Umumbigo


Um tesouro
Junho 8, 2017, 8:57 pm
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O meu pai conta uma história que quero muitas vezes ouvir de novo. Gosto particularmente de ouvir contá-la com novos pormenores às netas. Então viajamos no tempo e conhecemos o pai e avô que também foi criança de joelhos rasgados e muitos sonhos nos bolsos.
A história é simples e, literalmente, doce: há 60 anos, o patrão do meu avô deu ao meu pai um pacotinho de quatro ou cinco bolachas de baunilha. Falamos das retangulares, finas, com recheio, estaladiças e propícias a deixarem vestígios de migalhas felizes. O meu pai conta que, na altura, sabia que aquelas bolachas existiam, mas nunca as tinha comido.
Vamos ao momento em que recebeu o pacotinho que embrulhava a oferta mágica. Olhou muito as palmas das mãos ou o que nelas segurava com todo o cuidado do mundo. Os homens adultos despediram-se e era tempo de regressar. O meu avô indicou o caminho, sempre em frente, e o menino caminhou algum tempo com o pacote nas mãos. Por que é que não o abriu de imediato e, neste ponto, já teria a boca lambuzada de baunilha? Talvez para prolongar o enorme espanto.
Estamos quase a chegar à loja dos seus avós maternos, meus bisavós, e é importante olhar para o chão – as ruas são esburacadas. Logo ali há um buraco maior, onde passa a água, e se alguém meter o pé cairá de imediato.
O Joaquim que ainda não sabia o que era ser pai ou avô, só criança de calções pequenos, meteu o pé e caiu de imediato. As bolachas, claro, ficaram esmagadas debaixo do corpo. Mal se levantou analisou os estragos: tudo era migalhas e pedacinhos de baunilha.
O meu pai conta que “foi uma tristeza infernal”. Veio de Grijó até Nogueira a pé sem comer uma única bolacha. Foram vários quilómetros a olhar um tesouro que ainda não queria abrir. Era um pacote só para ele, sem ter que dividir com o irmão. Juraria que seriam bolachas maravilhosas sem nunca as ter provado. Bastava olhar para elas e antecipar o momento em que trincaria uma a seguir à outra.
Mas não choremos sobre o leite derramado ou, neste caso, as bolachas esmagadas. Já sabemos que o buraco não se desviará do caminho e que o menino cairá com o maior susto. Mais tarde, provará as migalhas possíveis.
Hoje, o meu pai adora bolachas de baunilha. Elegeu-as as suas preferidas. E podem comprar-se pacotes grandes com muitas bolachas alinhadas, mas sei que ele, regrado, não comerá mais do que duas ou três de uma vez.
Eu também gosto muito destas bolachas, e gosto ainda mais quando penso neste episódio de infância. Lembra-me que os tesouros são do tamanho da nossa gratidão. Os maiores brilham tanto mais quanto mais agradecidos formos.
Parece simples, então, admirar um tesouro raro. Se soubermos, todos os dias, esquecer o que damos por garantido e surpreendermo-nos com as pequenas e deliciosas dádivas, a nossa felicidade dispara. É por isto mesmo que quero ouvir de novo esta história contada pelo meu pai: faz-me querer olhar para tudo como para um pacotinho de quatro ou cinco bolachas de baunilha que por obra improvável e generosa está nas minhas mãos. Nesse momento, tudo pode ser uma descoberta de olhos a brilhar, venham os trambolhões que vierem.



Singular
Maio 15, 2017, 7:22 pm
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Depois da vitória e da felicidade partilhada por tantos, não repetirei como a música é bonita. Ou como é encantador ouvir tantas pessoas trautear “Amar pelos dois”. Hoje, quando entrei no prédio onde vivo e esperando pelo elevador, ouvi alguém da porta em frente cantá-la enquanto descobria os acordes doces na guitarra. Não repetirei como a música que toca a alma ultrapassa qualquer barreira cultural e linguística. É possível não perceber uma única palavra e ter a pele arrepiada. É possível pessoas contrastantes sorrirem ouvindo a mesma melodia.

Quero apenas bater palmas ao poder de não nos levarmos a sério. Acredito sinceramente que o Salvador Sobral tem este poder. Acredito ainda que quem não se leva a sério consegue os maiores feitos. E, se a esta capacidade juntarmos a autenticidade, então algo mágico acontece.

O Salvador suscitou muita estranheza quando apareceu pela primeira vez a cantar o tema da Luísa. Quer fosse pelo cabelo despenteado, casaco grande ou gestos e expressões peculiares, saiu de uma formatação habitual. O Salvador foi diferente desse e de todas as vezes seguintes, assim como todos somos diferentes. E é nesta genuinidade que está o encanto. À medida que foi aparecendo mais vezes, senti que conhecia de alguma forma o Salvador, como quem conhece as particularidades de um amigo. Aquele defeito ou aquele tique ou aquela inclinação ou talento para dizer algo de determinada forma. Os nossos verdadeiros amigos não têm máscaras e o Salvador parece também não saber o que isso é. Sabe ser singular e, se tiver de o ser, politicamente incorreto. Parecemos estar perante alguém fiel a si mesmo e isto é raro. A verdade ainda é desarmante.

Surgiu um movimento espantoso e nomearam-no Salvador adorável. Estamos carentes de transparência. Precisamos de pessoas sem filtros, sem melhores ângulos, sem discursos planeados e tentativas de a todos agradar. O improviso do Salvador, como nos grandes músicos de jazz, é a prova de que a surpresa nos mantém vivos. E a simplicidade é o impulso leve que faz tudo estar certo, assim como certo é o elogio do Caetano que vale tanto mais do que a maior taça que se leva para casa.

Não repetirei como a vitória do Salvador trouxe um novo rumo à Eurovisão ou como foi importante cantar em português em Kiev. Não direi uma vez mais como um coração aberto pode amar por todos.

Lembro-me sim de uma coisa muito, muito importante: ter irmãos é uma benção.



Tempestade
Maio 9, 2017, 2:19 pm
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O céu cobriu-se de nuvens e o tempo aqueceu inesperadamente. O vento começou a uivar. Fomos embrulhados numa nuvem de calor abafado, húmido, tropical. O ar engoliu-nos de um momento para o outro. Ao sair do trabalho, admirava o tempo quando começaram a cair pingos grossos de chuva. Conheço esta chuva. Começa espaçada, como um aviso de que em breve tudo mudará. Dando tempo para nos abrigarmos algures ou, avisados, decidirmos encarar o temporal.

A imagem mais marcante da tempestada é o céu: lilás. O vento despenteia-nos, despenteia as árvores, despenteia a retidão e a as certezas. E acende-se acima das nossas cabeças uma luz ininterrupta que ilumina tudo. Depois erguem-se os raios, relâmpagos e trovões.

A ameaça de uma tempesta acorda-nos. E a forma como encaramos uma tempestade pode dizer quem somos.

Em Maputo, surpreendi-me ao ver como tantos encaravam o princípio do temporal. Nessa altura, escrevi:

“Aqui as crianças gritam quando há tempestade, como todas as crianças, e também nós por dentro ou talvez mais porque os trovões são chicotes que tocam as raízes da terra e a luz maior. Ninguém manda as crianças entrarem em casa, ninguém, aqui gritam na rua debaixo da trovoada violenta, o rosto molhado encarando o céu, a chuva, a escuridão acesa com medo e ousadia. Talvez sem medo. Ninguém acelera o passo quando o céu de cá está zangado e há um raio a rasgar a noite inteira. Gosto de tempestades porque contra elas somos todos finitos. Aqui somos mais finitos.”

Lembro-me como ninguém corria, ninguém fugia. Na rua mantinha-se um passo normal, porque normais são as tempestades.

No dia em que o Porto pareceu Maputo, ao entardecer, ouvi alguém gritar quando pisei a rua: vai começar a chover a sério! No rosto havia uma expressão de incredulidade, como se o céu não tivesse o direito de desabar. Contrariando o impulso, não corri. As árvores mantinham-se firmes contra o vento. Acenei que sim, que em breve choveria muito, e mantive o passo. Tentei, por um pequeno momento, ter a naturalidade de todos os que, em Moçambique, encaram vezes sem conta o temporal.



escala
Abril 3, 2017, 4:33 pm
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Tendo a colecionar citações. Sempre que leio uma frase que me faz querer relê-la uma ou duas vezes, existem dois motivos possíveis: preciso de compreendê-la melhor ou a ideia iluminou-me de alguma forma. Esta última alternativa faz com que sublinhe ou copie a frase para tentar, mais tarde, reencontrá-la. Como esta, do livro “O colosso de Maroussi,” de Henry Miller:

“Adoro aqueles homens, cada um deles, por me terem revelado as verdadeiras proporções do ser humano. Adoro o solo em que cresceram, a árvore de que brotaram, a luz em que floresceram, a bondade, a integridade, a caridade que emanavam. Puseram-me frente a frente comigo mesmo, purificaram-me do ódio, do ciúme e da inveja. E, o que tem tanta importância como tudo o resto, mostraram-me pelo seu próprio exemplo que a vida pode ser vivida magnificamente em qualquer escala, em qualquer clima, em quaisquer condições.”

Miller descobre na Grécia o sentido da civilização e a força da simplicidade. Mais do que uma viagem física, passa por uma viagem interior realmente transformadora. Entramos numa narrativa cheia de excessos mas em que, curiosamente, adivinhamos também o fundamental. E isso leva-nos à compreensão do conceito de escala.

