Umumbigo


Somos todos selvagens
Julho 24, 2016, 5:52 pm
Filed under: crónica, Moçambique

Dois amigos despediram-se recentemente de Moçambique para abraçar o Atlântico e a proximidade da família e dos amigos, em Portugal. Antes de partirem, disseram-nos que uma das coisas de que teriam mais saudades seria o Kruger. Estiveram lá três vezes e prevêem levar lá os filhos, um dia.

Eu só estive no Kruger uma vez, mas nessa vez cabe um mundo novo. Fiz o safari com eles e conheci a magia de que várias pessoas já me tinham falado.

É curioso pensar que a 120 km de Maputo entramos na vida selvagem. Já em África do Sul e passando os portões do Parque, temos a sorte de poder viver a savana imprevisível. Tudo devemos fazer para não interferir no habitat natural nem assustar os animais. Vamos de portas fechadas e binóculos na mão, abrindo de quando em quando o vidro quando parecemos seguros. Mas há sempre um perigo potencial e é imperativo seguir as regras de segurança. Se assim fizermos, experienciaremos uma viagem inesquecível. E se quem nunca visitou o Kruger me perguntar onde reside afinal tanto encanto, lembrar-me-ei sempre do que me cativou.

Vou contar-lhes sobre a surpresa de vermos um animal de grande porte. Na minha primeira visita, conseguimos ver os designados Big 5: leão, leopardo, rinoceronte, elefante e búfalo.

Vou falar-lhes dos grandes grupos de impalas graciosas ou em fuga, das espécies de plantas infindáveis e do voo de pássaros que nunca antes vi. Vou contar-lhes a semelhança desarmante que encontramos quando olhamos um macaco nos olhos. E falarei das zebras que se posicionam de forma a parecerem um único prolongamento de riscas no meio das ervas altas.

Aquele é, para quem cresceu num ambiente citadino, um lugar muito raro. Explode em cores que não se podem fotografar ou pintar e o cheiro do capim alto não cabe em nenhum frasco. É importante dizer-lhes também que, nesse dia, alguém disse:

– Vou fechar os olhos para ouvir o silêncio.

Mas logo os pássaros rasgaram o ar e os nossos ouvidos em suspensão voltaram a estar alerta. Então vou contar-lhes que vimos um crocodilo irromper da água com um pedaço de impala na boca aberta até ao fim da fome. E que na estrada demos passagem a um javali e quase a uma hiena. Parámos para que passasse uma fila de elefantes que segue uma hierarquia clara: as crias vão protegidas e, no fim, segue o maior de todos. É aterradora a caça ilegal destes animais, a par dos rinocerontes. Então temos que nos lembrar que esta é uma das reservais mais antigas do mundo, nomeada em 1926 depois de um herói de guerra, Paul Kruger, ter alertado para a eminente extinção dos animais devido à caça. Passados 90 anos, mata-se furtivamente em busca de chifres e presas. O que diria hoje Paul Kruger?

Vou dizer-lhes que há um pássaro azul-escuro que se chama estorninho-metálico e entra nas zonas de refeições e descanso. Mesmo quanto nos abrigamos, irrompe a vida selvagem. Sei que voa também acima de todas as fronteiras que já se uniram: hoje o Kruger, o Parque Nacional do Limpopo, em Moçambique, e o Parque Nacional Gonarezhou, no Zimbabwe, formam o Parque Transfronteiriço do Grande Limpopo.

Vou partilhar a sorte que é avistar as chitas na imensidão de quase vinte mil quilómetros quadrados de extensão do Kruger. E lembrar como pensei no papel da sorte deitada na rede para sonhar debaixo do negrume da noite, num lodge com vista para um rio que dorme.

Vou falar-lhes das ossadas na terra que gritam que hoje existe um corpo que amanhã pode ser só um esqueleto. E de como vimos duas impalas a lutar, mas também uma impala a amamentar. Talvez a natureza viva deste contraste: conforto e confronto.

Vou contar-lhes sobre a elegância da girafa cheia de passarinhos à volta do pescoço, enquanto bebia água, e sobre o búfalo sério que a olhava. Também vou voltar ao lago em silêncio quase absoluto. Só se ouviu o disparar de uma câmara fotográfica e o vento fez a água ondular.

Vou lembrar os dois leões que vimos comer um hipopótamo. Na selva matamos ou morremos. Somos todos selvagens, afinal. Mas no meio da brutalidade há momentos de uma doçura absoluta. Tenho que falar-lhes sobre o céu lilás e a lua gigante, muito branca, que se despediu de nós quando passámos as portas do Kruger, num final de tarde morno. Não me posso esquecer de dizer-lhes que têm que lá ir. Nós também prometemos lá voltar.

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