Umumbigo


Palavra ao peito
Outubro 26, 2009, 2:29 pm
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por Marta Oliveira

O seu nome é Deolinda e tem idade suficiente para saber que a vida não é tão fácil como parece, solteira de amores, casada com desamores, natural de Lisboa, habita um rés-do-chão algures nos subúrbios da capital.”

Os quatro elementos deste projecto que veio revolucionar o fado português chegam num carro familiar, dois casados e dois irmãos que são também primos da voz feminina. Cúmplices: Ana Bacalhau, Zé Pedro Leitão, Pedro da Silva Martins e Luís José Martins. Em Matosinhos, este será talvez o último concerto do álbum de estreia “Canção ao Lado.”

E, em dias de concerto, a voz deve ser poupada. Mas Ana Bacalhau, extremamente comunicativa, ora doce ora pensativa, desvendou raízes. A colheita de 1978. Falou sobre música, palavra, amor, religião, passado e presente. Não se assume como fadista. Vive a dicotomia entre o coração e a razão. Não gosta de mulheres fracas nem gosta que lhe digam que algo não pode ser feito. Talvez por isto, a Deolinda é efectivamente um projecto inovador difícil de catalogar: há fado, há sons mexicanos e havaianos, há jazz e pop e até cantares brasileiros. Não usam guitarra portuguesa, fora os vestidos pretos de luto em palco, dança-se à vida e adeus ao ar sempre fatalista e triste. Há garra em cada cor e em cada movimento, uma vontade de brindar à alegria. E histórias que revivem o passado, ancoradas no presente. As tradições do povo reinventadas no século XXI. Letras poéticas, sarcásticas e incisivas que se querem ouvidas, bebidas palavra por palavra.

Sabe que a música é uma linguagem universal e conhece os dois lados da questão: tem formação linguística e musical. Ana, e a perfeição? “É do divino, não do mortal. Portanto, a Deus pertence.”

Há um ditado que diz: “Não é fadista quem quer. É fadista quem nasce.” É mesmo assim?

(sorri) Eu acho que sim, eu acho que sim… O que não quer dizer que eu ache que seja fadista. Não sei, acho que não. (risos) Porque para se ser fadista é preciso ter uma sensibilidade muito especial para a vida. É preciso ver as coisas de uma certa maneira e eu não sei se assim o vejo. Geralmente o que eu ouço são os fadistas dizerem que nenhum deles diz que é fadista, preferem que sejam os outros a avaliar se são ou se não.

E, como a Deolinda, é uma contadora de histórias?

Sim, tenho que ser. É a função de um cantor. Temos um instrumento muito especial que tem algo que os outros instrumentos não têm. Para além de fazer som, a voz também produz uma coisa que mais nenhum instrumento consegue produzir: a linguagem humana. E isso faz com que para além de toda a música que há, todos os sons que poderão haver para nós nos exprimirmos, também nos exprimimos através da linguagem. Há regras, há que respeitar o texto que estamos a dizer, a cantar e a contar. E se o texto é uma história, temos que o saber contar para que seja credível, para que as pessoas fiquem atentas às palavras e não só à música. E então, por isso, se as músicas da Deolinda são histórias e a maior parte conta histórias (há outras que não), têm personagens lá dentro, têm personagens que as contam e que interagem com outras. E sinto que o meu papel também é dar vida a essas personagens, a essas histórias.

Esta Deolinda não é então realmente fictícia… A Ana tem muito dela e a Deolinda muito da Ana? Não há uma separação real.

Não, não, claro que não há uma separação vincada. A Deolinda, esta história da Deolinda que vive com os gatinhos e espreita a vida dos vizinhos… Isso é fictício, de facto, a Deolinda não existe fisicamente ou talvez existam não sei quantas Deolindas. Aquela Deolinda não foi inspirada em ninguém. No entanto, é uma extensão das nossas personalidades: não só da minha, e a minha mais obviamente porque sou mulher como a Deolinda, que conta as histórias no feminino, mas também dos outros músicos: o Pedro, o Luís, o Zé. Eles também têm um pouco de Deolinda, no sentido em que é uma extensão daquilo que somos e aquilo que cantamos é um pouco de nós. (sorri)

Li no blogue da Ana uma confissão: “É tão difícil isto de trazer a voz ao peito.” Um sacerdócio?

(risos) É, é um sacerdócio, é como a Elis Regina dizia. Porque para além de todas as especificidades de que há pouco falava, o facto de aliar os sons musicais à linguagem humana, é também um instrumento que trazemos no nosso corpo. Mais nenhum instrumento assim o é. (pausa) Os outros instrumentos precisam de partes do corpo para serem tocados, mas não são carne humana, não nascem nem morrem connosco. São independentes do músico e o nosso nunca o será.

É exigida uma atenção, entrega e carinho especiais…

Completamente. Exige-se cuidado e há outra coisa muito especial: a voz cresce e amadurece e sofre e alegra-se connosco. Portanto, apesar de haver cantores que, com o passar dos anos, perdem o brilho na voz, a maior parte dos grandes cantores ganha uma vivência de vida na voz. A Billie Holiday é um dos grandes exemplos! Ela morreu em 59, se não me engano… E aí a voz já não é o que era nos anos 30 ou 40, quando ela cantava no auge da sua voz. No entanto, uma das músicas que ela gravou já com a voz em declínio, Autumn in New York… Bastam duas notas ou três… (pausa) é algo de indescritível. A emoção de toda uma vida que ela põe em tão poucas notas, numa canção de dois ou três minutos! E nesse sentido, a voz é realmente um instrumento muito especial e é um sacerdócio. Temos que nos dedicar a ela, temos que respeitá-la como respeitamos o nosso corpo, temos que nos respeitar enquanto seres, enquanto seres mortais. Portanto…

Há todos aqueles cuidados com a alimentação ou com a temperatura. Uma série de obsessões que parecem estranhas a quem está do lado de cá.

(risos) Sim, sim. Beber muita água, atenção ao que comemos. Toda a digestão é muito importante. Há alguns cantores que têm um problema: os ácidos sobem e queimam a voz e ai! (risos) Portanto há uma lista de atenções infindáveis. Ainda há a técnica aperfeiçoada para não fazermos mal ao instrumento enquanto cantamos. Aqueles vícios que ganhamos quando andamos todas as noites a cantar… Vícios para as coisas serem mais fáceis mas que não são bons a médio/longo prazo para a nossa voz. Também não podemos falar muito e as cantoras são pessoas que gostam muito de falar. (risos)

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Falemos então de amor. É que a Deolinda diz que não sabe falar de amor. E a Ana?

Ah, pois… (risos) Eu também pouco sei falar de amor. O amor não deve ser tão falado mas sim sentido e vivido.

Há aqui um aspecto curioso. O José é contrabaixista na Deolinda e também o marido da Ana. Como é que isto se conjuga?

No nosso caso sempre foi assim. A Deolinda é uma banda familiar, não só porque o Zé é meu marido mas também porque o Pedro e o Luís são meus primos, eles são irmãos entre eles. E o que às vezes poderia ser visto como sendo algo não benéfico… É benéfico, de facto! Porque sempre tivemos este posicionamento que é natural, não foi sequer combinado entre nós os dois. Já tivemos outras bandas: o Lupanar, o Tricotismo. E mesmo nessas bandas, quando estamos profissionalmente juntos não há esse tipo de relacionamento sentimental… Relacionamo-nos como músicos. Porque nos dias em que temos concertos ou entrevistas ou estamos em tournée trata-se de uma coisa natural. Depois, quando termina o dia profissional… (risos) Aí já somos um casal. Mas não é nada imposto, é bastante natural. E é engraçado porque quando estávamos a tocar num bar de hotel com um trio de jazz (e tocámos durante um ano e meio todas as semanas), só no final, quase quando estávamos a terminar a temporada, é que o empregado do bar se apercebeu que éramos casados porque no fim do ano demos um beijo para nos cumprimentarmos. E falávamos com ele todos os dias! Aliás, nessa altura ainda não éramos casados, éramos namorados e ainda não havia alianças para nos denunciar. (risos)

Isto leva-nos a outra confissão: Não costuma fazer serenatas ao ouvido do amado. A emoção e o coração impedem a técnica e a razão de continuar?

É verdade. Cantar é um exercício de equilíbrio… Um equilíbrio entre aquilo que se sente e que se quer fazer sentir às pessoas. Mas não pode ser um sentimento exacerbado, tem de ser apoiado na tal técnica, na tal musicalidade. Porque às vezes há canções que me fazem quase chorar ou que me fazem rir às gargalhadas. Mas quando canto não posso chorar ou rir às gargalhadas, quer dizer… Não posso desatar a gritar só porque a canção me faz querer gritar. Não é? Tem de haver musicalidade naquilo que se faz. E, assim sendo… (pausa) Quando se está a cantar ao ouvido do namorado… (risos)

O coração fala mais alto.

O coração fala mais alto, sim.

A Deolinda canta gentes, tradições. A Ana vive agarrada às origens, às raízes?

Sim, sim… Mas não sou uma pessoa passadista, ou seja, que esteja sempre a chorar pelo passado e a achar que o passado é que é melhor do que o presente e o futuro. Nesse sentido, não. Gosto muito do presente, tenho muita curiosidade em relação ao futuro, mas também não demasiado elevada. Mas sei que é muito importante para aquilo que somos hoje, para aquilo que queremos construir para o futuro, percebermos o que é que fomos. Perceber o nosso passado, tentar entendê‑lo e fazer alguma coisa de útil com isso. E acho que todos nós na Deolinda sentimos isso e temos essa visão da vida. E por isso, quando estamos os quatro juntos sai isto, sai a Deolinda! Que é isso mesmo, é um ir buscar às tradições, ao passado, referências que podemos utilizar na nossa música, que é original, que é nossa e que está integrada num tempo presente. Isso também se sente. Apesar de se ouvir laivos do passado, penso que se sente o século XXI, o tempo presente em que estamos. Acho que só isso é que faz sentido, pelo menos para nós. É claro que são importantes também trabalhos de outros artistas que fazem recolhas históricas e que trabalham essas recolhas. É um trabalho óptimo e de valor, mas o que queremos fazer, de facto, é exprimirmo-nos sempre tendo em conta as nossas referências mas valorizando o presente.

Saudades dos verões passados em casa dos avós, em Tondela?

(sorri) Oh, eu matei as saudades agora que nós fomos tocar a Tondela há pouco tempo, há um mês! E finalmente pude… Eu cantava lá no largo, com a guitarra, quando ia para lá antes de entrar na Faculdade, durante todo o Secundário…. Levava a guitarra para o largo e cantava. Então, finalmente, pude tocar para mais do que vinte ou trinta pessoas! (risos) Pessoas que moravam lá no Carvalhal, a terra da minha avó, que é perto de Tondela. Pude tocar para uns belos milhares de pessoas de Tondela e do Carvalhal de outros sítios…

Que ainda se lembravam da Ana adolescente que cantava lá no largo.

Sim, algumas sim! E foi óptimo. De facto, para algumas das músicas da Deolinda foi importante essa experiência em Tondela, porque toda aquela imagética dos bailes da aldeia e das procissões… (pausa) Eu vivi tudo isso. Posso emprestar um bocadinho mais de verdade ao cantar porque sei que é assim e vivi-o.

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Mais bucólica do que citadina?

Sou equilibrada em relação a isso. Eu gosto muito do campo, adoro o campo. Adoro o bucolismo, aquela calmia… (sussurra) Mas também adoro o rebuliço da cidade. Eu preciso dos dois.

E alguma vez algum rapaz ouviu da boca desta Ana adolescente, “meu rapazinho és fraco p’ra mim!”?

Deve ter ouvido de certeza! (risos) Sim, essa atitude de mulher com o nariz empinado, como se costuma dizer, segura… Eu revejo-me muito nesse tipo de mulheres que a Deolinda canta.

Mulheres donas de si.

Sim, não me veria a cantar a canção da desgraçadinha, da mulher fraca. Ai, não gosto de mulheres fracas. Por isso, não me veria a cantar isso.

A Deolinda vive com dois gatinhos, um peixinho vermelho e ainda tem um melro. A Ana apoia o Partido Pelos Animais. Já teve um gato Viriato, agora um gato Sebastião…

E tive um Bolinhas, foi o primeiro!

Há uma relação forte com animais.

