Umumbigo


Até já, Dudu
Dezembro 8, 2016, 2:30 pm
Filed under: Moçambique

III

Estava a entardecer quando vimos finalmente o Dudu andar de bicicleta. Depois dos vários pequenos arranjos, o menino da ilha de Moçambique vinha a pedalar rapidamente com um sorriso de orelha a orelha.

– Agora sim!

Convidámos o Dudu para almoçar connosco no dia seguinte. Fomos ao bar da Sara onde a especialidade é matapa de siri-siri que nos delicia com algas marinhas, castanha de caju, amendoim, leite de coco e papaia. O Dudu escolheu frango de churrasco e disse que também gostava muito de arroz com feijão. A bicicleta arranjada ficou à porta. Perguntámos se ninguém a levava e abanou a cabeça: ninguém a leva.

Contou que nesse dia coloram as notas e que ele passara para ir ao exame. Sempre que ficávamos em silêncio, ria-se. Dizia sim a tudo e ria-se outra vez. Por causa disso também nos rimos muito. Chorava sempre que bebia um trago de Coca-Cola. Contou que, à noite, os miúdos juntam-se para ver a novela em casa de quem tem televisão. Contou que reza de madrugada, às 4h, e depois às 12h, 15h, 16h e 17h. Não tem relógio, mas ouve chamarem à mesquita. As mulheres rezam em casa e os pescadores no barco. Não lhe custam os tempos de jejum, no Ramadão, das 4h às 17h. Contou que também gosta de papa doce de maçanica, fruto chamado assim porque parece uma pequena maçã.

Há um Dudu em Nampula, sabiam? É ladrão. E ao mais velho da Mesquita chamam Chefe dos Bandidos. Queremos saber por que motivo e o Dudu explica entusiasmado que um dia esse homem perguntou:

– Quem me deu esse nome?

As pessoas não quiseram falar mas depois alguém contou e recebeu um saco de arroz. A sinceridade compensa. O nome é esse porque às vezes usa uma máscara e só se vêem os olhos, como o ladrão de Nampula.

Falámos da vida em casa e diz que sabe cozinhar: faço chá. Põe a água a ferver na panela e deita as folhas. Também sabe fazer chima com água e farinha. Lembra-se que um dia comeu muitas mangas e foi parar ao hospital com dores de barriga. Nunca mais comeu tantas mangas. Vamos a rir a sair do bar da Sara quando vemos que a bicicleta não está no sítio. O Dudu arregala muito os olhos para nós, como se fosse uma partida que vamos revelar nesse momento. Mas não fomos nós, Dudu, não fomos mesmo. Olhamos à volta e ele começa a falar em macua com quem passa e se senta por ali. Percebe que foi um menino que levou a bicicleta porque não sabia onde andava o Dudu e deve ter imaginado que dentro do bar não poderia estar.

– Pegaram sem pedir – explicou-nos com um take-away na mão que leva para o irmão.

A bicicleta foi encontrada e suspirámos de alívio. Então dissemos ao Dudu que íamos embora na manhã seguinte e já chegámos a essa manhã e ouvimos gritar Marta! Pedro! da rua. Espreitamos através da porta e vemos o Dudu com uma mochila muito grande quase vazia. Vai a caminho da Escola e veio despedir-se. Entrega-nos uma folha A4 onde escreveu uma mensagem cheia de doçura e erros com a morada do bairro onde vive. A folha está muito lisa e adivinhamos que a trouxe com todo o cuidado.

Quando o abraçamos, desejamos com toda a força que o Dudu, daqui a uns anos, esteja a desenhar a casa de alvenaria para a mãe. Então o Dudu vai fazer o chá dentro de paredes de tijolo e não de chapa. Pode ser que também já tenha sapatos. Dirá ainda sim a tudo?



A bicicleta do Dudu
Dezembro 7, 2016, 4:16 pm
Filed under: Moçambique

II

Depois de conhecermos o Dudu na chegada à ilha de Moçambique, encontrámo-lo no dia seguinte a arrastar uma bicicleta toda desconjuntada. Identifiquei pelo menos a corrente solta.

