Umumbigo


Subir um coqueiro
Novembro 8, 2016, 9:24 am
Filed under: crónica

Podemos aprender a trepar um coqueiro. Fizemo-lo numa ilha próxima do Tofo à qual chegámos de barco à vela e é preciso contar como é. Primeiro, há o silêncio absoluto se nos calarmos. Minto, há o vento que naquele dia não era muito. Depois há o jogo de mudarmos de lugar quando a vela lá no alto passa da direita para a esquerda ou da esquerda para a direita. Nunca tínhamos visto ninguém comandar o vento.

Pelo caminho vimos flamingos e mergulhámos para fazer snorkeling e tentar contar as inúmeras estrelas-do‑mar no fundo do oceano. Interrompemos o silêncio quando um casal moçambicano nos traduziu a letra de uma música que alguém pôs a tocar no dialecto changana. Falava de uma mulher a queixar-se ao homem dos erros que cometia.

Não se podem cometer erros ao subir o coqueiro e para chegarmos até ele descemos do barco e caminhamos com água quente pelos joelhos. Aprendemos duas palavras em bitonga para dizer olá às crianças. Dois meninos brincavam com pequenos barcos à vela feitos com pedaços de madeira e tecido. Na aldeia havia música tipo marrabenta a encher o ar de alegria. Conhecemos o chefe da ilha. Quer reformar-se porque o é há quinze anos, mas a comunidade gosta dele. Tem duas mulheres: a primeira não dava filhos, – disse-o assim mesmo – então teve filhos com uma prima. Depois do primeiro nascimento, a primeira mulher engravidou. Agora tem quatro meninas de um lado, quatro meninos do outro. Ri-se muito desta curiosidade.

E o que é que as 888 pessoas que aqui vivem fazem na ilha? As mulheres procuram amêijoa, lulas e camarão. Os homens pescam. As crianças, que são 400, vão à Escola. Podemos conhecer a Escola? São duas salas sem porta e telhado de chapa com um mural desenhado na parede em que lemos a tentativa de se lutar contra a descriminação: “O albino é meu irmão.” Vemos carteiras de madeira e um quadro escrito a giz: “Escola Primária Completa da Ilha de Inhambane”. “Leitura e interpretação do texto da página 76”. Ficamos a imaginar o que dirá o texto mas logo somos interrompido porque há mais a conhecer. Querem ver o hospital? Uma sala com duas macas e dois baldes onde as mulheres dão à luz. E dão realmente à luz: as crianças estão sempre fora de portas. Aqui não há portas.

Na ilha encontramos um casal de médicos com duas filhas pequenas muito loiras, os olhos azuis muito brilhantes. Estão em missão numa vila remota e dizem-nos que as irmãs têm saudades da família, mas gostam muito da praia. Elas correm à volta de um coqueiro entre gritos e rodopios.

Esta explosão de alegria faz-me lembrar um diálogo muito curto: quando íamos na pick-up até à praia que nos levaria ao barco que, por sua vez, nos deixaria na ilha onde nos ensinariam a trepar um coqueiro, passou por nós um miúdo que corria muito para tentar ultrapassar a carrinha. Eu disse qualquer coisa como:

– Que grande sorriso.

O homem que nos acompanhava até à praia também riu com os olhos grandes ao dizer:

– Está feliz.

Parece simples ser feliz e quase me esquecia do principal: é muito difícil subir um coqueiro, não cheguei a metade. Mas desconfio que também o meu sorriso se agigantou.

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2 comentários so far
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Lindo!

Comentar por Daniela

Beijo querida Daniela :)

Comentar por umumbigo




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