Umumbigo


dente
Fevereiro 29, 2016, 3:17 pm
Filed under: citações, de ler

“Enquanto aguardamos a extração de um dente, mergulhamos muitas vezes na esquematização de um novo livro; fervilhamos de ideias. Depois vem a tortura, o livro é expurgado do consciente; passam-se dias em que a coisa mais brilhante que conseguimos fazer é enfiar a língua numa pequena cavidade da gengiva, que no entanto nos parece enorme. Por fim, também isso acaba por ser esquecido, e voltamos ao trabalho, e talvez se comece um novo livro, mas não como planeado febrilmente na cauterizada sala de espera. E depois, numa noite em que damos voltas e mais voltas na cama, importunados por enxames de pensamentos irrisórios, subitamente a constelação do dente perdido inunda o horizonte e voltamos a Tebas, antiga Tebas da nossa infância da qual brotaram todos os romances, e vemos finalmente gravado numa tabuinha de pedra o plano da grande obra da nossa vida – é o livro que sempre se quis escrever, mas que de manhã já foi esquecido, e é assim que esquece Tebas, e Deus, e todo o significado da vida, e a nossa própria identidade e as identidades do passado, e por isso adoramos Picasso, que ficou acordado toda a noite e não extraiu o seu dente cariado.”

O colosso de Maroussi, Henry Miller



Avô
Fevereiro 27, 2016, 7:25 pm
Filed under: poesia

O meu avô manda-me ir à luta e diz que vou ganhar enquanto sento-me para

ouvir o discurso e tento imaginar se passará nos genes o dom da palavra e como se

desenvolvem conselhos assim tão certos, tão cheios de verdade, conselhos

enormes que não cabem nos meus bolsos. Logo transbordam e apanho-os do chão

muito depressa – são demasiado valiosos para esquecer um só, são cristais

pequeninos brilhantes do esforço do Senhor Manuel que foi criança de Nogueira

para o Porto e mal abriu os olhos começou a fazer-se à vida cheio de garra,

cheio de ganas, saltando dificuldades como corrida de obstáculos, cruzando

a meta sem temer o caminho: aqui chegámos com a memória de todos os nomes

e até da matrícula do primeiro carro vermelho.

Hoje há família à volta da mesa. O meu avô faz anos e mesmo em dia de festa

haverá palavras generosas: talvez o melhor seja ir por ali, há que continuar a andar.

São conselhos que de cristais pequeninos se transformaram em montra muito

grande a brilhar de orgulho, sacrifício, valor, esforço. A brilhar de amor.

 



pôr do sol
Fevereiro 27, 2016, 6:45 pm
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“Na África Oriental, o pôr do sol é de cortar a respiração, mas é tão rápido que parece que alguém pôs a imagem em cadência acelerada: o Sol desce sobre a poeira levantada pelo dia, lá no alto as nuvens resplandecem e todo o céu a ocidente se transforma num dossel de um cor de rosa quente como ouro derretido, com franjas cor de laranja e azul-roxeado, rostos pontiagudos e filigrana, uns quantos jacintos esmagados, leite batido espalhado, um espetáculo de luz fundida. Como também pode ser corpóreo, encarnado, uma grande isca de fígado em sangue que se vai separando em fatias mais pequenas, perdendo a cor, transformando-se em frituras secas, em fragmentos de luz friável, antes de ser fiado como o algodão e de desaparecer. Só é possível contemplar parcelas do pôr do sol, porque o todo é amplo de mais. Mas esta magia encanta um par de minutos, e o melhor dura apenas alguns segundos, antes de se instalar a escuridão.”

Viagem por África, Paul Theroux



tempo
Fevereiro 24, 2016, 6:36 pm
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Enquanto o tempo africano passava, eu ia pensando que o ritmo dos países ocidentais era uma loucura, que a rapidez da tecnologia moderna não tinha qualquer efeito, e que, por seguir o seu próprio caminho, ao seu próprio ritmo, por razões que eram as suas, África era um refúgio e um local de repouso, o último território pelo qual valia a pena alguém animar-se.”

Viagem por África, Paul Theroux



sincronização
Fevereiro 22, 2016, 3:06 pm
Filed under: citações, de ler

“Voltou a apoderar-se de mim aquela impressão de estarmos rodeados de um espaço imenso, que tudo englobava, e que sentira pela primeira vez em Tebas. Era uma sincronização assustadora de sonho e realidade, e os dois mundos fundiam-se numa taça de luz pura, e nós, os viajantes, ficámos suspensos, por assim dizer, sobre a vida terrena.”

O colosso de Maroussi, Hery Miller



borboletas
Fevereiro 20, 2016, 6:21 pm
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“Aquilo de que eu mais me lembrava nesta estrada de Jinja era o facto de, em certas zonas, por razões que ninguém sabia explicar, haver longas extensões penugentas onde viviam borboletas. Podia-se passar por vinte e cinco metros de estrada atapetada por borboletas brancas, tantas que, se se andasse com demasiada velocidade, os pneus perdiam a aderência, e algumas pessoas  tinham perdido a vida deslizando sobre borboletas.”

Viagem por África, Paul Theroux



Noite dos mascarados
Fevereiro 18, 2016, 4:37 pm
Filed under: crónica

Gosto muito de todas as músicas do Chico Buarque. Ouço-o repetidamente e sei de cor muitas das letras. Há pelo menos uma em que não hesito um segundo nas palavras certas. Chama-se Noite dos Mascarados e oferece-nos um dueto maravilhoso com Elis Regina. Começa com uma pergunta: – Quem é você?

Imaginamo-nos num cortejo festivo de mascarados em que tentamos decifrar quem é quem. A Elis responde ao Chico: – Adivinha, se gosta de mim! Caem confettis nas nossas cabeças, a melodia envolve-nos.

Conhecemos esta folia de um período em que os dias e as noites ditam que sejamos outra coisa. Conhecemos esta folia por experiência pessoal ou meramente pelas imagens que vão passando na televisão, cheias de cor e barulho. Sabemos que quanto mais diferentes de todos nos apresentarmos, mais pontos teremos na avaliação do júri dos disfarces. E, mais importante do que tudo, multiplicar-se-ão as gargalhadas entre os amigos. Com sorte ganharemos algum prémio como uma viagem ou um vale de compras. A criatividade será recompensada.

Agora voam serpentinas azuis e amarelas no ar. A letra continua e diz-nos: “Mas é Carnaval! Não me diga mais quem é você! Amanhã tudo volta ao normal. Deixa a festa acabar, Deixa o barco correr.”

Voltar ao normal. Parece que aí todos os sonhos correm o risco de acabar. A realidade derrota a fantasia, não soubéssemos nós que por vezes há mais verdade na imaginação do que nos factos da regularidade. Então olhamos à volta para perguntar: quantas máscaras estão colocadas?

É uma pergunta fundamental que procura a liberdade.

Por isso adultero agora o final da Noite dos Mascarados para que o dia seguinte ao cortejo seja límpido como um cristal: Deixa o dia raiar, que hoje eu sou eu. Não há absolutamente ninguém que o possa ser por nós.

in Defesa de Espinho, 18 fevereiro 2016