– O que se passa com a tua bicicleta?

– Não anda – sorriu – e na nossa cabeça uma varinha de condão corrigia tudo e o Dudu já ia a pedalar quase a rasgar as nuvens.

– Sabes quanto é o arranjo?

–  Sim.

– Quanto?

– Não sei.

Já disse que o Dudu diz sim a tudo?

– Vai saber quanto é – e o Dudu afasta-se a empurrar a bicicleta feito flecha com o coração a bater nos joelhos. A campainha vai no bolso para não se perder porque está solta. Fico a pensar como não queima os pés no chão a escaldar.

Mais tarde encontrámo-lo de novo. Quando perguntámos se tinha novidades, disse envergonhado. O conserto equivalia a menos de dois euros e o Dudu foi à oficina à velocidade de um foguetão.

Caiu a noite e nasceu um novo dia. A ilha é pequena e contávamos encontrá-lo na sua bicicleta nova. Depressa o vimos num grupo grande de crianças mas ainda a levava pela mão.

– Então ainda não anda?

– O assento não encaixa – explicou que só arranjou a corrente e deu o que sobrou à mãe.

– Sabes quanto custa o assento?

Ri-se e diz baixinho cem meticais (aproximadamente um euro).

– Onde se compra?

– Lá.

Chegámos em poucos passos lá e pedimos um assento. A mulher da loja disse que eram duzentos meticais e logo o Dudu falou muito rápido – mas havia um mais barato vermelho a cem!

– E gostas desse?

– Gosto desse vermelho.

O Dudu saiu da loja com o assento vermelho e os olhos felizes.

Mais tarde, vimo-lo com a bicicleta ainda pela mão. Ainda?

– O que falta para andar, Dudu?

– São os raios que não estão bem – enquanto chutava uma pedrinha.

Fomos ao homem que conserta as bicicletas e outras coisas mais e perguntámos quanto faltava afinal para ficar totalmente reparada. Com cerca de dois euros ficaria como nova. Finalmente.

– E a bicicleta fica pronta hoje?

– Fica.

Então até já, Dudu, quanto te virmos de novo esperamos que já vás de mãos no guiador.



Olá, Dudu
Dezembro 6, 2016, 2:30 pm
Filed under: Moçambique

I

Conhecemos o Dudu mal pousámos um pé na Ilha de Moçambique. Aproximou-se do carro que nos trouxera desde Nampula e perguntou, tímido, se não queríamos andar de bicicleta ou passear de barco ou saber a história da ilha. Já me tinham contado que os meninos perseguem quem chega de fora para serem guias e poderem receber alguma recompensa. Quem conhece melhor a ilha do que eles que a calcam descalços?

Houve qualquer coisa no Dudu que nos cativou. Falamos de um caso sério de encanto. O jeito é tímido, já o disse. E o sorriso não cabe numa fotografia – é raro encontrarmos um assim tão cheio de doçura e esperança.

– Não vais à Escola?

– É só de manhã.

Disse ao Dudu que íamos querer andar de bicicleta. Até já, vemo-nos por aí.

Depois de deixarmos as coisas no hostel, saímos para o calor insular. Na porta já estava o Dudu e um rapaz mais velho. Não se percebia quase nada do que o último dizia e com dificuldade fomos apanhando algumas ideias: era ele quem organizava as visitas à ilha e qualquer coisa sobre a Unesco. O Dudu estava ali sempre a sorrir e, se lhe perguntávamos alguma coisa, dizia que sim. Nós já tínhamos o contacto de um local recomendado por um amigo para nos contar a história daquelas pessoas e lugares. Então o amigo do Dudu começou a chamar ladrão ao outro que entretanto nos encontrou. Explicámos que alugaríamos as bicicletas, mas a visita já estava marcada com o Eddy, esse sim o guia oficial da Unesco. Ofendido e a chamar-lhe repetidamente de ladrão, duplicou o valor das bicicletas e deixou o Dudu a olhar para o chão. Esquece o aluguer, dissemos, e seguimos.

