Umumbigo


provérbio
Junho 29, 2016, 6:18 pm
Filed under: citações, de ler

“Há, em Nkokolani, um provérbio que diz o seguinte: se quiseres conhecer um lugar fala com os ausentes; se quiseres conhecer uma pessoa escuta-lhes os sonhos.”

mulheres de cinza, Mia Couto

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moya
Junho 29, 2016, 6:14 pm
Filed under: citações, de ler

“Diz-se em Nkokolani, a nossa terra, que o nome do recém-nascido vem de um sussurro que se escuta antes de nascer. Na barriga da mãe, não se tece apenas um corpo. Fabrica-se a alma, o moya. Ainda na penumbra do ventre, esse moya vai-se fazendo a partir das vozes dos que já morreram. Um desses antepassados pede ao novo ser que adote o seu nome. No meu caso, foi-me soprado o nome de Layeluane, a minha avó paterna.”

mulheres de cinza, Mia Couto



salvar
Junho 29, 2016, 6:09 pm
Filed under: citações, de ler

“O mundo sobrevive – dizia Konrad – porque há «salvadores». Não nos conseguimos salvar mas, por vezes, conseguimos salvar outros.

A mulher da lama, Joyce Carol Oates



Rafael
Junho 21, 2016, 8:32 pm
Filed under: crónica, Moçambique

O Rafael tem onze anos. Conheci-o quando esperava o batelão para fazer a travessia para Macaneta, ainda no lado de Marracuene. Dentro do carro, vi-o sentado num bloco de muro partido. Estava no fim da descida de terra da construção da nova ponte. Alto e magro, com uma t-shirt gasta e calções de banho, descalço, a murmurar alguma coisa para si mesmo. Uma canção? No chão acumulava-se lixo: embalagens, sacos, garrafas de plástico espalmadas. Brincava com o que me parecia ser uma folha enrolada – tinha debaixo do braço um ramo de palmeira.

Sempre que olhei para ele, sorriu timidamente e voltou a olhar com muita atenção para o que moldava. Olhei-o várias vezes, intrigada com o que tinha nas mãos. Tendo a olhar muito tempo o que me encanta. Por vezes, o tempo suficiente para me poder tornar incomodativa. Mas o Rafael sorria sempre que subia o olhar.

Acima de tudo, admirei ver o menino sozinho numa paisagem de transição, entre os destroços de uma obra e a passagem para a outra margem. Como um pequeno fôlego de esperança no meio de um quadro desolado.

Naquele dia, o céu estava nublado e havia uma enorme ventania que arrastava a poeira vermelha. Quando a rajada era mais intensa, o Rafael semicerrava os olhos e colocava o braço à frente da cara. Eu fechava o vidro do carro.

Depois da fila avançar alguns metros, levantou-se e veio até ao vidro de novo aberto. Disse

– É para ti

e colocou-me nas mãos um cestinho feito de uma folha.

Ficamos desarmados perante a ternura espontânea. Li no olhar e no sorriso que o Rafael não procurava dinheiro ou algum gesto de caridade. Não restou qualquer dúvida sobre a generosidade do momento. Queria só mostrar o que estava a fazer e oferecer-me algo que tinha despertado o meu interesse. Levantou-se para partilhar alegria e voltou depois ao seu banco de cimento listado amarelo e preto para continuar a enrolar outra folha.

Soube que tem um irmão mais velho, o Rodrigues, com catorze anos. Foi com ele que aprendeu a fazer estes pequenos objectos feitos de natureza. É ele que dá vida aos seus brinquedos, todos os dias. Quando perdem a forma, voam com o vento.

Chamei-o e entreguei-lhe uma caneta

– Para assinares a obra do artista

e vi-o sorrir com surpresa.

– Sabes escrever o teu nome?

Sabia e escreveu-o com uma letra muito bonita. Na folha de palmeira está agora escrito o nome Rafael.

