Umumbigo


A ilha do espanto no Índico
Maio 25, 2016, 4:37 pm
Filed under: Moçambique, reportagem

Acordámos quando o sol nascia, em Maputo. Pouco faltou para a lancha não poder partir com a descida do mar. Saímos no momento certo e ficámos a ver a cidade a afastar-se até estarmos só rodeados por água e depois avistarmos, do outro lado, o primeiro recorte de Inhaca. Tinha ouvido que esta ilha à entrada da baía de Maputo, no sul de Moçambique, era como uma pérola no Índico.

Quando a lancha já não podia avançar mais, descemos com a água pelos joelhos e a visão de um lugar em silêncio. Demos poucos passos até vermos no fundo da água estrelas-do-mar com cores inacreditavelmente vibrantes como azul, amarelo, verde ou cor-de-laranja. Nunca tinha visto estrelas-do-mar como estas. Sorrimos com as primeiras boas-vindas do clima tropical.

A tradição oral diz que o nome Ihaca vem de um ancião que viveu em Maputo por volta do século XVI, Tsonga Nhaca, que ofereceu hospitalidade ao comerciante português Lourenço Marques e aos navegadores em dificuldades que chegavam à ilha.

Quando pisámos o areal, também sentimos a hospitalidade dos primeiros sorrisos de alguns locais. As nuvens recortavam-se no céu azul e multiplicavam-se pela praia barcos de pesca. Começou aqui o encantamento por este lugar que é património biológico da humanidade e reserva natural. Em dois dias o tempo pareceu expandir-se magicamente. Talvez porque fizemos tantas coisas que para nós são raras. As experiências misturam-se agora numa onda de encantamento e constroem juntas o espanto que nasce perante a ilha.

Em Inhaca vimos os recifes de coral com enormes cardumes de peixes. Procurámos os mais coloridos e assombrámo-nos com a imensidão de vida no fundo do mar. Vimos uma tartaruga a espreitar várias vezes no mar calmo e logo a esconder-se, parecendo brincar connosco. Seguimos o voo de peixes que saltavam da água e imaginámos exibir-se perante os novos visitantes. Vimos búzios que deixam traços na areia como mensagens enigmáticas, caranguejos muito rápidos, alforrecas na onda que se espraia. Encontrámos um pescador com um peixe‑papagaio gigante. Era azul e salmão, extraordinário, talvez saído de um conto surrealista. Olhámos o sol que se reflecte no azul límpido do mar e o movimento da água que dança no corpo.

Admirámos a grande quantidade de borboletas diferentes a esvoaçar. Passámos por plantações de mandioca e milho e hortas cultivadas, sabendo que aqui existem rituais para uma boa colheita e cerimónias para pedir aos antepassados a chuva. Vimos galinhas e cabritos soltos. Como música constante, os pássaros e o vento. Curvámos o pescoço para trás para ver as palmeiras altíssimas onde sabemos que podemos chegar aos nossos sonhos.

Observámos com curiosidade os locais nas suas vidas diárias. A caminhar nos trilhos longos de terra vermelha, questionámo-nos de onde viriam e para onde iriam. Ou a vender ou comprar no mercado local, ainda a irem juntos para cerimónias religiosas muito bem vestidos, no domingo. No meio do nada tivemos um encontro feliz: havia um campo de futebol com chão de terra cheio de crianças que logo correram a dizer-nos olá e adeus entre gritos e sorrisos. Não nos podemos nunca esquecer desta miragem de alegria genuína e esperança.

A gente de Inhaca contribui muito para o encanto da ilha. As mulheres com capulanas coloridas que transportam alimentos na cabeça e bebés ao colo, os homens a trabalhar nos barcos, as crianças com olhos ávidos e sorrisos de orelha a orelha ao ver aquilo que é diferente deles – nós – e ao mesmo tempo tão igual.

Ao regressarmos da praia, dois meninos escondidos atrás de uma árvore correram com ar de reguilas para se agarrar ao jipe. Chamavam-se João e António e traziam num saco os peixinhos que tinham pescado. Perguntámos quem ia cozinhar o jantar.

– A mãe – sorriram.

Conversámos com um biólogo da Estação de Biologia Marítima e o que sentimos é uma pessoa que genuinamente se interessa por te conhecer, que diz meu irmão. Há uma generosidade nas conversas rara de se encontrar.

Vimos o velho farol. E o por do sol estonteante, numa explosão de vermelho, cor-de-laranja, lilás, azul. Dançámos no boteco as kizombas e kuduros e vimos os locais libertarem os corpos num ritmo que vem do fundo do ser. E acima das nossas cabeças a lua gigante acesa, amarela, e as estrelas muito brilhantes.

Ao regressarmos, olhámos longamente outra imagem de que não nos vamos esquecer: a cidade de Maputo recortada contra o sol, dourada, onde a vida corre frenética a tão poucos quilómetros do silêncio do paraíso.

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