Quando desistiu de nos tentar convencer pelo caminho, seguiu por outra rua. Aí aproximou-se de novo o Dudu e disse-nos conhecer um sítio onde nos alugariam as bicicletas.

– E tu queres vir andar connoco?

– Sim – sorriu num rasgo de serenidade de quem conhece a maior verdade do mundo. Os olhos enormes, curiosos e expectantes. Sentou-se atrás do Pedro e fomos. Eu ia aos tropeções até aprender a conduzir a bicicleta com pneus tão finos e assento torto. O Dudu levantava os pés e ia dizendo: ali é o hospital – apontando um edifício esburacado com ar de abandono – ali é o mercado – passando mulheres com fruta em bacias coloridas à cabeça – ali é o campo de futebol onde antes enterravam os escravos – e na terra crianças a correr atrás da bola.

O Dudu tem onze anos, anda no 7º e quer ser arquiteto para construir uma casa de alvenaria para a mãe. O pai morreu e vive com ela e dois irmãos.

– O que é que mais gostas na ilha?

– Da Escola – diz com naturalidade e sem nenhuma hesitação, como quem diz ali está o sol que nos queima.

Até amanhã, Dudu, e vemo-nos por aí. Ainda não sabemos que também tens uma bicicleta peculiar e que ainda vamos passar muito tempo juntos.



Pelo caminho
Outubro 17, 2016, 9:28 am
Filed under: Moçambique, poesia

Pelo caminho vemos uma criança pendurada num baloiço

feito de cordas presas a galhos de uma árvore enorme,

vemos mulheres na machamba que nunca dobram

os joelhos para se curvar, vemos homens sentados

nos bares dos mercados a e eles vêem-nos a nós e à

garrafa de cerveja fresca. Pelo caminho adivinhamos

os bebés enrolados nas capulanas, nuvens de pó e de

miúdos que brincam com pneus velhos, mais mulheres

a transportar fardos na cabeça. Vão rectas, como

apenderam a andar desde cedo. Passam  carrinhas

de caixa aberta cheias de gente, andam pela berma

da estrada galinhas e cabras, brilha ao sol a publicidade

da Coca-Cola. Depois há todos os coqueiros muito altos

e duvidamos se quem avança somos nós ou eles e isso

pouco importa, queremos acreditar que vamos todos em frente.

Há terra de um vermelho que só podemos encontrar aqui,

há gente sentada no chão com tempo e alegria para

acenar-nos: olá.  Pelo caminho vemos construções paradas,

estrada alcatroada invadida por pó, estrada de terra aos

solavancos, tanta estrada, mais gente que se ri de si mesmo,

de nós, sabemos lá de quê mas também queremos rir.

Ficamos com a esperança de que possam contagiar a gente

com ar sem expressão, sumido, cansado. Tanta estrada.

Há muita gente cansada há muito tempo pelo caminho.

Pelo caminho vemos árvores frondosas, mulheres com lenha

na cabeça, mulheres com bidões de água na cabeça, meninos

a tomar banho em poças pequenas, palhotas e telhados

de colmo, meninas com missangas coloridas no cabelo.

Vemos formigueiros gigantes como casas construídas

com chapas de zinco e janelas sem vidros, fumo a elevar-se.

Os homens nunca vão tão carregados como as mulheres.

O sol bate na pele de todos no caminho a perder de vista.

O sol é uma bola de fogo, intenso como África dos corpos

a dançar com desapego e liberdade. Há silêncio e vento

que faz abanar a roupa a secar e calor, paisagem tão aberta

encimada pelo céu azul. Música, há sempre música.

Pelo caminho passamos por uma parede  em  que alguém

escreveu com letras grandes como o espaço: só Jesus salva.

Mas este caminho tem que salvar.

Pelo caminho temos a certeza de que este caminho salva.



pela estrada
Setembro 4, 2016, 10:03 am
Filed under: Moçambique, poesia

Pela estrada vi

mais mulheres do que homens

transportando alimentos na cabeça

paus e ramos, bidões de água

crianças ao peito e às costas

e pela mão calejada da machamba

mulheres suspensas em quilómetro

desconhecido entre um ponto

e outro longínquo em linha recta

a não ser que cortem agora o mato

na diagonal sob o sol tórrido

amaciando a pequena hipótese

de um lar algures mas tão perto

onde possam descansar.



