Umumbigo


epílogo
Agosto 1, 2017, 10:55 pm
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“Como é óbvio, não pode existir epílogo nem ponto final para uma estória que começa por portanto”

A Geração da Utopia, Pepetela



A menina dos olhos verdes
Agosto 1, 2017, 10:48 pm
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Depois de subir a pé a Avenida 24 de Julho e entrando na rua do meu trabalho, em Maputo, cruzei-me algumas vezes com uma menina alta e com uns olhos verdes gigantes. Deveria ter entre dez e catorze anos, mulata e sempre com missangas coloridas no cabelo encaracolado.

Dia após dia, a menina sorriu sempre que passei. Encontrava-a a caminhar no sentido oposto, ou então a brincar com alguém, ou sentada no passeio a contemplar alguma coisa entre as mãos. Costumava estar calçada, ao contrário de muitos meninos que passavam por ali. Devia ter um irmão mais novo e por vezes sentava-o no colo.

Um dia, a menina falou e disse-me apenas: – Tens os olhos bonitos.

Eu estava a comprar fruta – papaias, mangas e abacates – e a frase dita com tanta espontaneidade e doçura desarmou-me.

Talvez por não ter respondido imediatamente, a menina repetiu:

– Gosto dos teus olhos. São bonitos.

E gostar é simples assim. Disse-lhe que os olhos dela eram muito mais bonitos e riu-se imenso, com as mãos a tapar a boca, e depois começou a rir-se o vendedor de fruta, e rimo-nos todos. 

A partir daquele dia, a menina começou sempre a dizer-me olá com aqueles olhos de miúda muito curiosa a crescer. 

Também nessa rua, um pouco depois de cruzar-me normalmente com a menina, vivia um senhor de idade inimaginável que passava o dia sentado numa cadeira velha, à entrada da garagem. Não era segurança, estava simplesmente ali a ver quem passava e a acenar a todos. Cumprimentou-me todos os dias com alegria, como só poderia ser por ali. Quando estava quase a começar a tempestade, avisava-me que ia chover em pouco tempo e eu acelerava o passo. Quando estava demasiado calor, mostrava-se solidário com o meu possível ar de quem se habitua a um clima muito diferente. Quando lhe disse que não iria passar por ali tão cedo, disse-me só com o brilho nos olhos de sempre: Está bem. 

Por segurança, evitei sempre usar o telemóvel na rua e ainda bem. Restava poder olhar para tudo e todos e estar disponível para estes pequenos encontros que devolvem a esperança nos dias difíceis e redobram a felicidade nos dias bons.

Noutro dia ouvi um olá mas não vi ninguém. Olhei para os lados. O som vinha de cima e semicerrei os olhos por causa do sol violento. 

– Olá!

Olhei com mais atenção. No último andar de um prédio, atrás das grades características de Maputo e de muita roupa colorida a secar, vi os dois olhos verdes grandes a espreitar. Retribui o olá e a menina entrou em casa.

Nunca me perguntou o nome e eu também não. Nunca foi preciso mais do que aquele pequeno momento. Na minha última semana em Moçambique, olhei a rua com mais atenção e não a vi. Então temos um olá em suspenso e, quem sabe, talvez um dia pergunte o nome à menina da rua José Sidumo.