Umumbigo


A amiga genial
Outubro 20, 2016, 3:02 pm
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Há livros que se tornam nossos amigos e deixam saudade. Recentemente virei a última página da tetralogia “A amiga genial”, de Elena Ferrante. Quando fechei o quarto livro e olhei longamente a capa, senti o prazer imenso de me ter embrenhado na história entre as duas amigas Lila e Lenú. A trama familiar e o ambiente de Nápoles, nos anos 50, falam-nos do equilíbrio ténue entre expectativa e realidade, sonho e quotidiano.

No primeiro volume, entramos na infância e no terrível medo por Don Achille, rosto da máfia, para acompanhar o nascimento do complexo relacionamento das duas amigas na violência do bairro. É um espelho de todo o princípio da humanidade, instável como um mar revolto. Chegamos à sua adolescência e com ela uma história dos sapatos que muda a vida de Lila. A partir daí, conhecemos uma personagem com muitas vidas dentro de uma, lutando contra o meio em que cresceu e contra si própria. “Ah, a Lila sapateira, a Lila que imitava a mulher de Kennedy, a Lila artista decoradora, a Lila operária, a Lila programadora, a Lila sempre no mesmo sítio e sempre fora de sítio.” É uma mulher de espanto e detentora de um lado obscuro muito poderoso. Inteligentíssima, desconcerta tudo e todos.

No segundo volume, “História do Novo Nome”, o auge da juventude surpreende-nos em cada força e fraqueza. Lila corajosa e rebelde, exercendo o domínio. Elena estudiosa e pacata, procurando aprovação e superação.

Em “História de Quem Vai e de Quem Fica”, o tempo intermédio das amigas, sublinhei esta frase:  “Desatou a rir. Disse que o rosto asqueroso das coisas não bastava para escrever um romance, que sem fantasia nem parecia um verdadeiro rosto, mas sim uma máscara.” É esta máscara que não encontramos na escrita de Elena Ferrante. Assume uma crueza absoluta e consegue algo muito difícil de atingir: toca a verdade. A verdade íntima de cada um, como só poderia ser, abrindo portas para uma descoberta avassaladora.

No último livro, “História da Menina Perdida”, estamos nos anos da maturidade e velhice. Continuamos a apanhar escombros emocionais, sem fôlego, sabendo que não podemos reter a areia que cai furiosamente pelos dedos. Mas Elena Ferrante observa e explora cada pequeno grão como uma montanha. A certo momento, ouvimos: “Quando há muito silêncio, disse, vêm-me tantas ideias à cabeça, não faças caso. Só nos romances feios é que as pessoas pensam sempre a coisa certa, dizem sempre a coisa certa, cada efeito tem a sua causa, há os simpáticos e os antipáticos, os bons e os maus, e no fim tudo te consola.” Claro que Elena Ferrante não procura um final feliz e apaziguador, procura honestidade e o âmago dos nossos sentimentos ambíguos. Procura contar a vida como ela é, um vento que tanto acaricia a pele como se transforma em vendaval que levanta telhados e arranca raízes.

Enquanto lia o terceiro livro, saiu uma notícia em que Marcelo Rebelo de Sousa recomendava a leitura de Elena Ferrante a Costa e Passos. Comprova como este nome ganhou enorme mediatismo nos últimos tempos, envolto numa onda de mistério e intangibilidade. Supõe-se que Elena Ferrante é uma escritora italiana, mantendo o anonimato para proteger a obra do contágio da sua vida e permitir-se liberdade absoluta. Dá raras entrevistas por escrito e diz-se estar a escrever. Que bom. Entretanto, uma investigação jornalística clamou desvendar a identidade de Elena Ferrante, despoletando muitas reacções. Espero apenas que nada disto ponha em causa a escrita: precisamos muito dos livros de Ferrante.

A personagem Elena também escreve. É ela mesma quem conta a história da amiga Lila, que aos sessenta e seis anos desaparece sem deixar rasto. Não quisemos já todos, por um momento, desaparecer?

Acabo de ler um terramoto que abre brechas que não se fecham. Que sorte a de quem tem ainda o mundo da Amiga Genial por descobrir.

in Defesa de Espinho, 19 outubro 2016



estrada
Outubro 11, 2014, 12:12 pm
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“Não havia nada para trás, estava tudo à frente, como sempre acontece na estrada.”

Pela estrada fora – O rolo original, Jack Kerouac



A coincidência
Agosto 22, 2010, 6:09 pm
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E o caixilho da janela e as rosas lá fora e mais além a relva e as árvores e a tarde que ia avançando por entre as falésias e ravinas e solitários penhascos. As sombras que se deslocavam imperceptivelmente  pelo interior do pavilhão criando ângulos onde antes não existiam, incertos desenhos que apareciam de repente nas paredes, círculos que se esfumavam como explosões de som.

– A coincidência não é um luxo, é a outra face do destino e também algo mais – disse Johns.

– Mais o quê? – perguntou Morini.

– Algo que escapava ao meu amigo por uma razão muito simples e compreensível. O meu amigo (talvez seja uma presunção da minha parte chamar-lhe assim) acreditava na Humanidade, portanto, acreditava na ordem, na ordem da pintura e na ordem das palavras, pois a pintura não se faz com outra coisa. Acreditava na redenção. No fundo, até é possível que acreditasse no progresso. A coincidência, pelo contrário, é a liberdade total a que estamos condenados pela nossa própria natureza. A coincidência não obedece a leis e se lhes obedece nós desconhecemo-las. A coincidência, se me permite a comparação, é como Deus que se manifesta em casa segundo no nosso planeta. Um Deus incompreensível com gestos incompreensíveis dirigidos às suas criaturas incompreensíveis. Nessa comunhão, nessa implosão óssea, realiza-se a comunhão. A comunhão da coincidência com os seus rastos e a comunhão dos seus rastos connosco.

2666, Roberto Bolanõ



tecer, fiar, bordar
Março 13, 2010, 10:54 pm
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“Gostaríamos de saber, em crianças não temos coragem — em miúda, abria os olhos e os ouvidos, mas nunca perguntei nada —, deixamo-los envelhecer sem nos dizer, esquecer, perder o tino, morrer, e a história deles deixa de ter testemunhas, a sua história de amor deixa de ter historiógrafo, resta apenas bordar, ser  o rapsodo de farrapos e de pedaços, resta apenas fazer como a minha bisavó — era costureira: unir os tecidos, os têxteis, os textos, coser bocados desirmanados de sonhos e de panos, de panos de que são feitos os sonhos. Ignoramos se conseguiriam usá-las, a essas roupas que fabricamos em memória deles fazendo fé em fotografias esmaecidas e relatos soltos. Não se sentiriam um pouco apertados? Já não nos lembramos bem das suas medidas nem do seu tamanho, talvez não tenhamos a medida exacta da sua vida, dos seus amores, mas é assim , só resta tecer, fiar, bordar — claro, claro que não é o texto de origem, não são peças históricas, não estávamos lá, não se consegue reconstituir fielmente a história do amor, é somente uma história de amor, histórias de amor, borda-se, inventa-se, entremeamos as deles e as nossas, não se é fiel — mas que importância é que isso tem? — como dizia a minha bisavó quando lhe fazíamos um relato demasiado longo cujas peripécias se coadunavam mal com a sua própria vivência: isso é romance.”

O amor, romace, Camille Laurens



O Outono do Patriarca
Agosto 22, 2009, 7:15 pm
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gabo“…ele perguntava a si próprio confundido no seu esconderijo que aconteceu no mundo que nada se alterava com a patranha da sua morte, como é que o Sol tinha nascido e tinha voltado a nascer sem tropeçar, porquê este ar de domingo, mãe, porquê o mesmo calor sem mim, perguntava a si próprio assombrado, quando soou um tiro de canhão intempestivo na fortaleza do porto e começaram os dobres dos sinos mestres da catedral e subiu até à casa civil o tropel das multidões que se erguiam do marasmo secular com a maior notícia do mundo…”

Segundo Gabriel García Márquez, “uma transgressão total da gramática”. O Outono do Patriarca pareceu-me, nas primeiras folhas de árvore madura, uma leitura demasiado difícil e um esforço de concentração superior ao calor do Verão. Acabou por ser um dos melhores livros que li até hoje, um poema num estilo tão lírico quanto em estado de brutidão, entre a glória e a podridão de um poder solitário e opressivo, um fantoche de vida. Todos os vícios do poder supremo: um ditador sem nome, numa idade inimaginável, tão velho que já não nos lembramos da sua tomada de posse, com cinco mil filhos e uma hérnia no testículo, cigarras nos ouvidos. As vacas que invadem o palácio residencial, as galinhas que põem ovos nas gavetas. E um mar das Caraíbas que lhe fugiu, vendido, agora uma cratera lunar, “que catano”, diria o general. As rosas obedeciam à sua alvorada, trocada a noite pelo dia e até o cometa passou quando foi ordenado.

Sarcástico e incisivo, para o mim o livro é quase angustiante de tanto brilhantismo.

«O mundo do filho bastardo de uma criadora de pássaros, apanhado pela morte numa idade incerta entre os 107 e os 235 anos, atacado pelo “vício solitário do poder”, que descobriu nos seus anos incontáveis que “a mentira é mais cómoda do que a dúvida, mais útil do que o amor, mais perdurável do que a verdade”.»

in Colecção Mil Folhas



diálogos do nada
Julho 25, 2009, 2:15 pm
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” — Não. Nunca fui senhor dessa confiança e não sou tão novo como tu. Anda daí. Acaba lá com essas tolices e fecha a porta, anda. Eu sou daqueles que gostam de ficar até tarde no café — disse o criado mais velho. — Com todos aqueles que não têm vontade de ir para a cama. Com todos aqueles que precisam de luz à noite.

— Pois eu quero ir para casa deitar-me.

— Somos de raças diferentes, nós. — tornou o outro, que já trocara a farda pelo fato vulgar. — Não é só uma questão de mocidade e de confiança, embora essas duas coisas sejam preciosas. Todas as noites me custa fechar porque pode haver alguém que precise deste café.”

— Hombre, há para aí tabernas abertas toda a noite.

(…)

Fechando a luz eléctrica, continuou a falar consigo próprio. «É a luz, claro, mas também é preciso que o lugar seja limpo e agradável. Música não se quer. Claro que não se quer música. Nem se pode estar a um bar com dignidade, embora seja o mais indicado para certas horas. De que teria ele medo? Não, não era medo, nem pavor. Era qualquer coisa que ele conhecia muito bem. Era o nada e o facto de homem ser igualmente nada. Era só isso. E tudo quanto ele necessitava era de luz e de uma certa limpeza e arrumação. Alguns viviam num meio semelhante e nunca davam por isso, mas ele sabia que tudo se reduzia a nada y pues nada y nada y pues nada. Nada nosso, que estais no nada, nada seja o vosso nome, venha a nós o vosso nada seja feito o vosso nada assim no nada como no nada. O nada de cada dia nos dai hoje e perdoai-nos o nosso nada, assim como nós perdoamos os nadas, não nos deixais nada do nada, mas livrai-nos do nada; pues, nada. Salve nada cheia de nada, nada está convosco.» Sorriu-se e entrou num bar, onde se postou diante de uma reluzente máquina de café.

— Que há-de ser? — perguntou o homem do bar.

— Nada.

Otro loco más — disse o homem do bar, afastando-se.”

Ernest Hemingway, As neves de Kilimanjaro