Umumbigo


Tempestade
Maio 9, 2017, 2:19 pm
Filed under: crónica

 

O céu cobriu-se de nuvens e o tempo aqueceu inesperadamente. O vento começou a uivar. Fomos embrulhados numa nuvem de calor abafado, húmido, tropical. O ar engoliu-nos de um momento para o outro. Ao sair do trabalho, admirava o tempo quando começaram a cair pingos grossos de chuva. Conheço esta chuva. Começa espaçada, como um aviso de que em breve tudo mudará. Dando tempo para nos abrigarmos algures ou, avisados, decidirmos encarar o temporal.

A imagem mais marcante da tempestada é o céu: lilás. O vento despenteia-nos, despenteia as árvores, despenteia a retidão e a as certezas. E acende-se acima das nossas cabeças uma luz ininterrupta que ilumina tudo. Depois erguem-se os raios, relâmpagos e trovões.

A ameaça de uma tempesta acorda-nos. E a forma como encaramos uma tempestade pode dizer quem somos.

Em Maputo, surpreendi-me ao ver como tantos encaravam o princípio do temporal. Nessa altura, escrevi:

“Aqui as crianças gritam quando há tempestade, como todas as crianças, e também nós por dentro ou talvez mais porque os trovões são chicotes que tocam as raízes da terra e a luz maior. Ninguém manda as crianças entrarem em casa, ninguém, aqui gritam na rua debaixo da trovoada violenta, o rosto molhado encarando o céu, a chuva, a escuridão acesa com medo e ousadia. Talvez sem medo. Ninguém acelera o passo quando o céu de cá está zangado e há um raio a rasgar a noite inteira. Gosto de tempestades porque contra elas somos todos finitos. Aqui somos mais finitos.”

Lembro-me como ninguém corria, ninguém fugia. Na rua mantinha-se um passo normal, porque normais são as tempestades.

No dia em que o Porto pareceu Maputo, ao entardecer, ouvi alguém gritar quando pisei a rua: vai começar a chover a sério! No rosto havia uma expressão de incredulidade, como se o céu não tivesse o direito de desabar. Contrariando o impulso, não corri. As árvores mantinham-se firmes contra o vento. Acenei que sim, que em breve choveria muito, e mantive o passo. Tentei, por um pequeno momento, ter a naturalidade de todos os que, em Moçambique, encaram vezes sem conta o temporal.

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