Umumbigo


Olho
Agosto 12, 2018, 6:17 pm
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A primeira praça: Sultanahmet foi em noite
de eclipse lunar, era a noite de ouvir a primeira
chamada para a oração no minarete alto,
noite de saber que viria ainda a lua vermelha e
casais de mãos dadas nas pedras em frente ao Bósforo
mansidão azul, luzes cintilantes, este chá de bandeja no
Grande Bazar e olha livros mais antigos do que a língua
e todas as histórias de sultões que guerrearam e amaram.
Diziam as escrituras sagradas algo importante antes
do lenço que caiu diante do Corão e o sinal – cobre-te
o sinal antes dos corridas dos romanos no hipódromo
ainda antes do embalo do rio. Isto é Istambul, carrossel
de civilizações e fragmentos misteriosos como o antigo
Império Otomano, o mar Negro, perguntarei pelo harém,
dormiam aqui as concubinas e esta é a cabeça da medusa
debaixo da terra, se a olhares bem assusta um pouco só
se fechares os olhos sentes os dervixes a rodar, a rodar,
mas por favor não fotografar, é um ritual de ascensão
e ne ariyorsan, o da seni ariyor ou what you seek is seeking you.
Tinha sandálias e senti nos pés o vento das saias brancas e a
lua de sangue tão perto de nós passou agora atrás da Mesquista
Azul, brilhava Vénus mas where exactly is my bag, nem Oriente
nem Ocidente, só o sítio desconhecido e raro colhendo nêsperas
pequeninas muito doces cor de açafrão que cheirámos, Sofia que
obriga a subir os olhos, move o pescoço. Dizia Joyce nos lençóis alvos
“Vê agora. Todo o tempo ali sem ti” e qualquer coisa sobre mundo
sem fim num barco a abanar demasiado que serviu o melhor
pão com peixe frito e cebola, juro, debaixo de reflexos dourados
talvez levar um candeeiro bonito assim ou talvez dançar a
música que soa a lantejoulas vinda da carrinha ou parar finalmente
na parede cor de laranja para te fotografar. Olhaste para mim
e eu agora olho-te a ti. “Quem alguma vez nalgum lugar lera
estas palavras escritas?” – as gaivotas lerem, os homens
pescaram na ponte, um gato no mesmo dia percorreu Europa
e Ásia e olhou a bandeira azul celeste, outro chamamento
para rezar e mais um culto ao músculo, posso tocar
ou ficamos a falar na estrada de mais estrada
ir em frente ou para cima como neste balão de ar quente
e agora lembro-me que o dervixe tinha a cara do
homem que dormiu na rua com mulher e bebé
podem duas pessoas ser a mesma pessoa, pergunto
podemos rasgar esta farrapo de nuvem, podemos ouvir
Where do you come from? Welcome, sou o condutor
que subiu o volume da música eletrónica no meio
da paisagem lunar. Isto é a viagem ao centro da terra.
Há montanhas, pedra e tanto calor que o suor seca
antes de escorrer e as rosas não murcham, as videiras
são verdes, o autocarro é uma discoteca e os
eremitas pintam a pedra fria tão alta, Jesus.
É o último dia de julho para vermos finalmente
os cestos serem levados, às quatro e trinta a oração,
às sete a chama sobre os vales rochosos, voar é suave
imaginei-o assim e depois ainda há o fogo no olhar
no peito de quem sabe que isto também é sonhar
às escuras na cave, comendo húmus e azeitonas e o
telemóvel dentro da vela a fazer luzes no teto de
pachás, visigodos, as vossas barbas parecem de
turcos como o que fumou pachorrentamente
num tapete mágico vermelho amarelo azul
são as cores do amanhecer, brindaremos com
champanhe and I love him encantará no lobby.
“Se fôssemos todos subitamente outra pessoa.”
Quando o sono cobre-nos feito manto quente
esqueço-me das histórias, lembro pequenas imagens
a saia esvoaçaste, havia o olho branco do cão
