Umumbigo


futuro
Setembro 22, 2017, 10:19 pm
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“Não era tanto o que havia ao fundo da estrada que assustava Ammu, antes a própria natureza da estrada. Sem marcos quilométricos a acompanharem-lhe o curso. Sem árvores a crescerem na berma. Sem sombras sarapintadas a ensombrarem-na. Sem neblinas a passarem nela. Sem pássaros a esvoaçarem sobre ela. Sem desvios, curvas e contracurvas obscurecidas, ainda que momentaneamente, antes uma visão nítida até ao fim. Isto encheu Ammu de um temor imenso, porque ela não era o tipo de mulher que quer saber o futuro de antemão.”

O Deus das Pequenas Coisas, Arundhati Roy

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vida real
Agosto 27, 2017, 12:03 pm
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“Horas sombrias se avizinham, tudo parece indicá-lo. Importa não esquecer, porém, que mesmo nas histórias inventadas é sempre possível a reviravolta, um jeitinho, o flique-flaque, uma torcidela no rumo dos acontecimentos. Isto na ficção, que tanto se embaraça com lógicas e verosimilhanças – quanto mais na vida real, menina com outro desprendimento, superior à vontade, permitindo-se surpresas e fantasias, despreocupada do plausível.”

Mário Zambujal, Histórias do Fim da Rua



memória
Agosto 13, 2017, 3:48 pm
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“A memória voluntária, a memória do intelecto e dos olhos, (dá-nos) apenas fac-símiles imprecisos do passado não mais parecidos com ele do que os quadros de maus pintores se parecem com a Primavera […]. Assim, não acreditamos que a vida é bela porque não a recordamos, mas se sentirmos um odor há muito esquecido, ficamos subitamente inebriados; de igual modo, julgamos já não amar os mortos porque já não nos lembramos deles, mas se, de repente, nos deparamos com uma velha luva, desfazemo-nos em lágrimas.”

Proust



enfermidade
Agosto 6, 2017, 8:17 pm
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“Só a enfermidade nos faz estar atentos e aprender, permitindo-nos também analisar processos sobre os quais, de outra forma, nada saberíamos. Um homem que adormece diretamente na cama todas as noites e deixa de viver até ao momento em que acorda e se levanta, decerto nunca sonhará fazer, não necessariamente grandes descobertas, mas até mesmo pequenas observações sobre o sono. Mal sabe que está a dormir. Uma pequena insónia não deixa de ter o seu valor na medida em que nos faz apreciar o sono derramando um raio de luz sobre essa escuridão. Uma memória infalível não constitui um grande incentivo para o estudo dos fenómenos da memória.”

Proust



cansaço
Março 18, 2017, 8:51 pm
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“Velhice não é idade: é um cansaço. Quando ficamos velhos, todas as pessoas parecem iguais. Essa era a lamentação de Silvestre Vitalício. Os habitantes e os lugares já eram todos indistintos quando ele se decidiu pela viagem total. Outras vezes – e foram tantas vezes – Silvestre teria declarado: a vida é demasiado preciosa para ser esbanjada num mundo desencantado.”

