Umumbigo


Decidir
Setembro 19, 2016, 1:53 pm
Filed under: crónica

Estou em Maputo, a escrevinhar e a ouvir Chico Buarque. Bebo leite de amêndoa porque li algures que é saudável. Sabe a suavidade. Da janela vejo a luz do sol que ilumina o prédio velho perder intensidade. Daqui a pouco cai a noite. Aqui anoitece cedo.

Estou em Maputo porque decidi voar para cá. Decidi que quero escrever mais, decidi ouvir agora o meu músico preferido. Decidi ir buscar uma chávena com leite de amêndoa e colocá-la ao meu lado, na mesa vestida de capulana moçambicana. Em cima da mesa vejo as chaves que abrem a porta da casa onde decidi morar. Ao lado está o livro que decidi começar a ler.

Assalta-me o terror de ter a sorte maior de poder decidir. Todos os dias cruzo-me com quem não o pode. Para eles, a noite cai ao nascer do dia.

A aleatoriedade dos nossos destinos começa no momento em que damos o primeiro grito, após o nascimento. Conhecemos muitos exemplos extraordinários que contrariaram um contexto de crescimento muito duro e vazio de perspectivas de felicidade e realização. Mas sabemos de tantos exemplos que não podem combater um contexto desolador que, desde o primeiro dia, rouba toda e qualquer esperança.

Pergunto como será não ter a palavra decisão na rotina diária que, somada em anos e as décadas, forma uma vida.

Saber apenas escolher qual o melhor caminho para a sobrevivência em determinado momento, procurando garantir comida, água, abrigo. Escolher entre algumas opções fechadas e raras. Está tudo na pirâmide de Maslow. Como pode alguém com fome pensar em soluções criativas e vislumbrar um escape possível?

O terror perante a maior sorte da nossa vida parece desprovido de sentido. Escolho essa palavra para dar importância à enorme responsabilidade que temos. Quando reflicto sobre ela, não nego a dúvida que nasce perante as consequências das minhas acções. Poderei contribuir para alguma coisa que não apenas a minha realização pessoal?

Se podemos decidir, que decidamos alguma coisa em prol de quem não o pode. Se o fizermos uma única vez, talvez a noite já não caia com o nascer do dia para alguns. Talvez esses alguns possam ajudar outros mais. Talvez possam por um momento captar a enorme oportunidade que existe num dia luminoso.

in Defesa de Espinho, 1 de setembro de 2016

Anúncios

Deixe um Comentário so far
Deixe um comentário



Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s



%d bloggers like this: