Umumbigo


Sampaio Bruno não cabe numa rua
Novembro 30, 2015, 9:53 am
Filed under: crónica

Todas as ruas têm um nome ou um número. Se foram alvos do esquecimento de alguém são ruas sem nome e isso também é uma designação.

Chove na rua Sampaio Bruno. O céu desabou num piscar de olhos e apanhou-nos desprevenidos. Há quem se recolha nos cafés e há quem improvise abrigos com jornais e sacos de plástico. Ainda há mais: olhemos quem avança sem pressa, parecendo gostar de se molhar. Isto é libertador mesmo visto de dentro de um carro parado em frente à rua Sampaio Bruno.

Os turistas sorriem encolhidos nas soleiras das portas e olham tudo com a atenção de uma criança de olhos sempre abertos. Não sabem quando poderão regressar e fundamental é tatuar o Porto na memória. A chuva entra pelos poros e é feita do cheiro da terra molhada, da água nos lábios, do som ao cair certeira nos passeios e naqueles que a sentem com temor ou alegria.

Também há os avisados que saíram de casa com guarda-chuvas mesmo brilhando o sol e abrem-nos agora muito orgulhosos da sua prudência exemplar e conhecimento meteorológico. Se ao menos abrigassem alguém que corre desprotegido e pergunta em silêncio: não cabem duas pessoas aí?

Olho a rua Sampaio Bruno à esquerda. É tempo de esquecer a chuva e até me parece que não dará para molhar os pés, afinal são necessários poucos passos para a percorrer.

Casa da sorte, loja chinesa, um abre brevemente, ótica, pastelaria, acessórios de moda, tabacaria, loja de calçado, banco, kebabs e pizza na esquina. Cabe este mundo na rua Sampaio Bruno. À direita há uma ruela que sobe. Em frente os Aliados, atrás e a poucos metros o Teatro Sá da Bandeira. Aqui folhas amarelas no chão molhado. E uma figura curiosa: é um homem-estátua  sentado numa entrada  a tamborilar os dedos nas pernas. Aliás, é um homem-estátua todo pintado de branco que tenta proteger a tinta dos rios que se formam nas nuvens e que revelarão em traços quase retos a cor da pele com que nasceu.

São precisos poucos passos para percorrer esta rua mas muita atenção para captar todo o movimento incessante. Uma mulher de chinelos rasgados vende curitas e pede esmolas, dois teenagers ouvem música muito alto e riem-se de qualquer coisa. Um grupo de espanhóis vai a dizer que é tudo muito bonito e isto não é ficção para embelezar o quadro. Ainda vai ali uma bicicleta conduzida pela miúda de calções e capa de chuva. É um traço leve e rápido e isto não é poesia, é a realidade que vemos agora mesmo.

Na esplanada abrigada bebem-se cafés e finos e fuma-se com calma. Poderíamos parar aí a perguntar quantas pessoas saberão que esta é a rua Sampaio Bruno. Sairíamos de gravador na mão e olhos inquisidores e perguntaríamos a todos os que passam: como se chama esta rua, como se chama?

Imagino os entrevistados encolhendo os ombros mais vezes do que sorrindo com o nome na ponta da língua.

É importante esclarecer que não fizemos o inquérito. Preferimos ficar a imaginar se quem colocou a placa verde na fachada saberia quem foi afinal Sampaio Bruno. Ele que tem uma rua pequena em comprimento mas larga em movimento onde não cabe o tamanho das suas ideias. Não caberá em nenhuma rua.

in “As Artes entre as Letras”, 25 de novembro de 2015

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