Umumbigo


Singular
Maio 15, 2017, 7:22 pm
Filed under: crónica

Depois da vitória e da felicidade partilhada por tantos, não repetirei como a música é bonita. Ou como é encantador ouvir tantas pessoas trautear “Amar pelos dois”. Hoje, quando entrei no prédio onde vivo e esperando pelo elevador, ouvi alguém da porta em frente cantá-la enquanto descobria os acordes doces na guitarra. Não repetirei como a música que toca a alma ultrapassa qualquer barreira cultural e linguística. É possível não perceber uma única palavra e ter a pele arrepiada. É possível pessoas contrastantes sorrirem ouvindo a mesma melodia.

Quero apenas bater palmas ao poder de não nos levarmos a sério. Acredito sinceramente que o Salvador Sobral tem este poder. Acredito ainda que quem não se leva a sério consegue os maiores feitos. E, se a esta capacidade juntarmos a autenticidade, então algo mágico acontece.

O Salvador suscitou muita estranheza quando apareceu pela primeira vez a cantar o tema da Luísa. Quer fosse pelo cabelo despenteado, casaco grande ou gestos e expressões peculiares, saiu de uma formatação habitual. O Salvador foi diferente desse e de todas as vezes seguintes, assim como todos somos diferentes. E é nesta genuinidade que está o encanto. À medida que foi aparecendo mais vezes, senti que conhecia de alguma forma o Salvador, como quem conhece as particularidades de um amigo. Aquele defeito ou aquele tique ou aquela inclinação ou talento para dizer algo de determinada forma. Os nossos verdadeiros amigos não têm máscaras e o Salvador parece também não saber o que isso é. Sabe ser singular e, se tiver de o ser, politicamente incorreto. Parecemos estar perante alguém fiel a si mesmo e isto é raro. A verdade ainda é desarmante.

Surgiu um movimento espantoso e nomearam-no Salvador adorável. Estamos carentes de transparência. Precisamos de pessoas sem filtros, sem melhores ângulos, sem discursos planeados e tentativas de a todos agradar. O improviso do Salvador, como nos grandes músicos de jazz, é a prova de que a surpresa nos mantém vivos. E a simplicidade é o impulso leve que faz tudo estar certo, assim como certo é o elogio do Caetano que vale tanto mais do que a maior taça que se leva para casa.

Não repetirei como a vitória do Salvador trouxe um novo rumo à Eurovisão ou como foi importante cantar em português em Kiev. Não direi uma vez mais como um coração aberto pode amar por todos.

Lembro-me sim de uma coisa muito, muito importante: ter irmãos é uma benção.

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Tempestade
Maio 9, 2017, 2:19 pm
Filed under: crónica

 

O céu cobriu-se de nuvens e o tempo aqueceu inesperadamente. O vento começou a uivar. Fomos embrulhados numa nuvem de calor abafado, húmido, tropical. O ar engoliu-nos de um momento para o outro. Ao sair do trabalho, admirava o tempo quando começaram a cair pingos grossos de chuva. Conheço esta chuva. Começa espaçada, como um aviso de que em breve tudo mudará. Dando tempo para nos abrigarmos algures ou, avisados, decidirmos encarar o temporal.

A imagem mais marcante da tempestada é o céu: lilás. O vento despenteia-nos, despenteia as árvores, despenteia a retidão e a as certezas. E acende-se acima das nossas cabeças uma luz ininterrupta que ilumina tudo. Depois erguem-se os raios, relâmpagos e trovões.

A ameaça de uma tempesta acorda-nos. E a forma como encaramos uma tempestade pode dizer quem somos.

Em Maputo, surpreendi-me ao ver como tantos encaravam o princípio do temporal. Nessa altura, escrevi:

“Aqui as crianças gritam quando há tempestade, como todas as crianças, e também nós por dentro ou talvez mais porque os trovões são chicotes que tocam as raízes da terra e a luz maior. Ninguém manda as crianças entrarem em casa, ninguém, aqui gritam na rua debaixo da trovoada violenta, o rosto molhado encarando o céu, a chuva, a escuridão acesa com medo e ousadia. Talvez sem medo. Ninguém acelera o passo quando o céu de cá está zangado e há um raio a rasgar a noite inteira. Gosto de tempestades porque contra elas somos todos finitos. Aqui somos mais finitos.”

Lembro-me como ninguém corria, ninguém fugia. Na rua mantinha-se um passo normal, porque normais são as tempestades.

No dia em que o Porto pareceu Maputo, ao entardecer, ouvi alguém gritar quando pisei a rua: vai começar a chover a sério! No rosto havia uma expressão de incredulidade, como se o céu não tivesse o direito de desabar. Contrariando o impulso, não corri. As árvores mantinham-se firmes contra o vento. Acenei que sim, que em breve choveria muito, e mantive o passo. Tentei, por um pequeno momento, ter a naturalidade de todos os que, em Moçambique, encaram vezes sem conta o temporal.



Rail & Rest
Maio 8, 2017, 1:43 pm
Filed under: poesia

No Rail & Rest

paramos todos suspensos no tempo

a cortar a comida devagar

até à próxima partida.

A mulher em frente a mim

tem um desalento do tamanho

de toda a humanidade

não sei se pequena,

não sei se grande.

Passam marinheiros do lado

de lá da porta automática.

Eu não sabia que ainda

chegavam marinheiros à estação

de comboio fardados e

engomados, o branco imaculado.

A mulher de colher suspensa entre

a gelatina e a boca

pouco depois fecha os olhos:

parece rezar.

Dorme?

Atrás outra mulher mexe

freneticamente no telemóvel e ri-se

sem ver o desespero à sua frente

que pode ser tédio,

pode ser só muito cansaço.

Também estou cansada

vejo a mulher e não farei nada

– nunca sabemos onde começa

a ajuda ou o incómodo.

Entrou um marinheiro com

chapéu de marinheiro

e interrogação na testa,

quando parte o barco?

Entrou uma mulher de

saco a tiracolo com letras

garrafais: Lyon.

Há um verbo para o ato do

barco iniciar viagem.

Saiu um casal que falou

muito mas não pude perceber

nada, tentei, não pude perceber.

Tinham os dois óculos e

agora ficou silêncio.

Zarpar.

Fala quem serve

– já não tenho sopa nem massa

tenho o que vê –

e aquece a comida esfriada no

micro-ondas como quem se

desculpa de que possa haver

saudades das mães

dos pais, dos avós

do conforto de uma refeição

quente no centro da mesa

e uma família à volta.

Entrou outro marinheiro,

não tem fato como os outros,

no chapéu pude ler armada

mas nada sei sobre hierarquias.

Quando se lançam ao mar?

Quando os lançam ao mar?

O meu comboio não parte agora,

sobra-me tempo para ver

que a mulher frenética

pediu uma caneta, agradeceu.

Os marinheiros jantam e

o que não tem fato sentou-se

noutra mesa só.

Olhei para trás e por isso

a mulher do saco de Lyon

olhou-me nos olhos.

Azul-marinho, agora entendo.

A gelatina ficou a meio,

nunca fui a Lyon,

os sapatos dos marinheiros estão

engraxados, eu fiquei a meio

quando limpam o balcão

e levanto-me.



estrada africana
Maio 6, 2017, 3:17 pm
Filed under: citações

“Era como a estrada africana: só se percebe que existe pela presença de quem a percorre.”

Jesusalém, Mia Couto