Umumbigo


Menos é mais
Março 21, 2017, 10:55 pm
Filed under: crónica

Comecei recentemente um processo de mudanças. Envolve, naturalmente, encaixotar e desencaixotar. E é nesta azáfama que me apercebo da quantidade de coisas desnecessárias que acumulei. Não é novidade: temos tendência a guardar mais coisas do que a libertarmo-nos delas. Vale a pena parar e pensar na ascenção do movimento minimalista: o que pode trazer de bom? Por que é que o livro de Marie Kondo sobre arrumação é um sucesso mundial? Pode realmente transformar vidas?

Durante muito tempo, ter mais foi sinónimo de riqueza e felicidade. Até a evolução da história originar, durante o século XX, uma série de movimentos minimalistas. Da pintura à arquitetura, passando pelo design, literatura, música, tecnologia ou ciência, o purismo funcional e estrutural ascendeu. Samuel Beckett, por exemplo, revolucionou o teatro ao apresentar o máximo com o mínimo: limpou do palco tudo o que era acessório e levou o minimalismo ao texto.

Olho para a primeira caixa que começo a encher. Questiono a utilidade de um ou outro objeto, ou mesmo se a estética tornará o espaço mais bonito. Em última instância, penso no pó que sobre eles se acumulará.

Começo a selecionar melhor.  Já ouvimos várias vezes que a desordem cause stress e que espaços organizados proporcionam um sentimento de bem-estar. Mas também o ato de nos livrarmos de algumas coisa causa stress: algumas pesquisas revelam que, curiosamente, desencadeia atividade na mesma zona do cérebro que regista dor. Também sabemos que, contrariamente, comprar liberta serotonina, mas temos sempre a opção de substituir esse momento por outro com um efeito ainda melhor. E as opções são infindáveis.

Chego ao baú das recordações a abarrotar. Não lembro o significado de algumas, outras continuam importantes. Mas não se intensificam pela presença física e, por isso, liberto-me de muitas.

A simplicidade é um caminho para a liberdade e o desapego é fonte de serenidade. É fundamental termos agilidade para nos movermos sem cargas excessivas, sejam físicas ou emocionais. Por isso, não podemos esquecer que os espaços que habitamos e as nossas emoções estão profundamente ligados.

Procuro amplitude e luz branca. Levar a palco, todos os dias, o que é essencial. Então, como canta a Capicua, “com o espaço quero o tempo”, o maior luxo que devemos cultivar.



cansaço
Março 18, 2017, 8:51 pm
Filed under: citações, de ler

“Velhice não é idade: é um cansaço. Quando ficamos velhos, todas as pessoas parecem iguais. Essa era a lamentação de Silvestre Vitalício. Os habitantes e os lugares já eram todos indistintos quando ele se decidiu pela viagem total. Outras vezes – e foram tantas vezes – Silvestre teria declarado: a vida é demasiado preciosa para ser esbanjada num mundo desencantado.”

Jesusalém, Mia Couto



Bohemian Rhapsody
Março 14, 2017, 9:30 pm
Filed under: crónica

Um amigo escolheu cantar a Bohemian Rhapsody num bar de karaoke, em Maputo. Isto é mais do que uma trivialidade. O Venceslau vai rir-se desta crónica, mas quero falar sobre coragem. Antes dele, está a do Freddie Mercury. Desafiou qualquer convenção com uma energia de outro mundo e talvez por isso haja hoje um asteróide com o seu nome.

Podemos lembrar o vídeoclip de “I Want to Break Free”, em que Mercury, Brian May, John Deacon e Roger Taylor surgem travestidos – o que, naquele tempo, era de abrir muitos os olhos. Ou podemos lembrar a personalidade extravagante e os excessos conhecidos que cometia. Ou o espectáculo em palco que contrariava em tudo a tendência nascente do grunge. Ou a inacreditável escala que a voz de Mercury alcançava e que impressionava até uma diva da ópera como Montserrat Caballe. Podemos lembrar a irreverência e alguma coisa indefinível que era muito única. Ou os mais de 150 milhões de discos vendidos em todo o mundo que mudaram a história do rock.

E agora chegamos ao Venceslau num bar de karaoke, em Maputo, a dar um murro no ligeirinho porque é confortável e nos vamos sair bem. Então que música escolher de uma lista infindável? Se é para ir buscar emoção às entranhas e provocar um estrondo, fácil: a mais difícil de todas que dure 5 minutos e 55 segundos, que tenha mais do que uma língua e um coro (por que não cantar sozinho um coro?), que tenha um solo intenso, que vá da ópera ao rock, que seja confusa, que tenha ainda uma parte instrumental sem fim onde se abane a cabeça em cima do palco. E, claro, que a certo momento se cante: Galileo Figaro! Magnifico, oh! E temos que correr muito porque a vida é um clarão rápido e parar não é opção. É sempre tempo de dançar e aplaudir.

A canção foi composta em 1975 e é uma das músicas mais conhecidas dos Queen, nomeada várias vezes como uma das melhores de todos os tempos.

Provoca em mim uma reacção física e emocional de atracção e estranheza. É isto a vida real? É fantasia? Ninguém sabe. Sei que a Bohemian Rhapsody foi cantada pelo Venceslau com a maior das convicções no preciso dia em que assinalaram 25 anos da morte de Freddie Mercury. Olho para este momento de karoke como uma atitude que devemos ter na vida: muita garra a avançar sem medo, vestidos de ousadia. Não imagino melhor tributo ao Freddie.