Tudo é relativo. Sabemos que há sempre algo melhor ou pior. Absolutamente tudo acontece numa escala. Basta olharmos para nós, que habitamos um pequeno ponto do universo.

Várias experiências e acontecimentos alargam a nossa compreensão do mundo. Acontece então algo mágico: como se, até certo momento, medíssemos a vida com uma régua pequena que, de um momento para o outro, torna-se maior. Tudo fica em perspetiva: as convições, os medos, as ambições, as dúvidas. E, felizmente, as nossas ideias tendem então a expandir-se. De um ângulo novo, repensamos quem somos, onde estamos e para onde queremos ir.

De tempos a tempos, é fundamental aumentar a escala. Alargar a amplitude dos binóculos ou imaginar uma mão gigante que pega em nós para nos reposicionar no mundo – isto pode mudar tudo. O que não significa que nos devamos sentir mais pequenos, mas com uma imensidão de novos caminhos ou, se formos otimistas, oportunidades.



Menos é mais
Março 21, 2017, 10:55 pm
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Comecei recentemente um processo de mudanças. Envolve, naturalmente, encaixotar e desencaixotar. E é nesta azáfama que me apercebo da quantidade de coisas desnecessárias que acumulei. Não é novidade: temos tendência a guardar mais coisas do que a libertarmo-nos delas. Vale a pena parar e pensar na ascenção do movimento minimalista: o que pode trazer de bom? Por que é que o livro de Marie Kondo sobre arrumação é um sucesso mundial? Pode realmente transformar vidas?

Durante muito tempo, ter mais foi sinónimo de riqueza e felicidade. Até a evolução da história originar, durante o século XX, uma série de movimentos minimalistas. Da pintura à arquitetura, passando pelo design, literatura, música, tecnologia ou ciência, o purismo funcional e estrutural ascendeu. Samuel Beckett, por exemplo, revolucionou o teatro ao apresentar o máximo com o mínimo: limpou do palco tudo o que era acessório e levou o minimalismo ao texto.

Olho para a primeira caixa que começo a encher. Questiono a utilidade de um ou outro objeto, ou mesmo se a estética tornará o espaço mais bonito. Em última instância, penso no pó que sobre eles se acumulará.

Começo a selecionar melhor.  Já ouvimos várias vezes que a desordem cause stress e que espaços organizados proporcionam um sentimento de bem-estar. Mas também o ato de nos livrarmos de algumas coisa causa stress: algumas pesquisas revelam que, curiosamente, desencadeia atividade na mesma zona do cérebro que regista dor. Também sabemos que, contrariamente, comprar liberta serotonina, mas temos sempre a opção de substituir esse momento por outro com um efeito ainda melhor. E as opções são infindáveis.

Chego ao baú das recordações a abarrotar. Não lembro o significado de algumas, outras continuam importantes. Mas não se intensificam pela presença física e, por isso, liberto-me de muitas.

A simplicidade é um caminho para a liberdade e o desapego é fonte de serenidade. É fundamental termos agilidade para nos movermos sem cargas excessivas, sejam físicas ou emocionais. Por isso, não podemos esquecer que os espaços que habitamos e as nossas emoções estão profundamente ligados.

Procuro amplitude e luz branca. Levar a palco, todos os dias, o que é essencial. Então, como canta a Capicua, “com o espaço quero o tempo”, o maior luxo que devemos cultivar.



Bohemian Rhapsody
Março 14, 2017, 9:30 pm
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Um amigo escolheu cantar a Bohemian Rhapsody num bar de karaoke, em Maputo. Isto é mais do que uma trivialidade. O Venceslau vai rir-se desta crónica, mas quero falar sobre coragem. Antes dele, está a do Freddie Mercury. Desafiou qualquer convenção com uma energia de outro mundo e talvez por isso haja hoje um asteróide com o seu nome.

Podemos lembrar o vídeoclip de “I Want to Break Free”, em que Mercury, Brian May, John Deacon e Roger Taylor surgem travestidos – o que, naquele tempo, era de abrir muitos os olhos. Ou podemos lembrar a personalidade extravagante e os excessos conhecidos que cometia. Ou o espectáculo em palco que contrariava em tudo a tendência nascente do grunge. Ou a inacreditável escala que a voz de Mercury alcançava e que impressionava até uma diva da ópera como Montserrat Caballe. Podemos lembrar a irreverência e alguma coisa indefinível que era muito única. Ou os mais de 150 milhões de discos vendidos em todo o mundo que mudaram a história do rock.