Jesusalém, Mia Couto



a arte nos dedos
Janeiro 7, 2017, 11:00 am
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“Na verdade, são poucos os que sabem da existência de um pequeno cérebro em cada um dos dedos da mão, algures entre a falange, a falanginha e a falangeta. Aquele outro órgão a que chamamos cérebro, esse com que viemos ao mundo, esse que transportamos dentro do crânio e que nos transporta a nós para que o transportemos a ele, nunca conseguiu produzir senão intenções vagas, gerais, difusas, e sobretudo pouco variadas, acerca do que as mãos e os dedos deverão fazer. Por exemplo, se ao cérebro da cabeça lhe ocorreu a ideia de uma pintura, ou música, ou escultura, ou literatura, ou boneco de barro, o que ele faz é manifestar o desejo e ficar depois à espera, a ver o que acontece. Só porque despachou uma ordem às mãos e aos dedos, crê, ou finge crer, que isso era tudo quanto se necessitava para que o trabalho, após umas quantas operações executadas pelas extremidades dos braços, aparecesse feito. Nunca teve a curiosidade de se perguntar por que razão o resultado final dessa manipulação, sempre complexa até nas suas mais simples expressões, se assemelha tão pouco ao que havia imaginado antes de dar instruções às mãos. Note-se que, ao nascermos, os dedos ainda não têm cérebros, vão-nos formando pouco a pouco com o passar do tempo e o auxilio do que os olhos vêem. O auxilio dos olhos é importante, tanto quanto o auxílio daquilo que por eles é visto. Por isso o que os dedos sempre souberam fazer de melhor foi precisamente revelar o oculto. O que no cérebro possa ser percebido como conhecimento infuso, mágico ou sobrenatural, seja o que for que signifiquem sobrenatural, mágico e infuso, foram os dedos e os seus pequenos cérebros que lho ensinaram. Para que o cérebro da cabeça soubesse o que era a pedra, foi preciso primeiro que os dedos a tocassem, lhe sentissem a aspereza, o peso e a densidade, foi preciso que se ferissem nela. Só muito tempo depois o cérebro compreendeu que daquele pedaço de rocha se poderia fazer uma coisa a que chamaria faca e uma coisa a que chamaria ídolo. O cérebro da cabeça andou toda a vida atrasado em relação às mãos, e mesmo nestes tempos, quando nos parece que passou à frente delas, ainda são os dedos que têm de lhe explicar as investigações do tacto, o estremecimento da epiderme ao tocar o barro, a dilaceração aguda do cinzel, a mordedura do ácido na chapa, a vibração subtil de uma folha de papel estendida, a orografia das texturas, o entramado das fibras, o abecedário em relevo do mundo. E as cores. Manda a verdade que se diga que o cérebro é muito menos entendido em cores do que crê. É certo que consegue ver mais ou menos claramente visto o que os olhos lhe mostram, mas as mais das vezes sofre do que poderíamos designar por problemas de orientação sempre que chega a hora de converter em conhecimento o que viu. Graças à inconsciente segurança com que a duração da vida acabou por dotá-lo, pronuncia sem hesitar os nomes das cores a que chama elementares e complementárias, mas imediatamente se perde, perplexo, duvidoso, quando tenta formar palavras que possam servir de rótulos ou dísticos explicativos de algo que toca o inefável, de algo que roça o indizível, aquela cor ainda de todo não nascida que, com o assentimento, a cumplicidade, e não raro a surpresa dos próprios olhos, as mãos e os dedos vão criando e que provavelmente nunca chegará a receber o seu justo nome. Ou talvez já o tenha, mas esse só as mãos o conhecem, porque compuseram a tinta como se estivessem a decompor as partes constituintes de uma nota de música, porque se sujaram na sua cor e guardaram a mancha no interior profundo da derme, porque só com esse saber invisível dos dedos se poderá alguma vez pintar a infinita tela dos sonhos. Fiado do que os olhos julgaram ter visto, o cérebro da cabeça afirma que, segundo a luz e as sombras, o vento e a calma, a humidade e a secura, a praia é branca, ou amarela, ou dourada, ou cinzenta, ou roxa, ou qualquer coisa entre isto e aquilo, mas depois vêm os dedos e, com um movimento de recolha, como se estivessem a ceifar uma seara, levantam do chão todas as cores que há no mundo. O que parecia único era plural, o que é plural sê-lo-á ainda mais. Não é menos verdade, contudo, que na fulguração exaltada de um só tom, ou na sua musical modulação, estão presentes e vivos todos os outros, tanto os das cores que já têm nome como os das que ainda o esperam, do mesmo modo que uma extensão de aparência lisa poderá estar cobrindo, ao mesmo tempo que os manifesta, os rastos de todo o vivido e acontecido na história do mundo. Toda a arqueologia de materiais é uma arqueologia humana. O que este barro esconde e mostra é o trânsito do ser no tempo e a sua passagem pelos espaços, os sinais dos dedos, as raspaduras das unhas, as cinzas e os tições das fogueiras apagadas, os ossos próprios e alheios, os caminhos que eternamente se bifurcam e se vão distanciando e perdendo uns dos outros. Este grão que aflora à superfície é uma memória, esta depressão a marca que ficou de um corpo deitado. O cérebro perguntou e pediu, a mão respondeu e fez. Marta disse-o de outra maneira, Já lhe apanhou o jeito.”

A Caverna, José Saramago



pedacinhos de ouro
Dezembro 28, 2016, 12:16 pm
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“Autoritárias, paralisadoras, circulares, às vezes elípticas, as frases de efeito, também jocosamente denominadas pedacinhos de ouro, são uma praga maligna, das piores que têm assolado o mundo. Dizemos aos confusos, Conhece-te a ti mesmo, como se conhecer-se a si mesmo não fosse a quinta e mais dificultosa operação das aritméticas humanas, dizemos aos abúlicos, Querer é poder, como se as realidades bestiais do mundo não se divertissem a inverter todos os dias a posição relativa dos verbos, dizemos aos indecisos, Começar pelo princípio, como se esse princípio fosse a ponta sempre visível de um fio mal enrolado que bastasse puxar e ir puxando até chegarmos à outra ponta, a do fim, e como se, entre a primeira e a segunda, tivéssemos tido nas mãos uma linha lisa e contínua em que não havia sido preciso desfazer nós nem desenredar estrangulamentos, coisa impossível de acontecer na vida dos novelos, e, se uma outra frase de efeito é permitida, nos novelos da vida. Marta disse ao pai, Comecemos pelo princípio, e parecia que só faltava que um e outro se sentassem à bancada a modelar bonecos entre uns dedos subitamente ágeis e exactos, com a antiga habilidade recuperada de uma longa letargia. Puro engano de inocentes e desprevenidos, o princípio nunca foi a ponta nítida e precisa de uma linha, o princípio é um processo lentíssimo, demorado, que exige tempo e paciência para se perceber em que direcção quer ir, que tenteia o caminho como um cego, o princípio é só o princípio, o que fez vale tanto como nada.”

A Caverna, José Saramago