Umumbigo


Rafael
Junho 21, 2016, 8:32 pm
Filed under: crónica, Moçambique

O Rafael tem onze anos. Conheci-o quando esperava o batelão para fazer a travessia para Macaneta, ainda no lado de Marracuene. Dentro do carro, vi-o sentado num bloco de muro partido. Estava no fim da descida de terra da construção da nova ponte. Alto e magro, com uma t-shirt gasta e calções de banho, descalço, a murmurar alguma coisa para si mesmo. Uma canção? No chão acumulava-se lixo: embalagens, sacos, garrafas de plástico espalmadas. Brincava com o que me parecia ser uma folha enrolada – tinha debaixo do braço um ramo de palmeira.

Sempre que olhei para ele, sorriu timidamente e voltou a olhar com muita atenção para o que moldava. Olhei-o várias vezes, intrigada com o que tinha nas mãos. Tendo a olhar muito tempo o que me encanta. Por vezes, o tempo suficiente para me poder tornar incomodativa. Mas o Rafael sorria sempre que subia o olhar.

Acima de tudo, admirei ver o menino sozinho numa paisagem de transição, entre os destroços de uma obra e a passagem para a outra margem. Como um pequeno fôlego de esperança no meio de um quadro desolado.

Naquele dia, o céu estava nublado e havia uma enorme ventania que arrastava a poeira vermelha. Quando a rajada era mais intensa, o Rafael semicerrava os olhos e colocava o braço à frente da cara. Eu fechava o vidro do carro.

Depois da fila avançar alguns metros, levantou-se e veio até ao vidro de novo aberto. Disse

– É para ti

e colocou-me nas mãos um cestinho feito de uma folha.

Ficamos desarmados perante a ternura espontânea. Li no olhar e no sorriso que o Rafael não procurava dinheiro ou algum gesto de caridade. Não restou qualquer dúvida sobre a generosidade do momento. Queria só mostrar o que estava a fazer e oferecer-me algo que tinha despertado o meu interesse. Levantou-se para partilhar alegria e voltou depois ao seu banco de cimento listado amarelo e preto para continuar a enrolar outra folha.

Soube que tem um irmão mais velho, o Rodrigues, com catorze anos. Foi com ele que aprendeu a fazer estes pequenos objectos feitos de natureza. É ele que dá vida aos seus brinquedos, todos os dias. Quando perdem a forma, voam com o vento.

Chamei-o e entreguei-lhe uma caneta

– Para assinares a obra do artista

e vi-o sorrir com surpresa.

– Sabes escrever o teu nome?

Sabia e escreveu-o com uma letra muito bonita. Na folha de palmeira está agora escrito o nome Rafael.

IMG_2532IMG_2531IMG_2534IMG_2537IMG_2538

Anúncios

2 comentários so far
Deixe um comentário

Trazes generosidade no olhar: um olhar que quer saber, que se importa. O Rafael retribuiu-o.
Que bonita partilha, Marta.

Comentar por Miriam

Obrigada, querida Miriam.

Comentar por umumbigo




Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s



%d bloggers like this: