Umumbigo


nua
Abril 8, 2014, 8:04 pm
Filed under: nostalgias, pessoas

CXXX

Apeteceu-lhe rasgar os papéis, tirar a roupa e ir nua correndo pela rua. E foi isso que fez.

Primeiro, rasgou os papéis amontoados na mesa da cozinha. Contas e papéis de matrimónio, lixo. Tirou depois o vestido, amarelo cor do sol lá no alto, os sapatos cor de terra: nua e descalça pisou o chão cá fora. E caminhou pela rua até ao primeiro olhar que viu Bianca toda inteira e despida.

Foi a mulher do café, que correu com um casaco a cobri-la, perguntando assustada: o que te aconteceu? Ao que Bianca respondeu: Tirei a roupa e rasguei os papéis. Sinto-me melhor.

Anúncios


até já
Setembro 2, 2010, 4:01 pm
Filed under: Madrid, pessoas | Etiquetas:

Quando as palavras são ♥



Oliveira
Agosto 1, 2010, 11:50 pm
Filed under: pessoas | Etiquetas:

Um novo ramo. E que lindo ramo.



Maria Magola
Março 19, 2010, 10:01 pm
Filed under: pessoas | Etiquetas:

Maria Magola, a louca. O povo reza que fugiam dela como o Diabo foge da cruz. Não se metam com a mulher doida. Louca, louca. Entrava na Igreja e todos sabiam: “Lá vem a Magola.” Os miúdos encostam-se às pernas altas dos pais, alguns agarram um folho das saias maternas, compridas e engomadas. Ouvem a porta bater com força violenta, os passos rápidos e agressivos dirigidos até ao padre. Tudo num segundo, entre um “ah” de exclamação: “Lá vem a Magola.” Os acólitos não têm tempo de reagir, os fiéis não se irão meter. Magola vai depressa, uma rajada de pó e fúria. O padre lá está, prega(n)do no altar. Absorvido pelo ouro e púrpura e olhares mártires dos santos. E Magola já lá está também: tudo se passou num bocejo ou suspiro: duas estaladas fortes nas faces rosadas do pároco, algum murmúrio e lá vai Magola, já fez o que tinha que ser feito. É louca, que havemos de fazer? A missa continua. Os olhares mártires continuam aqui, ainda não tomámos a hóstia e o miúdo hoje vai tentar que nada se cole ao céu da boca.  Tomai todos e comei. “Pára quietinho com a língua”, diz-lhe a mãe, afinal sempre colou.

Diziam-na uma velha “vulgar” até chegar o ataque de loucura. Seja o que se entenda por vulgaridade, partilhava a casa consigo mesma. Maria Magola que era também Maria sozinha. Tinha alturas em que não era temida, apenas mais uma vizinha e mais dois pés que percorrem os caminhos de ervas daninhas, tempos de tranquilidade. Siga a missa, “o céu está limpo.” Até Magola começar a correr pelas ruas, descalça e desvairada, talvez mais costumeira do que sempre. Vai ela de vassoura, que vais fazer? Ou na bicicleta, com o penico atado ao assento, uma colher de pau para as eventualidades. Quais? E os miúdos já estão a fugir, já correm aos quintais e avisam os pais e avós. “A Magola anda aí.” Sussurros compreendidos entre gerações, lá vai a louca. A correr a aldeia, a distribuir bofetadas. Entrou agora mesmo na mercearia e já não há tempo para fugir ou para pegar numa lata de conserva. Todos recebem a estalada furiosa, é precisa uma força bruta para segurar a mulher. E nem alguns homens apelidados de “valentes” se atrevem. Dois braços não chegam, não chegam. Quatro, talvez seis, quantos mais melhores, anda aqui Alcides, corre que a Magola vem aí.  E se era internada em Coimbra, fugia e voltava pela berma da estrada, percorria quilómetros a pé, sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam.

Maria Magola tinha outra obsessão, esta vida não são só bofetadas. É que ela gostava de um menino. “És bonito como uma estrela, um dia hei-de atirar-te ao poço.” Chegou a conseguir agarrá-lo e correr uns palmos de terra batida com o loiro debaixo do braço. Mas, como sabemos, as estrelas não se afogam nos poços. E ainda havia quem ousasse dominar Magola, a louca doida de loucura.

Magola viveu na aldeia e a aldeia viveu em Magola. Cruzaram vidas, fúria e medo. Ela lá teria os seus motivos, a aldeia nunca acordou para ouvir. Porque na loucura há muita sanidade. E na sanidade há, irremediavelmente, loucura.