Sim, há. Há. E é um amor que vem já desde criança. Eu acho muito importante para as crianças terem um animal de estimação para poderem aprender o respeito e o carinho pelos animais e perceberem que são seres que sentem, que têm emoções, que têm dores e alegrias e que têm memórias e se lembram das coisas. Qualquer pessoa que tenha um animal percebe que ele tem memória, e que ele nos dá um amor incondicional, sempre preciso. É necessário sentirmos isso, sentir que está ali um ser que nos ama com todas os nossos defeitos. E então ter gatos, no meu caso, ajudou-me desde pequenina a ter um maior respeito pelos nossos colegas animais, porque nós também somos animais. Portanto, temos de os tratar como gostamos de ser tratados, com o devido respeito. Também sou contra aquelas pessoas que tratam os animais como reis, que os vestem, que comem à mesa com eles. Não é assim, não é isso. Obviamente sou contra as peles, as touradas, tudo o que me faça sentir que há ali um sofrimento que devia ser facilmente evitado. Só por vaidade ou por diversão… Não me parecem desculpas suficientemente fortes para se estar a provocar aquele sofrimento nos animais. E eu não sou vegetariana, mas cada vez mais prefiro comer comida vegetariana. Qualquer dia acho que vou dar esse passo. Às vezes, ahh, arrepio-me a olhar para o prato. Mais tarde ou mais cedo, isso vai acontecer.

A Deolinda também compõe a olhar por entre as cortinas de janela, inspirada pela vida bizarra dos vizinhos. A Ana é também uma observadora? Atenta aos pormenores?

(gargalhada sonora porque no palco se ouve alguém a testar o microfone com uns lá lá lás teatrais)

Perdão, é o nosso técnico de luz que também canta muito bem! (risos) Sim, eu acho que sou observadora sem ser… (pausa) cusca, como se diz! (risos) Não gosto de me meter na vida alheia. Mas gosto de ir no metro, ou nos transportes públicos e observar os diversos comportamentos das pessoas. A forma como agem, como falam… Então enquanto cantora gosto muito de perceber. Adoro sotaques. Eu estudei a Literatura e Língua, Linguística também estudei.

O facto de ter estudado a palavra ajuda-a a cantar?

Sem dúvida, sem dúvida. Ajuda-me a ter noção de que as letras não existem para estar ali, só para se ter algo para dizer. Não. As letras, se são feitas da maneira certa, existem para serem valorizadas pela voz. Não é? Nós temos que ser uma mais‑valia à letra e temos de ser fiéis ao que a letra quer dizer. E não nos apoderarmos dela ou depois ouve-se a canção e nem se tomou atenção ao que o cantor ou cantora estava a dizer, só se ouviu malabarismos da voz. Isso não é de todo aquilo que quero fazer. E, ao mesmo tempo, em linguística também pude perceber que a entoação das frases é um outro mundo. Ou seja, há a linguagem verbal, e há outro tipo de linguagem que é dada não só corporalmente mas também pela forma como as frases e as palavras são enunciadas, pela entoação, pelo tom de voz. E tudo isso eu tento aplicar à Deolinda. Não é que esteja a estudar livros de linguística para depois ir cantar. Mas, como a linguagem e a língua são uma paixão minha, é-me natural prestar mais atenção a esses pormenores e depois integrá-los na forma como canto.

E este projecto é uma revolução no fado português. Quebram-se clichés. A Ana luta contra convenções? É um “agora sim” da gente com garra, inovadora, contra o “agora não” dos acomodados?

Eu acho que quebrar convenções por quebrar também é uma parvoíce. Eu não sou muito amiga daquela coisa de… (muda o tom de voz) A tradição é assim, portanto não se pode mexer. Fico logo… (pausa) Apetece-me logo quebrar por quebrar! (sorri) Irrita-me quando me dizem que não se pode fazer. Irrita-me! (realmente irritada) Não gosto que me ponham barreiras quando pode não haver. As coisas podem ser feitas de maneiras diferentes sem se injuriar aquilo que se está a fazer. É preciso lidar com delicadeza para se saber o que se está a fazer, estudar muito bem aquilo em que se está a trabalhar… E, com isso, dar a nossa visão. Porque cada músico, como qualquer ser humano, é único e irrepetível. Portanto, aquilo a que o músico aspira é servir o melhor possível através da sua arte, sua, que é única e irrepetível porque é sua. É daquele músico. Portanto, qualquer coisa que faça musicalmente vai ser só sua, única e irrepetível. Um bom músico não vai estar a repetir nada que já esteja feito. Vai sempre acrescentar qualquer coisa, vai sempre inovar, nesse sentido. Trazer algo de novo, seu. É assim que eu vejo o meu trabalho. Eu quero pôr a minha impressão digital. A Maria João fala muitas vezes de pôr a impressão digital dela. E é isso mesmo! Não é chegar e: ah, deixa-me cá ver o que é que ainda não foi feito… Vou tentar fazer. Não é isso, é a singularidade.