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Em trânsito
Junho 15, 2016, 10:38 pm
Filed under: crónica, impressões

Gosto de estar em trânsito. O voo pode ser longo e a escala uma mão cheia de horas, posso até ter que mudar de transporte várias vezes. Continuarei a gostar de estar em trânsito porque a verdade é que há raros momentos em que temos esta sensação de levitar no tempo e no espaço.

O nosso único objectivo é ir e chegar ao destino. E chegar ao destino, curiosamente, tem duas dimensões muito diferentes: pode ser só uma fase prática do GPS ou pode ser uma das reflexões mais profundas.

Em trânsito, somos movimento e uma flecha determinada. Quem viaja de um ponto para outro tem uma confiança absoluta no caminho. Sabe exactamente para onde ir. Quantas mais vezes sentimos esta certeza?

Os não-lugares enchem-se e esvaziam-se ao som de passos certos. Nestes lugares de transição, desenvolvo ainda mais o olhar atento. Tenho sempre uma curiosidade extrema pelos destinos dos outros. Quero saber  para onde vão e se falarão alguma língua que conheço. Se não nos compreendermos, talvez o sorriso nos possa aproximar. O traço que se esboça nos lábios e muda a fisionomia do rosto é um sinal de igualdade entre estranhos.

Poderemos até apanhar o mesmo avião e sair pela mesma porta para logo seguirmos caminhos diferentes na cidade. Quero saber quantos caminhos tem a cidade.

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Casa
Junho 8, 2016, 1:55 pm
Filed under: crónica, Moçambique

Estou sentada na varanda daquela que é agora a minha casa. Uma amiga tem uma definição curiosa de casa que gosto de lembrar. Não são paredes nem portas nem janelas, não é um espaço físico. A Miriam teve a ousadia e a coragem de romper com a estabilidade e rotina definidas para concretizar um sonho: viajar com a família. A casa tornou-se então seis pés e seis braços: os do casal e os da filha pequena feita menina-mundo de olhos curiosos.

Falava da varanda da casa. Os raios de sol aquecem a pele enquanto vejo lá em baixo um miúdo a chutar a bola contra a parede. Às vezes aparece outro miúdo que tenta tirar‑lhe a bola rota e sobem até cá acima gritos divertidos. Têm t-shirts maiores do que os corpos franzinos. Não consigo ver o desenho dos sorrisos mas sei que vão de orelha a orelha. Aqui está uma definição possível de felicidade – dois miúdos e uma bola.

Estes gritos vieram juntar-se a outro som. Há algum tempo que ouço um piar ininterrupto acima da minha cabeça. Os pássaros fizeram um ninho atrás da caixa de ventilação, provando uma vez mais que a natureza entra na cidade com raízes fundas. Nos passeios rebentam ervas, os prédios estão escondidos por árvores altas e largas, há poeira da terra no ar. Uma semente tem mais força do que um tijolo.

Hoje ouço os pássaros e lembro-me da tartaruga que foi encontrada numa obra e viveu uns dias nesta varanda. Também vivemos nós e juntos formamos uma casa com doze pés e doze braços. Cada par traz consigo muitos mais e a grande parte está noutro continente, num país virado para o mar. Contam-nos que em Portugal começaram finalmente a usar sandálias e aqui, fosse o inverno rigoroso, começaríamos a calçar botas. Mas podemos usar sandálias todo o ano num país onde não existem primavera nem outono, apenas as estações do contraste. Vivemos em Moçambique do contraste constante entre aquilo que é doce e bruto, ornamentado e cru, entre a súplica e a maior explosão de alegria.

Falava do que trazemos connosco: uma casa com raízes muito fundas como estas que rompem os passeios e gritam que não há construção que possa esconder a pulsação viva. Sabemos que uma semente tem mais força do que um tijolo. Acrescentamos que há sementes com mais força do que um oceano.

Agora olho os meus pés expostos ao sol morno de final do dia. Os miúdos deixaram de gritar e a bola ficou encostada à parede. Entraram em casa. De quantos pés se fará?

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