Carlitos
Janeiro 24, 2010, 10:43 pm
Filed under: pessoas | Etiquetas:

“Olha Carlitos, a mãe queria saber se tu vinhas à Moita mais logo. Que a mãe tá.. tá… vai comprar farturas. Vou comprar p’rá mana e compro p’ra ti também.  Mas tens que dizer que vens cá buscar! Que é p’ra eu não comprar. Ah? Até já.”

Pois é. Adoro mensagens desviadas. Erros deliciosos e números mal digitados. Consequência? Caminhos perdidos. E se são de voice mail, ainda melhor. Mais humanas, mais carismáticas, viva a pronúncia característica de cada região. “Marque o seu código pessoal, seguido de asterisco (e tente pacientemente desvendar o que se segue)”. Mas fiquei com pena. Porque o Carlitos pode não comer as farturas. Eu, definitivamente, não tive direito a nada. E o “até já”, que me soou muito bem, pode ter ficado pendurado. Peço desculpa à mãe do Carlitos. E a indecisão? Comprar ou não comprar? Parece que o meu número exerce uma qualquer atracção. Chegam chamadas e mensagens absolutamente estranhas. Que não me pertencem e que me fazem invadir um mundo que não é meu, num convite trocado mas crente da sua rectidão. E eu até gosto, confesso. Por momentos, imaginei-me a caminho da Moita, previ o meu regresso embrulhado em óleo de fritar e açúcar. Enfim, mãe do Carlitos, deixe lá. Para a próxima as farturas não arrefecem. Ao menos que a mana tenha aproveitado.



ninguém escreve à Alice
Agosto 25, 2009, 11:54 am
Filed under: pessoas, Uncategorized | Etiquetas: , ,

“Mas o carteiro passou
Nada deixou nada disse
E o recado não chegou
Ninguém escreve à Alice
Ninguém escreve à Alice”
, cantaria Rui Veloso.

A verdade é que hoje ninguém escreve à Alice, à Beatriz, à Carolina, à Diana, à Eva, à Fátima, à Guidinha, à Helena, à Ivone, à Joana. Ou à Kátia com “k”, mas sem Vanessa, se faz favor, à Luísa, à Madalena, à Nádia, à Oriana. O mesmo se passa com a Patrícia, a Quitéria (sim, não foi fácil descobrir um nome começado por “q de quá quá”, um viva aos tempos da primária), a Raquel ou a Sofia. Assim como a Tânia, a Úrsula. E a Violeta, a Wilma, a Xana, a Yolanda e a Zulmira?

Depois de demonstrado que domino amplamente o abecedário, um possível motivo de orgulho nos tempos que correm, pensemos nas antigas cartas de selo e carteiro de bicicleta, de tempos em que ainda havia tempo. Poucas são as que resistem e sobrevivem às garras do e-mail, ao veneno das “short message service”, até ao chilrear do Twitter. E se estes serviços são, efectivamente, curtos e efémeros, eliminadas as frases soltas com um simples “delete”, por que é que abafa a carta longa, palpável, de cores ao gosto do freguês, com uma possível marca de batôn ou uma gota de perfume? Porque hoje é tudo demasiado rápido, demasiado imediato, quase que não há tempo para parar e pensar (o mal de tanta gente), quanto mais para pegar na caneta e no papel, escrever, comprar um selo e ir aos Correios, ora que coisa de quem não tem nada de útil para fazer, não é? Não, não é.

Tenho pena que já não se enviem cartas com a paixão de antigamente (nem de amor, nem entre amigos, nem de frustrações e ameaças, confissões ou felicitações), e eu mesmo incluo-me no grupo dos desenfreados que optam pelos meios ditos “modernos”. Mas nunca terá o mesmo simbolismo. Daí o meu vício irremediável de passar mensagens de telemóvel que de alguma forma me são especiais para papel. Como pequenos parágrafos de cartas que não chegaram. Tenho folhas e folhas de pequenas mensagens, escritas à mão num suporte que amarelece com o tempo. Não as posso eliminar com um clique rápido ou perdê-las porque a memória do bichinho electrónico pifou. Estas pequenas mensagens perduram num caderno de argolas, arrumadas na gaveta das recordações, com data e hora de entrega. Não vieram pela mão do carteiro, é verdade, também lhes falta o selo e a caligrafia do remetente. Mas o destinatário encontrou esta forma de perdurar o que hoje pode ser fugaz. É que o presente alimenta-se também do passado. E, às vezes, sabe bem ler estas “short messages” adaptadas ao formato de carta, quase um retrocesso no tempo. Um retrocesso para parar um pouco, saborear e avançar com um sorriso mais verdadeiro.

