Umumbigo


desejei
Dezembro 30, 2015, 3:13 pm
Filed under: de ler

“Desejei para ti um outro mundo, uma gente diferente. Desejei para ti tudo o possível no desejo mais lírico, o que podia liricamente querer: e, porque assim, no meu desejo cabem: manhãs ainda cedo, mais brandas do que as de hoje, um céu ainda mais azul, uma paz onde fechar os olhos não fosse pesadelo, o medo de encontrar outra paisagem de rochas e de frio, uma árvore de copa mais frondosa e cheia. Para ti desejei todo o possível no lírico desejo. De forma a que não fossem só as palavras a tomar conta do amor, eu a conseguir caber no que é possível, de entre o mundo, do amor.”

Ara, Ana Luísa Amaral



sequoia
Dezembro 30, 2015, 12:10 am
Filed under: poesia

a dignidade

da palavra sequoia

espanta acima da lua

e das pessoas.

 

talvez a lua se

oculte em demasia.

 

talvez as pessoas tenham

excesso de consoantes.



conselhos para viver
Dezembro 29, 2015, 4:41 pm
Filed under: poesia

segura-te bem

e bebe pirolitos do mar

não te esqueças de acordar

que a manhã pode dar sono

olha sempre muito além

planta fores no abandono



arma
Dezembro 29, 2015, 4:36 pm
Filed under: citações

“Tocar numa arma é uma experiência que toda a gente devia ter. Toda a gente deveria percorrer os canos com as pontas dos dedos, sentir o peso do carregador, primeiro vazio, depois cheio de projéteis. De outro modo resta apenas o fascínio ou a repulsa. É preciso este conhecimento. Quanto pesa a morte? Toda a gente deveria brincar com uma bala, fazê-la girar entre os dedos como faz o prestidigitador com uma moeda. A que velocidade anda a morte?”

Roberto Saviano



nunca
Dezembro 26, 2015, 5:05 pm
Filed under: citações, de ler | Etiquetas:

“Por fim começou a rir e prometeu com uma certa solenidade: «Eu nunca me apaixonarei por ninguém, e nunca, nunca, nunca hei-de escrever um poema.»

A amiga genial, Elena Ferrante



O mar transforma
Dezembro 20, 2015, 4:04 pm
Filed under: crónica

Queria escrever sobre uma frase que nos diz que o mar transforma quem o vê. Não sendo exatamente assim, esta é a ideia principal. Tento chegar ao rigor de quem a disse e quando. Ao mesmo tempo que vou pesquisando, começo a duvidar da existência da frase. Mas não posso duvidar, estou certa de que já a ouvi ou li algures. É uma frase fundamental.

Porque procuro uma coisa precisa, acabo por encontrar o que está ao seu lado – esta é a regra dos dias. Começo então a colecionar pensamentos sobre o mar. Sophia de Mello Breyner brilha acima de tudo: “De todos os cantos do mundo/ Amo com um amor mais forte e mais profundo/ Aquela praia extasiada e nua,/ Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.”

Tenho dificuldade em imaginar como será não saber o que é o mar, nunca o ter visto ou sentido. Não ter qualquer sal na alma até ao fim dos dias. Lembro a ideia de Charles Baudelaire: “Homem livre, tu sempre gostarás do mar.” Claro que todas as pessoas deveriam ter o direito de experimentar pelo menos uma vez a maresia na pele. E de questionar olhando de frente a extensão até à linha do horizonte: onde é o teu fim?

Sorrio constatando que Espinho tem a vista mais privilegiada de todas. Olha todos os dias o mar e sabe de todas as alegrias e sofrimentos que trazem as marés. Tem no rosto as rugas da amplidão azul. Volta todos os dias à praia e só pode ser desta forma – seja para pescar, mergulhar, surfar ou simplesmente ver a força da rebentação.

Escreveu-se tanto sobre os seus mistérios. “Da minha língua vê-se o mar”, delineou Vergílio Ferreira a espinha dorsal de Portugal. Só Sophia poderia ter feito nascer os versos: “Quando eu morrer voltarei para buscar/ os instantes que não vivi junto do mar.” Fernando Pessoa sabia que “Deus ao mar o perigo e o abismo deu,/ Mas nele é que espelhou o céu.” Eugénio de Andrade partilhou a nossa ignorância perante a vastidão de água ao confessar “Eu também não sei o que é o mar”.

E finalmente descubro que foi Afonso Cruz quem escreveu: “É, na nossa vida, completamente desnecessário ter qualquer proximidade com o mar, mas a sua simples visão provoca alterações profundas na alma.”

Era esta a frase que procurava e fico feliz por a ela ter chegado no meio de incontáveis palavras. Mas logo sei que o mar não vive de citações. Talvez se alimente da profunda canção enigmática da voz das ondas que muda para sempre quem a ouve. Talvez cresça sempre que olhamos a imensidão azul com fascínio nada sabendo da sua profundeza. Talvez baste ser o mar e isto é tudo.

in Defesa de Espinho, 10 de dezembro de 2015