, vejo-as como num filme mudo num dia descolorido. Só se ouve o vento, carros e uma sirena insistente que grita emergência.

Olho o interior escuro do Centro de Convívio “Gruta de Arca d’Água”, fechado. Quem vem aqui saberá da questão coimbrã?

A 4 de fevereiro de 1866 este jardim ainda não existia, só em 1928 foi inaugurado como jardim público. Em 1866 era um descampado onde se defendeu a honra de espada em riste. Travaram duelo os escritores Antero de Quental e Ramalho Ortigão. É curioso lembrar o motivo: Antero de Quental havia contestado o desdém de Castilho sobre a nova geração de poetas e desencadeia-se uma das mais famosas polémicas literárias portuguesas. Ramalho Ortigão defende Castilho com o folheto A Literatura de Hoje e acusa Antero de cobardia porque usara argumentos como a velhice e a cegueira do poeta.

O duelo era inevitável. Logo no primeiro assalto, Antero golpeia Ramalho num braço. A luta termina e os dois escritores reconciliam-se. O tempo hoje está cada vez mais abafado, transpirariam no duelo?

Quem saberá quanto mais vão crescer estas árvores, quanto mais vai envelhecer a madeira vermelha, quantas mais lutas ou reconciliações haverá aqui. Já não encontro o homem que apostava na corrida das folhas. O homem do telemóvel ainda espera olhando a rua. Começou a chover agora mesmo que alguém se sentou num banco com um livro aberto.

in “As Artes entre as Letras”, Em destaque – Centenário da morte de Ramalho Ortigão, 28 de outubro de 2015

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