Umumbigo


O que nos faz sorrir
Julho 9, 2016, 7:02 pm
Filed under: crónica, Moçambique

Todos os dias encontramos motivos para sermos gratos. Todos os dias nos surpreendemos com o quotidiano de Maputo. Todos os dias sorrimos quando dizemos bom dia e respondem primeiro obrigado com sinceridade, retribuindo depois o bom dia. E abrimos mais os olhos para ver toda a cor das mulheres vestidas de capulana com cestas de fruta à cabeça. Caminham com a maior elegância e dignidade, as costas muito rectas e o olhar determinado. Vamos por aí e partilhamos a alegria dos meninos que brincam na rua entre gritos e correrias. Alguns ainda caminham com passos demasiado pequeninos e agarram-se à mão dos maiores. Continuamos e admiramos as carrinhas cheias até mais não, com corpos metade de fora das janelas. E também as de caixa aberta onde vão pessoas em pé até mais não. Contrastando com a máxima confusão, vemos os mais velhos que jogam às damas com tampas de garrafões de água: azuis de um lado, brancas do outro. Sentam-se debaixo da sombra de árvores de copas frondosas. Aqui há árvores muito grandes a lembrar que não são só os homens que mandam na cidade. Continuamos para ver os sapatos ficarem da cor da terra e não faz mal. As solas desgastam-se rapidamente com os sobressaltos dos passeios e não faz mal. Já estranhamos passeios lisos. Já estranhamos ouvir um não em Moçambique, substituído tantas vezes por “ainda”. Nós ainda dizemos não e sabemos que há coisas que não nos podem fazer sorrir. Mas continuamos sabendo que nos atrai o poço cultural que aqui se move. Perguntamos o que trouxe todas estas pessoas. Que diferença estarão aqui a fazer. Quão diferentes estarão desde que chegaram. E se perguntarem também por que aqui estamos? Olhamos um para o outro e sorrimos. Depois perguntamos “não é?” no fim de cada frase, como vemos todos os dias perguntar. E ainda não dissemos que gostamos do contraste de sair da cidade para zonas rurais onde andamos em estradas longas com apontamentos de vida separados por quilómetros, ou sabendo que em poucas horas podemos entrar no habitat da vida selvagem. Ou numa praia a perder de vista. Ou numa paisagem de cortar a respiração. Sentimo-nos mais em casa quando os portugueses se juntam para torcer por Portugal, ou para comer sardinhas porque na costa do Índico também se pode festejar o S. João e os santos populares. Isso também nos faz sorrir e muito. Assim como os novos sabores que experimentamos. As demonstrações de arte com que nos cruzamos. E os cheiros e as cores e os sons. Abrimos mais os ouvidos quando um taxista diz: “Aqui já estamos habituados a esta pobreza.” E ri-se com tal alegria que ficamos a pensar se louco será ele ou nós. Caminhamos pelas ruas e imaginamos como seriam no tempo de Lourenço Marques. Agora estão velhas e muito gastas mas  isso não nos impede de encontrarmos beleza genuína. Conhecemos novos amigos e expandimos a nossa felicidade. Dançamos efusivamente porque aqui todos os ritmos vêm do princípio do ser. Claro que isso nos faz sorrir. Talvez aqui possamos, todos os dias, tentar voltar ao princípio do ser.

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