E agora chegamos ao Venceslau num bar de karaoke, em Maputo, a dar um murro no ligeirinho porque é confortável e nos vamos sair bem. Então que música escolher de uma lista infindável? Se é para ir buscar emoção às entranhas e provocar um estrondo, fácil: a mais difícil de todas que dure 5 minutos e 55 segundos, que tenha mais do que uma língua e um coro (por que não cantar sozinho um coro?), que tenha um solo intenso, que vá da ópera ao rock, que seja confusa, que tenha ainda uma parte instrumental sem fim onde se abane a cabeça em cima do palco. E, claro, que a certo momento se cante: Galileo Figaro! Magnifico, oh! E temos que correr muito porque a vida é um clarão rápido e parar não é opção. É sempre tempo de dançar e aplaudir.

A canção foi composta em 1975 e é uma das músicas mais conhecidas dos Queen, nomeada várias vezes como uma das melhores de todos os tempos.

Provoca em mim uma reacção física e emocional de atracção e estranheza. É isto a vida real? É fantasia? Ninguém sabe. Sei que a Bohemian Rhapsody foi cantada pelo Venceslau com a maior das convicções no preciso dia em que assinalaram 25 anos da morte de Freddie Mercury. Olho para este momento de karoke como uma atitude que devemos ter na vida: muita garra a avançar sem medo, vestidos de ousadia. Não imagino melhor tributo ao Freddie.



Subir um coqueiro
Novembro 8, 2016, 9:24 am
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Podemos aprender a trepar um coqueiro. Fizemo-lo numa ilha próxima do Tofo à qual chegámos de barco à vela e é preciso contar como é. Primeiro, há o silêncio absoluto se nos calarmos. Minto, há o vento que naquele dia não era muito. Depois há o jogo de mudarmos de lugar quando a vela lá no alto passa da direita para a esquerda ou da esquerda para a direita. Nunca tínhamos visto ninguém comandar o vento.

Pelo caminho vimos flamingos e mergulhámos para fazer snorkeling e tentar contar as inúmeras estrelas-do‑mar no fundo do oceano. Interrompemos o silêncio quando um casal moçambicano nos traduziu a letra de uma música que alguém pôs a tocar no dialecto changana. Falava de uma mulher a queixar-se ao homem dos erros que cometia.

Não se podem cometer erros ao subir o coqueiro e para chegarmos até ele descemos do barco e caminhamos com água quente pelos joelhos. Aprendemos duas palavras em bitonga para dizer olá às crianças. Dois meninos brincavam com pequenos barcos à vela feitos com pedaços de madeira e tecido. Na aldeia havia música tipo marrabenta a encher o ar de alegria. Conhecemos o chefe da ilha. Quer reformar-se porque o é há quinze anos, mas a comunidade gosta dele. Tem duas mulheres: a primeira não dava filhos, – disse-o assim mesmo – então teve filhos com uma prima. Depois do primeiro nascimento, a primeira mulher engravidou. Agora tem quatro meninas de um lado, quatro meninos do outro. Ri-se muito desta curiosidade.

E o que é que as 888 pessoas que aqui vivem fazem na ilha? As mulheres procuram amêijoa, lulas e camarão. Os homens pescam. As crianças, que são 400, vão à Escola. Podemos conhecer a Escola? São duas salas sem porta e telhado de chapa com um mural desenhado na parede em que lemos a tentativa de se lutar contra a descriminação: “O albino é meu irmão.” Vemos carteiras de madeira e um quadro escrito a giz: “Escola Primária Completa da Ilha de Inhambane”. “Leitura e interpretação do texto da página 76”. Ficamos a imaginar o que dirá o texto mas logo somos interrompido porque há mais a conhecer. Querem ver o hospital? Uma sala com duas macas e dois baldes onde as mulheres dão à luz. E dão realmente à luz: as crianças estão sempre fora de portas. Aqui não há portas.

Na ilha encontramos um casal de médicos com duas filhas pequenas muito loiras, os olhos azuis muito brilhantes. Estão em missão numa vila remota e dizem-nos que as irmãs têm saudades da família, mas gostam muito da praia. Elas correm à volta de um coqueiro entre gritos e rodopios.

Esta explosão de alegria faz-me lembrar um diálogo muito curto: quando íamos na pick-up até à praia que nos levaria ao barco que, por sua vez, nos deixaria na ilha onde nos ensinariam a trepar um coqueiro, passou por nós um miúdo que corria muito para tentar ultrapassar a carrinha. Eu disse qualquer coisa como:

– Que grande sorriso.

O homem que nos acompanhava até à praia também riu com os olhos grandes ao dizer:

– Está feliz.

Parece simples ser feliz e quase me esquecia do principal: é muito difícil subir um coqueiro, não cheguei a metade. Mas desconfio que também o meu sorriso se agigantou.