Umumbigo


vida real
Agosto 27, 2017, 12:03 pm
Filed under: citações, de ler

“Horas sombrias se avizinham, tudo parece indicá-lo. Importa não esquecer, porém, que mesmo nas histórias inventadas é sempre possível a reviravolta, um jeitinho, o flique-flaque, uma torcidela no rumo dos acontecimentos. Isto na ficção, que tanto se embaraça com lógicas e verosimilhanças – quanto mais na vida real, menina com outro desprendimento, superior à vontade, permitindo-se surpresas e fantasias, despreocupada do plausível.”

Mário Zambujal, Histórias do Fim da Rua

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A filosofia de Proust
Agosto 26, 2017, 4:48 pm
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Uma amiga está a mudar de casa. Ao esvaziar a prateleira, reencontrou um livro e antecipou que talvez eu gostasse de lê-lo. É de Alain De Botton e promete desvendar “Como Proust pode mudar a sua vida”. Tendo a suspeitar de títulos como este, mas neste caso não se anuncia algo em vão. São nove reflexões – olhando para a vida de Proust e partindo da obra Em Busca do Tempo Perdido – aplicadas ao nosso dia-a-dia: como podemos viver vidas melhores?

O último capítulo que li (e que felizmente ainda não é o último do livro) intitula-se: Como sofrer com êxito. Lemos o que Proust escreveu:

“Só a enfermidade nos faz estar atentos e aprender, permitindo-nos também analisar processos sobre os quais, de outra forma, nada saberíamos. Um homem que adormece diretamente na cama todas as noites e deixa de viver até ao momento em que acorda e se levanta, decerto nunca sonhará fazer, não necessariamente grandes descobertas, mas até mesmo pequenas observações sobre o sono. Mal sabe que está a dormir. Uma pequena insónia não deixa de ter o seu valor na medida em que nos faz apreciar o sono derramando um raio de luz sobre essa escuridão. Uma memória infalível não constitui um grande incentivo para o estudo dos fenómenos da memória.”

Esta é uma visão otimista que pode mudar a nossa forma de sofrer. Acreditar que podemos extrair valor mesmo do maior sofrimento é, no momento da dor, quase impensável. Mas é importante não esquecê-lo.

Alain explica: “Apesar de podermos, é claro, usar a nossa mente sem estarmos em sofrimento, o que Proust sugere é que nos tornamos verdadeiramente inquisitivos quando estamos aflitos. Sofremos, logo pensamos, e fazemo-lo porque pensar ajuda-nos a contextualizar a dor, ajuda-nos a compreendera sua origem, a aferir a sua dimensão e reconciliar-nos com a sua presença.”

Sabemos que, entre a teoria e a prática, é preciso dar um salto grande. E muitas vezes o sofrimento tolda o pensamento e não parece ter nenhuma saída libertadora. Mas e quando conseguimos transformar as experiências e memórias negativas em ideias? Podem perder parte do poder de magoar, como defende Proust? E chegar a uma vivência mais profunda e significativa? Tentar é a única resposta e parece muito promissora.



memória
Agosto 13, 2017, 3:48 pm
Filed under: citações, de ler

“A memória voluntária, a memória do intelecto e dos olhos, (dá-nos) apenas fac-símiles imprecisos do passado não mais parecidos com ele do que os quadros de maus pintores se parecem com a Primavera […]. Assim, não acreditamos que a vida é bela porque não a recordamos, mas se sentirmos um odor há muito esquecido, ficamos subitamente inebriados; de igual modo, julgamos já não amar os mortos porque já não nos lembramos deles, mas se, de repente, nos deparamos com uma velha luva, desfazemo-nos em lágrimas.”

Proust



enfermidade
Agosto 6, 2017, 8:17 pm
Filed under: citações, de ler

“Só a enfermidade nos faz estar atentos e aprender, permitindo-nos também analisar processos sobre os quais, de outra forma, nada saberíamos. Um homem que adormece diretamente na cama todas as noites e deixa de viver até ao momento em que acorda e se levanta, decerto nunca sonhará fazer, não necessariamente grandes descobertas, mas até mesmo pequenas observações sobre o sono. Mal sabe que está a dormir. Uma pequena insónia não deixa de ter o seu valor na medida em que nos faz apreciar o sono derramando um raio de luz sobre essa escuridão. Uma memória infalível não constitui um grande incentivo para o estudo dos fenómenos da memória.”

Proust



epílogo
Agosto 1, 2017, 10:55 pm
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“Como é óbvio, não pode existir epílogo nem ponto final para uma estória que começa por portanto”

A Geração da Utopia, Pepetela



A menina dos olhos verdes
Agosto 1, 2017, 10:48 pm
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Depois de subir a pé a Avenida 24 de Julho e entrando na rua do meu trabalho, em Maputo, cruzei-me algumas vezes com uma menina alta e com uns olhos verdes gigantes. Deveria ter entre dez e catorze anos, mulata e sempre com missangas coloridas no cabelo encaracolado.

Dia após dia, a menina sorriu sempre que passei. Encontrava-a a caminhar no sentido oposto, ou então a brincar com alguém, ou sentada no passeio a contemplar alguma coisa entre as mãos. Costumava estar calçada, ao contrário de muitos meninos que passavam por ali. Devia ter um irmão mais novo e por vezes sentava-o no colo.

Um dia, a menina falou e disse-me apenas: – Tens os olhos bonitos.

Eu estava a comprar fruta – papaias, mangas e abacates – e a frase dita com tanta espontaneidade e doçura desarmou-me.

Talvez por não ter respondido imediatamente, a menina repetiu:

– Gosto dos teus olhos. São bonitos.

E gostar é simples assim. Disse-lhe que os olhos dela eram muito mais bonitos e riu-se imenso, com as mãos a tapar a boca, e depois começou a rir-se o vendedor de fruta, e rimo-nos todos. 

A partir daquele dia, a menina começou sempre a dizer-me olá com aqueles olhos de miúda muito curiosa a crescer. 

Também nessa rua, um pouco depois de cruzar-me normalmente com a menina, vivia um senhor de idade inimaginável que passava o dia sentado numa cadeira velha, à entrada da garagem. Não era segurança, estava simplesmente ali a ver quem passava e a acenar a todos. Cumprimentou-me todos os dias com alegria, como só poderia ser por ali. Quando estava quase a começar a tempestade, avisava-me que ia chover em pouco tempo e eu acelerava o passo. Quando estava demasiado calor, mostrava-se solidário com o meu possível ar de quem se habitua a um clima muito diferente. Quando lhe disse que não iria passar por ali tão cedo, disse-me só com o brilho nos olhos de sempre: Está bem. 

Por segurança, evitei sempre usar o telemóvel na rua e ainda bem. Restava poder olhar para tudo e todos e estar disponível para estes pequenos encontros que devolvem a esperança nos dias difíceis e redobram a felicidade nos dias bons.

Noutro dia ouvi um olá mas não vi ninguém. Olhei para os lados. O som vinha de cima e semicerrei os olhos por causa do sol violento. 

– Olá!

Olhei com mais atenção. No último andar de um prédio, atrás das grades características de Maputo e de muita roupa colorida a secar, vi os dois olhos verdes grandes a espreitar. Retribui o olá e a menina entrou em casa.

Nunca me perguntou o nome e eu também não. Nunca foi preciso mais do que aquele pequeno momento. Na minha última semana em Moçambique, olhei a rua com mais atenção e não a vi. Então temos um olá em suspenso e, quem sabe, talvez um dia pergunte o nome à menina da rua José Sidumo.