a menina a pedir colo à mãe e o despontar do sol,
havia a forma do chá. Bebi toda a luz do quarto.
Diz “ainda assim agradas mais em desalinho” e
quero água gelada sem tempo de gelar o copo,
olha que “O que no curso da vida perseguimos é mais
querido que tudo o resto” – a mão dá, a mão recebe, a mão toca
tantas almofadas, fly me to the moon ou para as casas
escavadas na rocha. Gosto desta pedra quente do hamam
e ficarei aqui a ser esfoliada, massajada, lavada e envolta
numa nuvem de espuma que cresceu muito, assim eram
os banhos e agora a máscara verde escura no rosto,
esperar até clarear, nos pés sal, lambi e era sal,
os ombros suaves como iogurte e depois de tudo
ouvimos os risos histéricos, som de água e correrias.
Dormi. Mais tarde veria a roupa de quem nos massajou
a secar no radiador – soutien, cuecas, t-shirt e saia. Então
houve luta de água infantil sem burcas, sem harpas, sem
gritos no coche, 22h20 em letras vermelhas grandes
23 graus cá dentro e sacos nas janelas colados para o vómito
não enjoo há algum tempo, deixei de ler no carro, sei que
agora é preciso parar de tomar estas notas porque é preciso
chegar à névoa de Pamukkale – vê o banho de calcário
e o Império romano que chegou até aqui, também as
árvores conquistaram o céu. Ciprestes?
O miúdo preparou a narguilla, fazia calor na varanda
jantamos no chinês e ao lado a miúda loira com o
carrapito no alto da cabeça disse I want to get wasted pois
começou o chamamento, seriam ciprestes.
Com Deus me deito com Deus me levanto rezando na rádio
eu bebo um drink, eu fico tonto, eu vejo montanhas altas
Maomé, vimos o cajado de Moisés e uma roda gigante
parada chamada Ranger e o que interessa isso se
a paz é turquesa e desconhecida e para nos
ligarmos só precisamos de mímica de um quarto
minguante. Há vento tórrido na estação de serviço.
Parem de lavar os vidros, não podem existir assim
tantos mosquitos. Tanto tempo para orar. A surpresa
queima o corpo, pássaros na floresta e cheiro a
fogueira podem salvar. Buganvílias rosa, isso sim.
Bater com uma pedrinha na outra, a rebentação forte
traz sonolência de início da tarde, somos corpos de barro
quente, somos folhas a flutuar horas e horas
tens que relaxar para aprender como, esquecer tudo
tens mesmo que ver os pára-quedistas lá em cima
imagina se dão aquelas voltas, depois da água o céu
mas antes esta tábua de salvação onde nos deitámos
a apanhar sol. Tenho tanto medo de mergulhar de cabeça
e não sei içar a âncora ou seguir o barulho das correntes
lembrando tesouros trazidos do fundo do mar ou escravos
sírios que fizeram este vestido florido molhado de mar
com a gota a fazer o seu caminho nas costas morenas. Eu
cobri a perna de pedrinhas, escolhi as brancas, tu de todas
as cores, escolheu as castanhas arredondadas como feijões,
escolheu as pretas. “Quão magnânimos estamos esta manhã.”
Queria saber que flor desconhecida era a do perfume doce,
já ninguém conhece as flores. Já ninguém lambe os dedos
do cordeiro, alguém ainda guarda pão nos bolsos.
“Lê o teu próprio obituário, dizem que viverás mais tempo.”
Ainda me sinto no barco. “Dá-te um segundo fôlego.”
Na bola saiu o número 1, devo voltar ao lago verde esmeralda.
“Nova concessão de vida.” 1, 2, 3, Take off!
Não te esqueças do poder de uma varanda debaixo das estrelas.

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1 Comentário so far
Deixe um comentário

Mini-António Lobo Antunes <3 Que lindo, Marta!

Comentar por avidaemelhorquandoedoce




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