Umumbigo


Olá, Dudu
Dezembro 6, 2016, 2:30 pm
Filed under: Moçambique

I

Conhecemos o Dudu mal pousámos um pé na Ilha de Moçambique. Aproximou-se do carro que nos trouxera desde Nampula e perguntou, tímido, se não queríamos andar de bicicleta ou passear de barco ou saber a história da ilha. Já me tinham contado que os meninos perseguem quem chega de fora para serem guias e poderem receber alguma recompensa. Quem conhece melhor a ilha do que eles que a calcam descalços?

Houve qualquer coisa no Dudu que nos cativou. Falamos de um caso sério de encanto. O jeito é tímido, já o disse. E o sorriso não cabe numa fotografia – é raro encontrarmos um assim tão cheio de doçura e esperança.

– Não vais à Escola?

– É só de manhã.

Disse ao Dudu que íamos querer andar de bicicleta. Até já, vemo-nos por aí.

Depois de deixarmos as coisas no hostel, saímos para o calor insular. Na porta já estava o Dudu e um rapaz mais velho. Não se percebia quase nada do que o último dizia e com dificuldade fomos apanhando algumas ideias: era ele quem organizava as visitas à ilha e qualquer coisa sobre a Unesco. O Dudu estava ali sempre a sorrir e, se lhe perguntávamos alguma coisa, dizia que sim. Nós já tínhamos o contacto de um local recomendado por um amigo para nos contar a história daquelas pessoas e lugares. Então o amigo do Dudu começou a chamar ladrão ao outro que entretanto nos encontrou. Explicámos que alugaríamos as bicicletas, mas a visita já estava marcada com o Eddy, esse sim o guia oficial da Unesco. Ofendido e a chamar-lhe repetidamente de ladrão, duplicou o valor das bicicletas e deixou o Dudu a olhar para o chão. Esquece o aluguer, dissemos, e seguimos.

Quando desistiu de nos tentar convencer pelo caminho, seguiu por outra rua. Aí aproximou-se de novo o Dudu e disse-nos conhecer um sítio onde nos alugariam as bicicletas.

– E tu queres vir andar connoco?

– Sim – sorriu num rasgo de serenidade de quem conhece a maior verdade do mundo. Os olhos enormes, curiosos e expectantes. Sentou-se atrás do Pedro e fomos. Eu ia aos tropeções até aprender a conduzir a bicicleta com pneus tão finos e assento torto. O Dudu levantava os pés e ia dizendo: ali é o hospital – apontando um edifício esburacado com ar de abandono – ali é o mercado – passando mulheres com fruta em bacias coloridas à cabeça – ali é o campo de futebol onde antes enterravam os escravos – e na terra crianças a correr atrás da bola.

O Dudu tem onze anos, anda no 7º e quer ser arquiteto para construir uma casa de alvenaria para a mãe. O pai morreu e vive com ela e dois irmãos.

– O que é que mais gostas na ilha?

– Da Escola – diz com naturalidade e sem nenhuma hesitação, como quem diz ali está o sol que nos queima.

Até amanhã, Dudu, e vemo-nos por aí. Ainda não sabemos que também tens uma bicicleta peculiar e que ainda vamos passar muito tempo juntos.

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