Entretanto, vou ao correio ver se chegou algum panfleto irritante publicitário, alguma conta, alguma multa, uma pilha de lixeira ou mais burocracias fastidiosas.



de idas e voltas
Agosto 11, 2009, 12:52 pm
Filed under: pessoas, viagens
1895123476_0dcb464e49

Cats fall on their feet, Flickr

Sapatos de salto alto, saia travada e laço na camisa. Trazem o cartão identificativo e um sorriso nos lábios pintados. Eles de gravata às riscas e calças cinzentas. Caminham pelo aeroporto e indicam, recebem, acompanham. Os profissionais das idas e voltas.

Gosto deste espaço amplo, iluminado. O chão devolve-me o reflexo, os tubos metálicos que brilham. Malas e sacos e malas e ares de turista. Trazes o mapa? Os óculos de sol? A insaciadade pelo desconhecido? Há quem leia, há quem ouça música, há quem simplesmente espere. Um espaço amplo e iluminado de horas sentadas, em pé, partidas e encontros felizes. Lá fora o sol rompe os resquícios de nuvens, olá tempo quente, ainda bem que trouxe sandálias – pensa o turista inglês. Mas livra-te dessas meias brancas, sandálias e tecido de algodão no pé nunca irão ser bons parceiros por muito tempo que passe. Mas a verdade é que se toda a gente gostasse do azul, que seria do amarelo?

Os bebés impacientam-se nos carrinhos almofadados. E os abraços de reencontro, passada uma semana de férias ou meses de voltas ao mundo. Agora vejo as indicações de sanitários, depósitos de bagagens (por favor, não te percas pelo caminho), olho as portas de embarque, mais informações e os câmbios. Outra indicação para menores desacompanhados, que chegam assustados ou expectantes, onde está a senhora que ficou de vos esperar? E estas lojinhas, onde tudo é excessivamente caro. Presentes de aeroporto são tentativas frustradas de dar a entender que ninguém foi esquecido. Mas e as bugigangas típicas lá de onde vieste? Um grão de areia do outro lado do oceano. Uma mão de vento de outros céus abertos. Uma gota de chuva tropical? Um floco de neve, uma agulha de pinheiro longínquo… A gente que passa. Tanta. Todos com um destino fixo (terão?), confiantes na sua rota, da sua passada rápida e firme. Para ali, para aqui, sentem-se um bocadinho que ainda faltam duas horas. Sempre podem ir imaginado o que vão encontrar e, se acabaste de chegar, eles já te vêm buscar. Porque é que não chamas um táxi? Há tantos lá fora, onde o sol queimou o último vestígio de nuvem.

Penso se terei que tirar o cinto, se irá apitar. Não, não levo objectos cortantes, droga e todas essas substâncias ilícitas nem planeio nenhuma explosão. Apitou. Mais tempo de espera. Imagino-me a enterrar os pés na areia branca, grãos de açúcar amarelo. O mar azul e laranja de peixes fugidios, os pratos típicos e já sinto os cheiros da terra, das gentes, das tradições. Se este banco fosse menos frio, mais confortável, sentia-me já estendida na toalha e no conforto do sol. O homem que vai além transmite tudo menos conforto. Talvez venha de um safari ou de ambientes selvagens. Muito moreno, chapéu de cowboy e sandálias gastas por trilhos agrestes explorados. Talvez tenha morto ou crocodilo. Um jacaré? Tens ar de aventureiro, gostava de saber o teu próximo destino.

Um miúdo acabou de esborrachar o nariz no vidro dos doces expostos, a tua mãe já te disse que são muito caros. E estas malas que deslizam pelo chão brilhante (por favor, não se percam), quase que dançam valsas. Os balcões de check-in esperam, ou tu é que esperas por eles: 7 e 8. A porta de embarque: 29. E a fila pouca incomoda, há tanto tempo para viver. Os espíritos parecem mais calmos e pacientes, esperem só até que o jet lag vos troque as voltas. Entretanto, depois de alguns desastres recentes, vejo um homem visivelmente ansioso, não roas as unhas que com sorte não é hoje que cais ao mar, faz-te homem e bebe um copinho de vinho do Porto. A espera. Os passos. O burburinho do aeroporto. Toca um telemóvel, viras a página, ouvimos a máquina de café. E perguntas inocentes: já chegámos? Ainda não partimos. Mas já faltou mais para te apertarem o cinto e veres as asas que se elevam. Já chegámos?, pergunta persistentemente a criança com cara de reguila. Já não te disse que está quase?

E entre esta confusão pacífica, entre expectativas e cansaço, vou também juntar-me a eles e esperar, sentada, olhando para tudo, desde as árvores que se movimentam lá fora até esta senhora que, a meu lado, tenta ler furtivamente o que escrevo. Por que é que queres tanto decifrar este caderninho Moleskine? Talvez porque, aqui, a curiosidade ajuda a passar o tempo, horas de suspiros e invasões nas vidas alheias. Espaço de dialectos misturados, de idas e voltas.