Umumbigo


vento
Junho 12, 2018, 11:13 am
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“O vento foi um pássaro e fugiu para fora de si mesmo quando os homens o quiseram capturar. Deixou de ter corpo, fez ninho nas nuvens e viaja com elas para pousar quando se cansa. É por isso que o vento canta. Porque já foi um pássaro. Em menina eu dizia que o vento “assopiava”. E o padre português Rudolfo Fernandes sorria com indulgência. Os idiomas são mulheres: namoram, engravidam e geram filhos.”

O Bebedor de Horizontes, Mia Couto

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passarinho
Abril 22, 2018, 7:17 pm
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“Segurar passarinho na concha meio fechada da mão é terrível, é como se tivesse os instantes trêmulos na mão. O passarinho espavorido esbate desordenadamente milhares de asas e de repente se tem na mão semicerrada as asas finas debatendo-se e de repente se torna intolerável e abre-se depressa a mão para libertar a presa leve. Ou se entrega-o depressa ao dono para que ele lhe dê a maior liberdade relativa da gaiola. Pássaros – eu os quero nas árvores ou voando longe de minhas mãos. Talvez certo dia venha a ficar íntima deles e a gozar-lhes a levíssima presença de instante. Gozar-lhes a levíssima presença dá-me a sensação de ter escrito frase completa por dizer exatamente o que é: a levitação dos pássaros.”

Clarice Lispector, Água Viva



eternamente
Abril 22, 2018, 7:07 pm
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“Mas eternamente é palavra muito dura: tem um “t” granítico no meio. Eternidade: pois tudo o que é nunca começou. Minha pequena cabeça tão limitada estala ao pensar em alguma coisa que não começa e não termina – porque assim é o eterno. Felizmente esse sentimento dura pouco porque eu não aguento que demore e se permanecesse levaria ao desvario. Mas a cabeça também estala ao imaginar o contrário: alguma coisa que tivesse começado – pois onde começaria? E que terminasse – mas o que viria depois de terminar?”

Clarice Lispector, Água Viva



pescando
Abril 22, 2018, 7:03 pm
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“Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não palavra – a entrelinha – morde a isca, alguma coisa se escreveu. Uma vez que se pescou a entrelinha, poder-se-ia com alívio jogar a palavra fora. Mas aí cessa a analogia: a não palavra, ao morder a isca, incorporou-a.”

Clarice Lispector, Água Viva



instante
Abril 21, 2018, 10:44 pm
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“Eu te digo: estou tentando captar a quarta dimensão do instante-já que de tão fugidio não é mais porque agora tornou-se um novo instante-já que também não é mais. Cada coisa tem um instante em que ela é. Quero apossar-me do é da coisa. Esses instantes que decorrem no ar que respiro: em fogos de artifício eles espocam mudos no espaço.  Quero possuir os átomos do tempo.”

Clarice Lispector, Água Viva



entretanto
Abril 21, 2018, 2:59 pm
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“Entretanto: se você já teve por acaso na vida um acontecimento forte, imprevisto (já teve, naturalmente) recorde-se do tumulto desordenado das muitas ideias que nesse momento lhe tumultaram no cérebro. Essas ideias, reduzidas ao mínimo telegráfico da palavra, não se continuavam, porque não faziam parte de frase alguma, não tinham resposta, solução, continuidade. Vibravam, ressoavam, amontoavam-se, sobrepunham-se. Sem ligação, sem concordância aparente – embora nascidas do mesmo acontecimento – formavam, pela sucessão rapidíssima, verdadeira simultaneidade, verdadeiras harmonias acompanhando a melodia enérgica e larga do acontecimento.”

 

(…)

 

63. E está acabada a escola poética “Desvairismo”.

64. Próximo livro fundarei outra.

65. E não quero discípulos. Em arte: escola = imbecilidade de muitos para vaidade dum só.

66. Poderia ter citado Gorch Fock. Evitava o “Prefácio interessantíssimo”. “Toda canção de liberdade vem do cárcere”.

Mário de Andrade, Pauliceia Desvairada



vida real
Agosto 27, 2017, 12:03 pm
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“Horas sombrias se avizinham, tudo parece indicá-lo. Importa não esquecer, porém, que mesmo nas histórias inventadas é sempre possível a reviravolta, um jeitinho, o flique-flaque, uma torcidela no rumo dos acontecimentos. Isto na ficção, que tanto se embaraça com lógicas e verosimilhanças – quanto mais na vida real, menina com outro desprendimento, superior à vontade, permitindo-se surpresas e fantasias, despreocupada do plausível.”

Mário Zambujal, Histórias do Fim da Rua