Umumbigo


A luz que não se apaga
Novembro 27, 2015, 12:54 pm
Filed under: crónica

Nasci numa sexta-feira 13 e repito algumas vezes que esse é o meu dia da sorte.

Por isso acordei com expectativa na sexta-feira 13 de novembro, em Paris. Estava de férias entre amigos e os planos ganhavam formas cheias de possibilidades de descoberta – entrar na Basílica de Sacré Coeur, admirar as obras dos artistas da Place du Tertre, caminhar nos Campos Elísios, deixar o Louvre deslumbrar, conhecer a mítica livraria Shakespeare & Company, ouvir música num bar de jazz.

A noite caía quando vimos a Torre Eiffel iluminar-se e envolver Paris numa nuvem dourada. Enquadrados por esta imagem belíssima iniciámos o caminho de regresso a casa. Observando as pessoas nas suas rotinas ou longe delas, olhando os jardins relaxantes, seguindo o traço arquitetónico dos edifícios. Caminhámos com a cadência de quem quer absorver o maior número possível de detalhes e encantámo-nos com o mais pequeno pormenor que contribui para a respiração da cidade.

Chegámos ao apartamento alugado com a ideia de descansarmos antes de voltarmos à vida que corria lá fora. Passaram-se poucos minutos até recebermos um alerta no telemóvel: atentado em Paris. Depois a primeira mensagem: estás bem? E logo o horror espelhado nas notícias.

Tentando compreender o caos instalado, rapidamente percebemos que estávamos a pouco mais de um quilómetro do Bataclan. Começámos a ouvir sirenes ininterruptas. O resto do massacre conhecemos pela televisão e redes sociais.

Sentimos o medo que paralisa toda a noite. Na manhã seguinte, equacionámos se deveríamos sair à rua ou não. França recolhia-se em tristeza e dor, atordoada.

Quisemos contribuir para uma tentativa de despertar a normalidade. Saímos a medo e encontrámos um ambiente tenso. Havia pouca gente na rua, mas havia: desportistas a correr ou andar de bicicleta, mães e pais empurrando os carinhos das crianças, turistas com a máquina fotográfica tímida entre as mãos. Junto ao Sena vários alfarrabistas expunham malas cheias de preciosidades e conversavam com quem queria saber mais sobre os livros e as suas histórias.

Uma senhora fazia crepes à entrada de um café e disse-nos bonjour com um sorriso que se esforçou por manter, salvando naquele gesto o quotidiano que temos o direito de viver.

Paris saiu à rua porque o medo não pode derrubar a cidade da luz. Lembrou que há mais pessoas a construir do que a destruir. Como a porteira portuguesa que acolheu fugitivos, os taxistas que desligaram os taxímetros, todos os que esperaram nas filas para doar sangue.

Não há só em Paris mais pessoas a construir do que a destruir. Há em todos as culturas e geografias. Nascer numa ou noutra pode ser um golpe de sorte. Depois há o papel fundamental de todos os que cresceram com amor e têm a força para contagiar quem cresceu sem nenhuma esperança.

Tirei uma fotografia à Torrei Eiffel pouco tempo antes do primeiro atentado. Depois do luto, voltou a iluminar-se e continua hoje a ter a mesma beleza. Esta luz não se apaga: representa a mesma liberdade, igualdade, fraternidade. Representa o papel que cada um de nós tem na construção de um amanhã mais justo e tolerante, mais promissor. Lembra-nos que não há terror que possa vencer o amor.

in Defesa de Espinho, 26 de novembro de 2015

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