Somos todos selvagens
Julho 24, 2016, 5:52 pm
Filed under: crónica, Moçambique

Dois amigos despediram-se recentemente de Moçambique para abraçar o Atlântico e a proximidade da família e dos amigos, em Portugal. Antes de partirem, disseram-nos que uma das coisas de que teriam mais saudades seria o Kruger. Estiveram lá três vezes e prevêem levar lá os filhos, um dia.

Eu só estive no Kruger uma vez, mas nessa vez cabe um mundo novo. Fiz o safari com eles e conheci a magia de que várias pessoas já me tinham falado.

É curioso pensar que a 120 km de Maputo entramos na vida selvagem. Já em África do Sul e passando os portões do Parque, temos a sorte de poder viver a savana imprevisível. Tudo devemos fazer para não interferir no habitat natural nem assustar os animais. Vamos de portas fechadas e binóculos na mão, abrindo de quando em quando o vidro quando parecemos seguros. Mas há sempre um perigo potencial e é imperativo seguir as regras de segurança. Se assim fizermos, experienciaremos uma viagem inesquecível. E se quem nunca visitou o Kruger me perguntar onde reside afinal tanto encanto, lembrar-me-ei sempre do que me cativou.

Vou contar-lhes sobre a surpresa de vermos um animal de grande porte. Na minha primeira visita, conseguimos ver os designados Big 5: leão, leopardo, rinoceronte, elefante e búfalo.

Vou falar-lhes dos grandes grupos de impalas graciosas ou em fuga, das espécies de plantas infindáveis e do voo de pássaros que nunca antes vi. Vou contar-lhes a semelhança desarmante que encontramos quando olhamos um macaco nos olhos. E falarei das zebras que se posicionam de forma a parecerem um único prolongamento de riscas no meio das ervas altas.

Aquele é, para quem cresceu num ambiente citadino, um lugar muito raro. Explode em cores que não se podem fotografar ou pintar e o cheiro do capim alto não cabe em nenhum frasco. É importante dizer-lhes também que, nesse dia, alguém disse:

– Vou fechar os olhos para ouvir o silêncio.

Mas logo os pássaros rasgaram o ar e os nossos ouvidos em suspensão voltaram a estar alerta. Então vou contar-lhes que vimos um crocodilo irromper da água com um pedaço de impala na boca aberta até ao fim da fome. E que na estrada demos passagem a um javali e quase a uma hiena. Parámos para que passasse uma fila de elefantes que segue uma hierarquia clara: as crias vão protegidas e, no fim, segue o maior de todos. É aterradora a caça ilegal destes animais, a par dos rinocerontes. Então temos que nos lembrar que esta é uma das reservais mais antigas do mundo, nomeada em 1926 depois de um herói de guerra, Paul Kruger, ter alertado para a eminente extinção dos animais devido à caça. Passados 90 anos, mata-se furtivamente em busca de chifres e presas. O que diria hoje Paul Kruger?

Vou dizer-lhes que há um pássaro azul-escuro que se chama estorninho-metálico e entra nas zonas de refeições e descanso. Mesmo quanto nos abrigamos, irrompe a vida selvagem. Sei que voa também acima de todas as fronteiras que já se uniram: hoje o Kruger, o Parque Nacional do Limpopo, em Moçambique, e o Parque Nacional Gonarezhou, no Zimbabwe, formam o Parque Transfronteiriço do Grande Limpopo.

Vou partilhar a sorte que é avistar as chitas na imensidão de quase vinte mil quilómetros quadrados de extensão do Kruger. E lembrar como pensei no papel da sorte deitada na rede para sonhar debaixo do negrume da noite, num lodge com vista para um rio que dorme.

Vou falar-lhes das ossadas na terra que gritam que hoje existe um corpo que amanhã pode ser só um esqueleto. E de como vimos duas impalas a lutar, mas também uma impala a amamentar. Talvez a natureza viva deste contraste: conforto e confronto.

