Umumbigo


A floresta habitada
Novembro 29, 2016, 8:58 pm
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Vais gostar de saber que o dia começou com um desastre, mas no final estávamos vivos. No dia em que deixámos de desenhar casas, acordámos com o estrondo do corte das estacas e dos troncos.
Não sei se ainda te lembras, mas houve um tempo em que o fazíamos. Eram desenhos cheios de imaginação. Depois ficou tudo muito acelerado e hoje empilham-se tijolos enquanto piscamos os olhos. Nada é raro, tudo é excesso.
Quero explicar-te como é que as coisas se precipitaram, afinal. Houve alguém que pintou a primeira construção muito, muito acima das nossas cabeças. Era apenas um desenho nascido de um fôlego. Aprendi que um desenho pode transformar-nos.
As casas podiam ter pés tão altos? Podiam abrir janelas para o voo dos pássaros ou mesmo de um foguetão? A novidade espalhou-se rapidamente. A partir daquele momento, todos queriam uma casa lá em cima, muito longe. Não posso dizer do que fugíamos. Talvez procurássemos um refúgio do quotidiano, talvez quiséssemos escalar para um recanto inatingível. A verdade é que nos sentíamos poderosos perante essa possibilidade.
Ali tínhamos a nossa criatividade em potência. Havia tanto espaço por explorar. Já imaginaste o que é descobrir um território sem fronteiras? Tornou-se urgente darmos planos, cores e texturas aos esboços. Estávamos a escalar os sonhos mais arriscados e ríamo-nos perante a evidência. Seguíamos a subida do sol como quem procura uma salvação.
Nesse tempo tivemos que aprender tudo. Não é fácil construir uma casa acima das nossas certezas. Fizemos cálculos rigorosos como voltas intermináveis em carrossel. Devias ver os nossos gritos eufóricos nos andaimes entre o pó e os guindastes. Sabíamos que estávamos a mudar o mundo. Por isso insistimos todos os dias e todas as noites no aperfeiçoamento dos desenhos e testámos pequenas invenções enquanto materializámos a poética da casa.
Foi aí que surgiu uma ideia incrível. Tínhamos quilómetros e quilómetros de floresta densa ocupada por árvores altíssimas. Como não aproveitar todos aqueles troncos robustos? A estética encantou-nos e descansámos debaixo da sombra generosa entre subidas e descidas. Quando finalizámos as construções, veio do fundo do ser uma vontade enorme de dançar à volta das árvores para dar boa sorte, antes de abandonarmos a terra. Então aconteceu: começámos a habitar a floresta em altura. Nesse dia, os grilos não se calaram.
Foram tempos maravilhosos. A nossa morada alternativa proporcionava momentos genuínos de felicidade. Era como um sótão de brincar que se alimentou de toda a esperança. Elevados do chão e dentro do abrigo, voltámos à essência das coisas. Demos valor ao realmente importante, esquecemos todos os artifícios. Olhando agora para trás, redimensionámo-nos. Vivíamos noutra escala e proclamávamos ser a tribo do futuro. Envelhecíamos a sonhar ser crianças, tínhamos de novo berços onde serenar. Ali havia a enorme alegria de adivinhar animais nas nuvens: leão, hipopótamo, rosto triste ou a rir com dentes de algodão. Conhecemos finalmente o peso exato da leveza. Espreitámos meteoritos lá no alto misterioso, repetimos a canção da lua monumental. Enquanto flutuámos, esquecemo-nos de como bocejar. Soubemos que epopeias e libélulas têm a mesma grandeza. Estávamos embriagados de luz e espanto.
Então sucedeu uma coisa muito curiosa. Vista lá de cima, a cidade é muito diferente. Começámos a achar absurda a nossa vida anterior. Olhávamos os muitos homens e mulheres que não ousaram subir nos seus afazeres pequeninos. Poderiam até ser grandes missões, mas tudo parecia minúsculo. Faziam as coisas girar num movimento ininterrupto, mesmo parados andavam. Pareciam comboios a atropelar tudo, barulhentos, sempre em linha recta em trilhos construídos à pressa. Ficávamos exaustos só de assistir à loucura: entraram numa fenda muito escura de onde não sabiam sair.
Também porque muita gente trepava às casas das árvores, a vida na cidade começou a perder ordem. Tornou-se cada vez mais frágil e gritava a plenos pulmões: barafunda!
Víamos as criancinhas saltitantes de olhos esbugalhados perderem-se e as feridas cicatrizarem nos joelhos. Espiávamos alguns mergulharem para nadar na imensidão, sem saber quando parar. Conduziam em contramão, desligavam os faróis. Dormiam de luz acesa e mediam o medo a régua e esquadro. Tropeçavam e caíam de cabeça na lama. Queriam furiosamente saber qual era o naipe do trunfo, qual é? Duvidam da magia da flauta e do búzio. Os ginastas temiam voltar a fazer um mortal. Todos procuravam alguma coisa de novo que contrariasse a rotina dos dias: eclipse, terramoto, guerra, incêndio. Pegavam no microfone para procurar a verdade mas só escavavam mentiras. Perguntavam que barulho é este, onde está a minha mãe.
As casas abaixo dos nossos pés começaram a comer insectos e, por vezes, humanos. A cor ficou disforme, aumentou o tumulto. Os dias nasciam e morriam entre delírios. Quem lá tinha permanecido começou a atirar a cabeça para trás para ver as casas onde vivíamos e pensar como as destruir. Em dias de chuva não conseguiam, a água impedia os olhos de se abrirem. Mas chegou o tempo de uma seca interminável.
Um dia mandaram cortar todas as estacas e árvores. Lembro-me apenas do abismo e do clarão e também que nessa noite não parou de trovejar. Muitos de nós tornámo-nos vagabundos e agora estamos proibidos de tirar os pés da terra firme. Como imaginas, não podemos sonhar em altitude. Estamos silenciosos talvez porque se aloje no olho da tempestade a maior calma. Continuo a saber que todos precisamos de um refúgio. É esta a história, nada mais há a dizer, agora calo-me.

– Posso só perguntar o que é isso que estás a esboçar?

– É o nosso segredo, está quase pronta. Vai ter vista para o mar.

setembro de 2016

 

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