Umumbigo


atenção
Outubro 31, 2016, 8:05 am
Filed under: poesia

 

Toco o teu cabelo

com toda a atenção,

abraço-me ao limoeiro

doce do jardim.

 

O fio do cabelo

e o tronco da árvore

não sabem mentir.

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restart
Outubro 30, 2016, 10:24 am
Filed under: poesia

A vida not responding

todos a dizerem

hit the refresh

todos a anunciar

fatal error

menos alguém

a crer no futuro

coming soon.

 

Restart.



comboio
Outubro 29, 2016, 10:00 am
Filed under: poesia

E há pessoas que parecem comboios

atropelam tudo

fazem barulho

mas não vão para lado nenhum

é como se fosse um comboio

aos círculos infinitos

 

sem desacelerar a marcha.

Um dia alguém disse:

nunca atravesses a linha

quando passa um comboio

sem paragem.

 



natural
Outubro 28, 2016, 10:08 am
Filed under: poesia

Perguntam como

aprender a morrer.

 

Talvez sem esforço

como quem bebe água natural

num dia que não é quente ou frio

sem tremor nem suor.

 

Esquecendo que nunca

ninguém contou como é.

 



Clarice e Chico
Outubro 27, 2016, 10:43 am
Filed under: de ler

Clarice Lispector – Você quer fazer um versinho agora mesmo? Para você se sentir não vigiado, esperarei na copa até você me chamar.

Chico riu, eu saí, esperei uns minutos até ele me chamar e ambos lemos sorrindo:

Como Clarice pedisse
Um versinho que eu não disse
Me dei mal
Ficou lá dentro esperando
Mas deixou seu olho olhando
Com cara de Juízo Final

 

– LISPECTOR, Clarice. Clarice Lispector entrevistas. Rio de Janeiro: Rocco, 2007.



giz
Outubro 27, 2016, 10:00 am
Filed under: poesia

Nunca li num quadro

de ardósia escrito a giz

que não há um lado certo

e errado no mundo

que não lá lados mas superfícies

que é redondo e acontece que

estamos todos na mesma superfície

milagrosamente ou porque

no princípio houve uma grande

explosão. E por quê?

Talvez quem escreva num quadro

de ardósia a giz não saiba.

Talvez quem escreva num quadro

de ardósia a giz não acredite.



tempestade
Outubro 26, 2016, 8:21 am
Filed under: poesia

Aqui as crianças gritam

quando há tempestade

como todas as crianças

e também nós por dentro

ou talvez mais porque

os trovões são chicotes

que tocam as raízes da terra

e a luz maior.

 

Ninguém manda as crianças

entrarem em casa

ninguém

aqui gritam na rua debaixo da

trovoada violenta, o rosto

molhado encarando o céu

a chuva a escuridão acesa

com medo e ousadia.

 

Ninguém acelera o passo

quando o céu de cá

está zangado e há

um raio a rasgar

a noite inteira.

 

Gosto de tempestades

porque contra elas somos

todos finitos.

 

Aqui somos mais finitos.