Umumbigo


genius
Dezembro 17, 2017, 10:25 pm
Filed under: música

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irreversível
Dezembro 17, 2017, 12:59 pm
Filed under: poesia

O momento irreversível em que

algo bonito se estilhaça no chão

prato com história

bule azul

jarra cheia de flores vivas

amor que se esqueceu

– agora uma mão de cacos aguçados

varridos e metidos no lixo

com cuidado

para não me cortar.



história
Dezembro 2, 2017, 12:32 pm
Filed under: de ler

“A história de qualquer uma das partes da Terra, tal como a vida de um soldado, compõe-se de longos períodos de tédio e curtos períodos de terror.”

Derek V. Ager, geólogo



universo
Dezembro 2, 2017, 12:29 pm
Filed under: de ler

“O resultado é que vivemos num universo cuja idade não conseguimos calcular, rodeados por estrelas a distâncias que não conseguimos determinar com precisão, preenchidos por matéria que não sabemos identificar, e a funcionar em conformidade com leis da física cujas propriedades não entendemos verdadeiramente.”

Breve História de Quase Tudo, Bill Bryson



O primeiro carro
Novembro 19, 2017, 11:01 pm
Filed under: crónica

Ainda me lembro da matrícula do primeiro carro que comprei. AS-62-28.

Hoje sou bisavô mas já fui menino. Já fui do tamanho dos meus netos e bisnetos, o que é curioso, porque só me sabem imaginar de óculos e cabelo branco.

O primeiro carro era um Opel Record, seis lugares de livrete. Era vermelho, tu não conheceste.

(Na televisão gritam: Atenção, Griezmann pode marcar! O remate e a defesa, é a terceira grande oportunidade.)

Comprei o carro em 67 ou 68, penso que foi isso. Ninguém sabe hoje como eram aqueles tempos. Ganhávamos a vida com muito suor, com esforço para sermos alguém. Tinha que se lutar muito, ainda hoje tem que se lutar. Temos que lutar todos os dias.

No tempo de menino, a agricultura dava para comer e pouco mais. Não havia caminhos bons, eram tudo caminhos cheios de lama e buracos por onde passavam os bois. Todos tinham nome. Um era Gancho, outro era Malhado. Era o que turrava, esse era terrível.

Nós dizíamos: – Anda cá Lindo, anda cá Gaúcho.

Vejo tudo como se fosse hoje. Vejo ainda a montra pequenita onde se punham as coisas expostas da vidraria onde comecei a trabalhar, em Gaia.  Aprendi então a fazer caixilhos e a colocar vidros.

Depois apareceram uns biscates maiores. Quase não havia vidraceiros, só no Porto para onde passei depois. Essa é outra história.

E os sustos de noite cerrada? Costumava ir para o baile de Guetim, acima ali de uma padaria. Pagavam-se cinco tostões de entrada. Íamos para lá dançar e depois vínhamos embora pelo moinho e pelo meio do pinhal até à estrada que vem de Espinho. Um dia qualquer vinha a chegar aos prédios novos que há agora. Na altura não havia nada. Quando cheguei àquele terreno começou a chover muito e ouvi um barulho de gente.

– Ai Jesus.

Não se via um palmo à frente. E eu perguntei:

– Posso passar?

E fui passando até conseguir ver que era o Cristo.

-Oh Cristo, bandido, estás aqui a esta hora a meter medo à gente?

– Escorreguei!

 (O meu avô ri-se e fala do passado com muito carinho, desfiando um emaranhado de fios preciosos que nos conduzem às memórias ainda tão nítidas. Lembra-se de todos os pormenores. Penso se, também eu, poderei um dia contar histórias tão vivas.)

O carro vermelho, repete, era bonito. Ainda hoje seria um carro bonito.



Pela estrada fora
Novembro 19, 2017, 11:01 pm
Filed under: crónica

Sei que em movimento também se criam raízes. Para mim, viajar é crescer.

Lembro-me bem da entrada nos 25 anos. Passei a meia noite num comboio noturno entre Zagreb e Split, na Croácia.

O Pedro escrevia-me uma mensagem de parabéns num caderninho que guardo com anotações da viagem. Víamos a noite lá fora cortada por pequenas luzes. Estava muito calor e abrimos a janela – seguíamos em frente sentindo o vento morno.

Começámos em Berlim que logo nos encantou com a diversidade e liberdade.

Aí, escrevi: “Vi um muro que caiu e hoje ninguém o pode erguer, como a música que depois de entrar nos poros não volta à superfície da pele. Isso é contra qualquer lei que nos faz ser. Foi assim com o assobio em Tiergarten antes do silêncio e do medo calcado pelos nossos pés doridos, granito dourado que fala de deportações e holocausto e isto é a morte que se ri da dor de alguém igual. Como iguais os que nadam agora na fonte pública, caminham na avenida sob as tílias até à porta da cidade, navegam na ilha dos museus e o que há mais? Lambem as mãos do kebab, têm ressaca de cerveja e ânsia por chegar ao êxtase, têm filhos pequeninos muito bonitos, luzes azuis nos olhos a crescer mais do que a torre de radiodifusão de sinal. Grafitam liberdade contra o esquecimento que nunca se esquece de vir, têm empregos e pagam contas e dizem bom dia, até amanhã ou nada disto mas só calor e fome. E depois há as tatuagens a seduzirem-nos, qual é a tua? Marcam encontros na alternativa e rebelde Berlim, Berlim agitada e vanguardista onde voam no metro tantos cabelos cor do mar que aqui não rebenta. Cabelos soltos ou apanhados como as pessoas são precisamente soltas ou apanhadas num nó impossível de desfazer.”

Depois cidades maravilhosas: Praga, Cracóvia, Budapeste, Viena. Em Roma um imenso calor a colar-se ao corpo e às ideias e os gelados mais maravilhosos para nos salvar. Vivi muito e esqueci-me de escrever. Mas, nos comboios, vi muitas pessoas escreverem cadernos de viagem onde colavam selos, bilhetes, recibos e fotografias. Quis sempre lê-los a todos mas pude apenas espreitar por cima do ombro.

No interrail, li Pela estrada fora, de Jack Kerouac. Não poderia imaginar melhor livro para ler nesta viagem de mochila às costas e aventura no olhar.



átomo
Outubro 28, 2017, 4:45 pm
Filed under: de ler

“Cada átomo que possuímos já passou com certeza por variadíssimas estrelas e foi parte de milhões de organismos pelo caminho, até se tornar parte de nós. Todos nós somos tão atomicamente numerosos, e tão vigorosamente reciclados no momento da nossa morte, que uma parte significativa dos nossos átomos – até cerca de mil milhões para cada um de nós, como já houve quem sugerisse – provavelmente já terá pertencido a Shakespeare.”

Breve História de Quase Tudo, Bill Bryson