Umumbigo


A paixão grega
Maio 29, 2018, 8:57 am
Filed under: poesia

Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão
e eu me perdesse nela
a paixão grega.

Herberto Helder, A Faca Não Corta o Fogo

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ouvido
Abril 1, 2018, 7:22 pm
Filed under: poesia

O ouvido estala

no mergulho fundo

na subida íngreme

estúpida ousadia

de desequilíbrio

e depois do susto

era só um engolir bem alto

um tapar de nariz agora

uma expiração forte

sem saída possível

mais alguém que diz

abrir a boca até ao fim

aguentável

a boca desesperada

aberta até ao fim

língua tocando o medo

de nunca mais ouvir nunca

mais sair do poço

não poder amansar a vertigem

como este medo da praga

na orquídea carnuda

um traço de giz

transformando a fábula

em fóssil

a voz presa na cabeça

ou no ouvido sei lá

bichinhos brancos feitos pó

zumbindo zumbindo

construindo um muro

que não se pode quebrar

como este medo da praga

no mundo:

caminha tonto

boceja muito

e continua surdo.



fora do corpo
Janeiro 2, 2018, 8:00 pm
Filed under: poesia

na televisão

um cachalote morto

fora do sítio, fora do corpo

metido num contentor grande

de onde assoma a barbatana ao alto

como quem brinca na onda fria do mar.



escuta
Janeiro 1, 2018, 10:51 pm
Filed under: poesia

Antes de encheres a banheira até ao fim da respiração

lembra uma mão no corpo deitado

uma mão no livro, uma mão no barro vermelho

pés nas algas, pés nos pés, pés

encantadoramente tortos

lembra olhos abertos no escuro

árvores de fruto amadurecendo ao sol

lembra a coragem para fechar a torneira

exatamente no ponto líquido

em que podes inspirar.



catarse
Dezembro 28, 2017, 9:44 pm
Filed under: poesia

Naquele tempo

tinha no lugar de mãos punhais

incendiar-me-ia ao ver o sol

despenhado

dissecar-me-ia laboratorialmente

como uma rã contente

que dá respostas à humanidade,

procuraria a estrela fulgente

o murro pugente

a paz no meio de nós.

 

Se pudesse ter dançado

nas pálpebras do mundo

ter caçado um fulgor

ter sido essa rã

útil.



olho
Dezembro 27, 2017, 9:01 pm
Filed under: poesia

O cristalino adapta-se para permitir

que vejamos corretamente o que está

à nossa volta. Quando mais perto,

o cristalino fica mais espesso;

para objetos mais distantes

é mais delgado. A esta adaptação

chamamos acomodação visual.

Vemos então o chão, a

lua ou o reflexo no espelho.

Córnea, íris e coróide

fazem parte do poema.

Vejo-te a ti.

 

São castanhos os olhos

que amo.



irreversível
Dezembro 17, 2017, 12:59 pm
Filed under: poesia

O momento irreversível em que

algo bonito se estilhaça no chão

prato com história

bule azul

jarra cheia de flores vivas

amor que se esqueceu

– agora uma mão de cacos aguçados

varridos e metidos no lixo

com cuidado

para não me cortar.