Umumbigo


A estrela negra mais brilhante
Janeiro 30, 2016, 6:52 pm
Filed under: crónica

Já vos aconteceu encontrarem a fórmula certa para alguma coisa? O processo exato para resolver alguma questão no trabalho, o método ideal para estudar, o caminho mais eficiente para chegar de um ponto ao outro. O corte de cabelo que mais parece favorecer as feições, o modelo de sapatos mais confortável, o tom de voz perfeito para dizer olá a alguém pela primeira vez.

Encontrar a fórmula certa para alguma coisa é um encontro feliz. Admiramos as nossas escolhas e catalogamo-las como escolhas certas que não poderiam ser outras.

E se fossem? E se nunca nos deslumbrássemos com o que já resultou? Então voltaríamos a questionar tudo de novo para aprender novas fórmulas. Outro método para resolver um problema complexo no trabalho, outra forma de estudar, outro caminho para chegar de um ponto ao outro. Que pode resultar em algo mais eficiente ou, simplesmente, num profundo momento de descoberta, porque quando não vamos pelo trilho já conhecido voltamos a ser o centro da aventura.

É esta constante capacidade de reinvenção que admiro em David Bowie. Que nunca, nunca se deslumbrou com as portas que abriu. Nem mesmo com as janelas ou com o telhado que deslocou só com a energia de um olhar ávido por descobrir de que cor era realmente o céu. Por isso foi tantas personagens e tantas histórias que provam que o maior poder de todos é o da imaginação.  Camaleónico, teve sempre a ousadia de espantar-se com o mundo.  E o espanto é a melhor forma de contrariar a morte, feito desassossego e inquietação que olha de frente todas as certezas perguntando: és mesmo tu uma certeza?

David Bowie foi um autêntico enigma. Um alien com olhos diferentes a correr riscos a todo o momento, abraçando tudo o que isso comporta. Com uma intensidade arrebatadora a ir por ali e depois por aqui e depois para a frente e para trás e agora mesmo um belíssimo mortal! Será que David Bowie alguma vez bocejou?

Blackstar, ou estrela negra, é uma das músicas do seu último álbum com o mesmo nome. Lançou-o no dia em que completou 69 anos.

Hoje existe uma constelação com o nome de David Bowie. São sete estrelas que desenham o icónico relâmpago que tem pintado no rosto na capa do álbum Aladdin Sane. É que quando alguém dedica a vida a imaginar, criar, reinventar e partilhar o resultado inesperado com quem o rodeia, ganha toda uma nova dimensão e luz. E só pode brilhar intensamente para lá do fim dos dias e das noites.

in Defesa de Espinho, 28 janeiro 2016

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