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Ainda há o medo de pisar o palco ou houve alguma vez? Algum ritual? Superstições?

Medo? Há cada vez mais. A responsabilidade é cada vez maior. Quanto mais olhos nos estiverem a ver, mais olhos podem ver os nossos triunfos. Ou os nossos… (pausa) desastres em palco.

Que até agora não existiram.

Até agora, graças a Deus, não houve um desastre desastroso, uma tragédia grega. Mas estamos sempre à espera que aconteça! (risos) Em relação a superstições, não tenho aquelas coisas… A única coisa que faço é repetir as letras para mim antes de começar, tenho muito medo de me esquecer das letras. E depois, antes de entrar, damos um abraço uns aos outros. Sentimo-nos. Como não nos vamos poder sentir até ao final do concerto, até agradecer ao público e tocarmo-nos novamente… Então vai ser a última vez em que nos tocamos, depois em palco tocamos (pausa) e no final voltamos a tocarmo-nos para agradecer as palmas!

Dizem que rezar é cantar duas vezes. A Ana acredita em Deus?

Acredito, acredito, acredito em Deus sim. Acredito tanto que os meus pais não me baptizaram, deixaram-me escolher. Baptizei-me em adulta, na plena consciência do que eu queria fazer. E, portanto, eu própria fui buscar a religião.

Não foi imposta.

Não, não foi imposta. Esta ligação com Deus fui eu quem a foi buscar. É algo de que sinto orgulho, não é? Se acredito e se foi de livre vontade, enfim, tem muito valor para mim. Acredito, acredito em Deus mas não sou daquelas crentes que têm de impor aos outros que Deus existe. Eu sei que Deus existe, porque já, já… (pausa) Já me provou várias vezes, com subtileza, sempre. Porque as coisas divinas são sempre subtis. Mas senti que estava comigo, nesta ou naquela altura, senti a sua mão, e desde aí há uma ligação. Ligação essa que passa também por cantar… Pela música! A música é uma arte divina, é um dom. O dom da música, na Bíblia, é tido como um dom de Deus, que Deus atribui aos homens. Dentro de outros dons, como o dom da oratória. E, portanto, cantar é rezar duas vezes. Sim, definitivamente. (sorri)

Isto leva-nos também a influências musicais. Sei que tem uma grande admiração pelos espirituais negros. Sam Cooke, por exemplo. Também Amália, Callas, Elis, Maria João, Belafonte, Nina Simone, Bob Dylan…Mas a maior admiração é pela Janis Joplin, verdade?

A Janis… A Janis. A Janis é a maior panca! (risos) Já desde miúda… Não direi obsessão porque obsessão é uma palavra que parece doentia. Mas é uma paixão que começou quando estava no 11º, 12º… Um amigo meu gravou-me uma cassete com o Vs. dos Pearl Jam. E no lado B da cassete… Porque as cassetes tinham dois lados! Para as novas gerações é algo que deve ser explicado. (risos) No tal lado B, ele gravou-me o Pearl da Janis Joplin. E eu comecei a ouvir… Primeiro estranhei a voz. Não estava nada habituada a ouvir uma voz assim… Depois entranhou-se, entranhou-se até aos dias de hoje.

Um exemplo.

É um amor, um amor. (sussurra) E foi com ela que eu comecei a ouvir… Eu gostava tanto dela que quis ouvir a história dela, ler a história dela e saber quais as influências dela. Por causa disso, fui descobrir o jazz, os blues, a Sarah Vaughan, a Odetta, a Ella Fitzgerald, as grandes, as grandes cantoras! E a partir daí comecei a ouvir tudo! Depois fui à procura da nossa música portuguesa. E depois fui à procura da música clássica, depois fui à procura de tudo. Foi com ela que eu quis ouvir outras coisas. E, para mim, um músico é duplamente feliz quando a sua obra pode inspirar alguém e quando através de si se podem descobrir outros músicos e outros trabalhos. Acho isso fantástico.

