Umumbigo


ler
Dezembro 30, 2016, 11:00 am
Filed under: citações

“Vivi, olhei, li, senti, Que faz aí o ler, Lendo, fica-se a saber quase tudo, Eu também leio, Algo portanto saberás, Agora já não estou certa, Terás então de ler doutra maneira, Como, Não serve a mesma para todos, cada um inventa a sua, a que lhe for própria, há quem leve a vida inteira a ler sem nunca ter conseguido ir mais além da leitura, ficam pegados às página, não percebem que as palavras são apenas pedras postas a atravessar a corrente de um rio, se estão ali é para que possamos chegar à outra margem, a outra margem é que importa, A não ser, A não ser, quê, A não ser que esses tais rios não tenham duas margens, mas muitas, que cada pessoa que lê seja, ele, a sua própria margem, que seja sua, e apenas sua, a margem a que terá que chegar, (…)”

A Caverna, José Saramago

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pedacinhos de ouro
Dezembro 28, 2016, 12:16 pm
Filed under: citações, de ler

“Autoritárias, paralisadoras, circulares, às vezes elípticas, as frases de efeito, também jocosamente denominadas pedacinhos de ouro, são uma praga maligna, das piores que têm assolado o mundo. Dizemos aos confusos, Conhece-te a ti mesmo, como se conhecer-se a si mesmo não fosse a quinta e mais dificultosa operação das aritméticas humanas, dizemos aos abúlicos, Querer é poder, como se as realidades bestiais do mundo não se divertissem a inverter todos os dias a posição relativa dos verbos, dizemos aos indecisos, Começar pelo princípio, como se esse princípio fosse a ponta sempre visível de um fio mal enrolado que bastasse puxar e ir puxando até chegarmos à outra ponta, a do fim, e como se, entre a primeira e a segunda, tivéssemos tido nas mãos uma linha lisa e contínua em que não havia sido preciso desfazer nós nem desenredar estrangulamentos, coisa impossível de acontecer na vida dos novelos, e, se uma outra frase de efeito é permitida, nos novelos da vida. Marta disse ao pai, Comecemos pelo princípio, e parecia que só faltava que um e outro se sentassem à bancada a modelar bonecos entre uns dedos subitamente ágeis e exactos, com a antiga habilidade recuperada de uma longa letargia. Puro engano de inocentes e desprevenidos, o princípio nunca foi a ponta nítida e precisa de uma linha, o princípio é um processo lentíssimo, demorado, que exige tempo e paciência para se perceber em que direcção quer ir, que tenteia o caminho como um cego, o princípio é só o princípio, o que fez vale tanto como nada.”

A Caverna, José Saramago



molde
Dezembro 28, 2016, 12:12 pm
Filed under: citações, de ler

“Ah, bons dias, senhor Cipriano, disse ela, Venho cumprir o prometido, trazer-lhe o seu cântaro, Muito obrigada, mas realmente não devia estar a incomodar-se, depois do que conversámos lá no cemitério pensei que não há grande diferença entre as coisas e as pessoas, têm a sua vida, duram um tempo, e em pouco acabam, como tudo no mundo, Ainda assim, se um cântaro pode substituir outro cântaro, sem termos de pensar no caso mais do que para deitar fora os cacos do velho e encher de água o novo, o mesmo não acontece com as pessoas, é como se no nascimento de cada uma se partisse o molde de que saiu, por isso é que as pessoas não se repetem, As pessoas não saem de dentro de moldes, mas acho que percebo o que quer dizer, Foi conversa de oleiro, não ligue importância, aqui o tem, e oxalá não caia a asa a este tão cedo.”

A Caverna, José Saramago



Homem na lua
Dezembro 25, 2016, 11:07 pm
Filed under: crónica

Uma menina chamada Lilly perscruta a lua cheia através do telescópio. Aumenta a ocular até ver um senhor com ar de avô sair de uma pequena casa plantada em solo lunar. Acena entusiasmada mas ele não a pode ver. Não sabe o nome do homem sozinho, sabe que tem um olhar vazio e triste.
Nos tempos seguintes mal chega de trotinete a casa corre para ver o único habitante da lua. Ele tem um banco onde se senta para olhar o planeta terra, todo verde e azul.
Então a menina escreve uma carta, empoleira-se numas escadas rumo ao céu e atira-a. Mas não consegue alcançar a lua. Também experimenta um arco e flecha de madeira para atirar a mensagem que escreveu com carinho. Ainda não tem força suficiente para chegar à lua grande e branca. Chega a fazer aviõezinhos de papel que lança da claraboia do telhado e que caem certeiros rumo ao chão.
Nasce um novo dia e com ele o dia de Natal. Há luzes brilhantes, sorrisos, abraços, enfeites dourados e muitas prendas onde cabe tanta surpresa. Vemos toda a família reunida para partilhar amor. O senhor da lua está sentado no seu banco. Como em todos os restantes dias, sozinho. E de repente aterra à sua frente um presente atado a muitos balões coloridos. Sorri ao desembrulhar o telescópio e, apontando ao nosso planeta, logo vê a Lilly acenar da sua janela.
A mensagem entra no ecrã: Mostra a alguém que é amado neste Natal.
Falamos de lembrar alguém e fazer com que se sinta lembrado. Mais do que embrulhos,
partilhar atos generosos e atenção. Dar esperança. E isso, num mundo acelerado e consumista, faz-nos pensar se vamos no caminho certo.
É por isto que os anúncios da John Lewis tornaram-se uma tradição. Todos os anos aguarda-se a nova história da cadeia de lojas britânica que explora mensagens simples e feitas de emoções. O anúncio “Man on the moon” tem já mais de 21 milhões de visualizações e deixa a ecoar na nossa cabeça a música Half the World Away, um original dos Oasis cantado por Aurora.
Para além de emocionar muitos, a publicidade gerou uma parceria com a ONG Age UK,
instituição que revela que milhões de pessoas idosas no país chegam a passar um mês sem falar com ninguém. E se pode bastar um “olá” para melhorar o dia de alguém, como não fazê-lo?
É urgente combater a solidão e mostrar às pessoas de quem gostamos que realmente
gostamos delas. É fundamental desacelerar por um minuto só as rotinas em espiral para
lembrar quem devemos lembrar. E que não nos fiquemos apenas pela época natalícia. Para além desta quadra, para além das barreiras geográficas ou das leis da astrofísica, nada pode ousar travar a partilha de amor.
Se a miúda de sardas chamada Lilly conseguiu isto da sua janela, nós também somos capazes.



crocodilo
Dezembro 16, 2016, 9:05 am
Filed under: citações, de ler

Foi determinado há muito pelos físicos que a Natureza abomina o vácuo. Assim, o interior do crocodilo tem de ser vazio, para que o animal posso odiar o vácuo e, por consequência engula e se possa encher com aquilo que encontre. E essa é a única razão racional para os crocodilos engolirem homens. O mesmo não se aplica à constituição do homem: por exemplo, quanto mais vazia é a cabeça do homem, menos vontade ele tem de a encher, sendo essa a única excepção à regra geral. Agora está tudo tão claro como água, para mim.”

O crocodilo, Fiódor Dostoievski



Yamore
Dezembro 16, 2016, 8:57 am
Filed under: música



Patti
Dezembro 15, 2016, 3:08 pm
Filed under: poesia

Há esperança a desabrochar
quando batemos palmas
ao erro
a acertar o abalo
carnudo
a reconhecer
inteira a nossa
alma

levanta-se a verdade
nas nossas mãos:

palmas.