Vou contar-lhes sobre a elegância da girafa cheia de passarinhos à volta do pescoço, enquanto bebia água, e sobre o búfalo sério que a olhava. Também vou voltar ao lago em silêncio quase absoluto. Só se ouviu o disparar de uma câmara fotográfica e o vento fez a água ondular.

Vou lembrar os dois leões que vimos comer um hipopótamo. Na selva matamos ou morremos. Somos todos selvagens, afinal. Mas no meio da brutalidade há momentos de uma doçura absoluta. Tenho que falar-lhes sobre o céu lilás e a lua gigante, muito branca, que se despediu de nós quando passámos as portas do Kruger, num final de tarde morno. Não me posso esquecer de dizer-lhes que têm que lá ir. Nós também prometemos lá voltar.



O que nos faz sorrir
Julho 9, 2016, 7:02 pm
Filed under: crónica, Moçambique

Todos os dias encontramos motivos para sermos gratos. Todos os dias nos surpreendemos com o quotidiano de Maputo. Todos os dias sorrimos quando dizemos bom dia e respondem primeiro obrigado com sinceridade, retribuindo depois o bom dia. E abrimos mais os olhos para ver toda a cor das mulheres vestidas de capulana com cestas de fruta à cabeça. Caminham com a maior elegância e dignidade, as costas muito rectas e o olhar determinado. Vamos por aí e partilhamos a alegria dos meninos que brincam na rua entre gritos e correrias. Alguns ainda caminham com passos demasiado pequeninos e agarram-se à mão dos maiores. Continuamos e admiramos as carrinhas cheias até mais não, com corpos metade de fora das janelas. E também as de caixa aberta onde vão pessoas em pé até mais não. Contrastando com a máxima confusão, vemos os mais velhos que jogam às damas com tampas de garrafões de água: azuis de um lado, brancas do outro. Sentam-se debaixo da sombra de árvores de copas frondosas. Aqui há árvores muito grandes a lembrar que não são só os homens que mandam na cidade. Continuamos para ver os sapatos ficarem da cor da terra e não faz mal. As solas desgastam-se rapidamente com os sobressaltos dos passeios e não faz mal. Já estranhamos passeios lisos. Já estranhamos ouvir um não em Moçambique, substituído tantas vezes por “ainda”. Nós ainda dizemos não e sabemos que há coisas que não nos podem fazer sorrir. Mas continuamos sabendo que nos atrai o poço cultural que aqui se move. Perguntamos o que trouxe todas estas pessoas. Que diferença estarão aqui a fazer. Quão diferentes estarão desde que chegaram. E se perguntarem também por que aqui estamos? Olhamos um para o outro e sorrimos. Depois perguntamos “não é?” no fim de cada frase, como vemos todos os dias perguntar. E ainda não dissemos que gostamos do contraste de sair da cidade para zonas rurais onde andamos em estradas longas com apontamentos de vida separados por quilómetros, ou sabendo que em poucas horas podemos entrar no habitat da vida selvagem. Ou numa praia a perder de vista. Ou numa paisagem de cortar a respiração. Sentimo-nos mais em casa quando os portugueses se juntam para torcer por Portugal, ou para comer sardinhas porque na costa do Índico também se pode festejar o S. João e os santos populares. Isso também nos faz sorrir e muito. Assim como os novos sabores que experimentamos. As demonstrações de arte com que nos cruzamos. E os cheiros e as cores e os sons. Abrimos mais os ouvidos quando um taxista diz: “Aqui já estamos habituados a esta pobreza.” E ri-se com tal alegria que ficamos a pensar se louco será ele ou nós. Caminhamos pelas ruas e imaginamos como seriam no tempo de Lourenço Marques. Agora estão velhas e muito gastas mas  isso não nos impede de encontrarmos beleza genuína. Conhecemos novos amigos e expandimos a nossa felicidade. Dançamos efusivamente porque aqui todos os ritmos vêm do princípio do ser. Claro que isso nos faz sorrir. Talvez aqui possamos, todos os dias, tentar voltar ao princípio do ser.

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