Umumbigo


Casa
Junho 8, 2016, 1:55 pm
Filed under: crónica, Moçambique

Estou sentada na varanda daquela que é agora a minha casa. Uma amiga tem uma definição curiosa de casa que gosto de lembrar. Não são paredes nem portas nem janelas, não é um espaço físico. A Miriam teve a ousadia e a coragem de romper com a estabilidade e rotina definidas para concretizar um sonho: viajar com a família. A casa tornou-se então seis pés e seis braços: os do casal e os da filha pequena feita menina-mundo de olhos curiosos.

Falava da varanda da casa. Os raios de sol aquecem a pele enquanto vejo lá em baixo um miúdo a chutar a bola contra a parede. Às vezes aparece outro miúdo que tenta tirar‑lhe a bola rota e sobem até cá acima gritos divertidos. Têm t-shirts maiores do que os corpos franzinos. Não consigo ver o desenho dos sorrisos mas sei que vão de orelha a orelha. Aqui está uma definição possível de felicidade – dois miúdos e uma bola.

Estes gritos vieram juntar-se a outro som. Há algum tempo que ouço um piar ininterrupto acima da minha cabeça. Os pássaros fizeram um ninho atrás da caixa de ventilação, provando uma vez mais que a natureza entra na cidade com raízes fundas. Nos passeios rebentam ervas, os prédios estão escondidos por árvores altas e largas, há poeira da terra no ar. Uma semente tem mais força do que um tijolo.

Hoje ouço os pássaros e lembro-me da tartaruga que foi encontrada numa obra e viveu uns dias nesta varanda. Também vivemos nós e juntos formamos uma casa com doze pés e doze braços. Cada par traz consigo muitos mais e a grande parte está noutro continente, num país virado para o mar. Contam-nos que em Portugal começaram finalmente a usar sandálias e aqui, fosse o inverno rigoroso, começaríamos a calçar botas. Mas podemos usar sandálias todo o ano num país onde não existem primavera nem outono, apenas as estações do contraste. Vivemos em Moçambique do contraste constante entre aquilo que é doce e bruto, ornamentado e cru, entre a súplica e a maior explosão de alegria.

Falava do que trazemos connosco: uma casa com raízes muito fundas como estas que rompem os passeios e gritam que não há construção que possa esconder a pulsação viva. Sabemos que uma semente tem mais força do que um tijolo. Acrescentamos que há sementes com mais força do que um oceano.

Agora olho os meus pés expostos ao sol morno de final do dia. Os miúdos deixaram de gritar e a bola ficou encostada à parede. Entraram em casa. De quantos pés se fará?

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