E já no secundário e Faculdade andava sempre com a guitarra a tocar e cantar. Já havia fãs?

(risos) Tinha os meus colegas e os meus amigos, pois! No secundário era eu e Vânia… Cantávamos e às vezes tocávamos guitarra nas aulas, especialmente nas de francês… Pediam à professora para tocarmos em vez de termos aula. (risos)

Era certamente mais divertido. A Ana trabalhou ainda nos Arquivos do Ministério das Finanças. Onde é que arquiva todos os concertos e digressões?

Ui! Nisso… Bem, em casa de ferreiro espeto de pau. Eu não tenho um arquivo nada bem organizado. Estas coisas…

Arquivam-se nas gavetas da memória.

Lá está. Sim, por não ser demasiado apegada ao passado, também não tenho por exemplo um livrinho de recortes. Já a minha mãe deve ter! (risos) Eu prefiro ter aqui dentro, aqui dentro. Guardo fotografias, gosto muito de fotografias, mas o que sai nos jornais ou revistas compro e deito fora, nem me lembro. Prefiro ter tudo na cabeça, gosto mais assim.

Os projectos Lupanar e o Tricotismo, já referidos hoje, não alcançaram tanto sucesso como a Deolinda. Entregou-se aos três da mesma maneira? Com a mesma convicção?

Sim, tinha de ser e tem de ser. Em tudo o que estamos musicalmente tem de haver essa entrega. Acho que estes dois foram muito importantes e não foi por acaso que a Deolinda teve sucesso…Todos nos já vínhamos de outros projectos, aprendemos o que fazer e o que não fazer e fizemos tudo bem com a Deolinda. (risos)

Trabalha agora numa grande família onde há primos e casados. Provavelmente até os Natais são cantados…

(gargalhada sonora) Não! Agora não, “agora não” que eu quero descansar…É aquela dicotomia entre o querer cantar e o ter juízo para não fazer mal à voz e para deixá-la descansar.

São tão acarinhados pelo público e crítica. O que é que falta alcançar? Qual o lado negativo do sucesso? A mediatização foi bastante rápida tendo em conta o tempo da Deolinda…

Sim, o projecto tem três anos. Há uns lados menos bons, mas eu acho que quem faz aquilo que gosta não vê lados negativos naquilo que faz. Há certas coisas, sim. As viagens, estar sempre com a mala na mão e não ver a família, o gatinho que tem que ficar em casa dos meus pais, às vezes, e custa-me deixá-lo. Fica com aquela carinha triste… Custa‑me deixá-lo. Mas, de resto, é tudo óptimo. O que é que ainda temos para fazer? Temos muitas coisas. Eu quero ser cada vez melhor cantora, quero fazer melhor música. E penso que todos eles também querem. Há imensos sítios onde queremos tocar, imensos países por onde gostaríamos de passar…

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A Deolinda chega agora de uma tour pela Holanda, ruma à Polónia…

É verdade. Estamos a apostar não só em Portugal, mas também no estrangeiro.

E são muito bem recebidos.

Sim, somos muito bem-vindos. Apesar de lá fora não terem a percepção imediata das letras, só depois de comprarem o cd é que têm as letras traduzidas para inglês. Mas, antes de cada canção, (mais ou menos como faço aqui em Portugal, mas lá mais detalhadamente) faço uma introdução a explicar qual a história do que vai ser cantado…

A tal relação entre a linguística e a música. E há algum tema de eleição no álbum “Canção ao lado?”

Depende do dia, do momento. Em relação ao álbum, gosto muito to take “Eu tenho um melro”. Nós gravámos como se fosse um concerto, tocámos todos ao mesmo tempo. Geralmente a guitarra grava, depois grava a outra, depois a voz. E ali tocámos como se fosse o concerto. E gosto muito de cantar “Clandestino” e “Mal por mal” (sorri).

Depois de tantas viagens, uma conclusão: Lisboa não é a cidade perfeita?

(pensativa) Não, e ainda bem porque achamos e somos partidários de que a perfeição é uma chatice… (susurra) Nós gostamos muito mais daquilo que é imperfeito, e logo daquilo que é mortal, porque nós, como pessoas, seres humanos, somos mortais, logo imperfeitos. Para mim, é muito mais interessante a imperfeição do que a perfeição. A perfeição é do divino, não do mortal. Portanto, a Deus pertence.