Umumbigo


manhã
Setembro 25, 2017, 5:28 pm
Filed under: poesia

Era preciso agradecer às flores

Terem guardado em si,

Límpida e pura,

Aquela promessa antiga

Duma manhã futura.

Sophia de Mello Breyner Andresen

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último
Julho 10, 2017, 12:48 pm
Filed under: poesia

Penso até ao último segundo 

que vou perder o avião

o carro despistar-se-á

adormecerei, claro

não ouvirei a chamada

estarei na porta errada

não aceitarão a minha bagagem,

qualquer coisa imprevisível

e terrível e não podem

esperar por mim.

Entro no avião como quem 

procura o último sentido da vida –

consigo 

levantar

voo.

Penso desde o primeiro segundo

depois disto o quê?



azeitonas
Julho 9, 2017, 6:55 pm
Filed under: poesia

Há coisas de que não me posso esquecer

como o sorriso sereno do meu avô, agora usa suspensórios e diz que vai guardar a maior posta de bacalhau para mim,

a Leonor que gosta de figos, o que faz dela uma criança muito madura com olhos muito grandes como só as crianças sabem ter,
a Mimi que acorda da sesta distribuindo mimos e alegria antes de me ter adormecido contando a história da menina corajosa,
os meus pais olhando em pé o mar da Granja cheio de poças e algas com as costas direitas, grandes como só eles sabem ser,
o meu pai apanhando o pato bravo no areal que fez rir quem se banhava ao sol,
a minha mãe enrolando o melhor bolo de amêndoa do mundo para atravessar o oceano,
a força que me dá a família para encontrar qualquer coisa que procuro e procuramos todos, todos os dias,
os meus irmãos acenando no aeroporto com a carinho dos irmãos mais velhos,
o Pedro contando coisas de lá, perguntando coisas de cá, unindo o Atlantico-Índico,
os abraços abertos dos meus amigos que sabem parar o tempo no momento em que dissemos até
para quando nos reencontrarmos retomarmos a última conversa em suspenso
e a oliveira do nosso jardim que cresceu tanto desde a última vez
– quando regressar talvez tenha azeitonas.
agosto de 2016


Rail & Rest
Maio 8, 2017, 1:43 pm
Filed under: poesia

No Rail & Rest

paramos todos suspensos no tempo

a cortar a comida devagar

até à próxima partida.

A mulher em frente a mim

tem um desalento do tamanho

de toda a humanidade

não sei se pequena,

não sei se grande.

Passam marinheiros do lado

de lá da porta automática.

Eu não sabia que ainda

chegavam marinheiros à estação

de comboio fardados e

engomados, o branco imaculado.

A mulher de colher suspensa entre

a gelatina e a boca

pouco depois fecha os olhos:

parece rezar.

Dorme?

Atrás outra mulher mexe

freneticamente no telemóvel e ri-se

sem ver o desespero à sua frente

que pode ser tédio,

pode ser só muito cansaço.

Também estou cansada

vejo a mulher e não farei nada

– nunca sabemos onde começa

a ajuda ou o incómodo.

Entrou um marinheiro com

chapéu de marinheiro

e interrogação na testa,

quando parte o barco?

Entrou uma mulher de

saco a tiracolo com letras

garrafais: Lyon.

Há um verbo para o ato do

barco iniciar viagem.

Saiu um casal que falou

muito mas não pude perceber

nada, tentei, não pude perceber.

Tinham os dois óculos e

agora ficou silêncio.

Zarpar.

Fala quem serve

– já não tenho sopa nem massa

tenho o que vê –

e aquece a comida esfriada no

micro-ondas como quem se

desculpa de que possa haver

saudades das mães

dos pais, dos avós

do conforto de uma refeição

quente no centro da mesa

e uma família à volta.

Entrou outro marinheiro,

não tem fato como os outros,

no chapéu pude ler armada

mas nada sei sobre hierarquias.

Quando se lançam ao mar?

Quando os lançam ao mar?

O meu comboio não parte agora,

sobra-me tempo para ver

que a mulher frenética

pediu uma caneta, agradeceu.

Os marinheiros jantam e

o que não tem fato sentou-se

noutra mesa só.

Olhei para trás e por isso

a mulher do saco de Lyon

olhou-me nos olhos.

Azul-marinho, agora entendo.

A gelatina ficou a meio,

nunca fui a Lyon,

os sapatos dos marinheiros estão

engraxados, eu fiquei a meio

quando limpam o balcão

e levanto-me.



nada
Janeiro 29, 2017, 9:09 pm
Filed under: poesia

Quando era criança
pensava por vezes
como seria não existir
nada de nada de nada,
no absoluto ser nada
e tudo o que conhecemos
a nada ser reduzido
ou aumentado.

Quis dar-lhe uma forma
e imaginei a vastidão
do espaço estrelado
e empoeirado e também
um quarto sem paredes
nem teto tão branco
que quase nos cegaria.
Vi o negrume do interior
de uma gaveta sem fim.

Ainda procuro a resposta
como quem penteia o absurdo
ou tenta somar todos os detalhes
do mundo para ver a totalidade
que nunca compreendemos.
Mais do que não querer viver
sem conhecer o vazio integral
e o todo absoluto, quero
saber responder à
criança que me perguntar:
como é o nada?



G. Steiner
Janeiro 29, 2017, 8:34 pm
Filed under: poesia

Todos os dias encaramos

o espanto de sermos nós

e medimos com atenção a

profundidade do olhar

porque alguém nos disse

que é muito perigoso sentar

no fundo do poço, devemos sim

conhecê-lo mas em voltas

atentas e verticalmente de pé.

Nunca te sentes no fundo do

teu olhar e evita sempre

que puderes o de quem

ameaça puxar-te para lá.

 

Corre antes com coragem para

o grito na montanha-russa

e não perguntes de onde vem

TODO ESTE BARULHO.

 

Nunca houve tanto barulho

quando estamos calados.



átomo
Janeiro 29, 2017, 8:13 pm
Filed under: poesia

De que é feito o átomo

– perguntou Tatiana Tolstaya –

e o pai respondeu – quando ainda

não há linguagem, não podemos

perguntar. A filha ouviu.

Mas que olho vê o sonho quando

as pálpebras estão fechadas,

quem és tu para além de mim

que finalmente reconheço,

por que procuramos a harmonia

ou como a encontramos afinal

depois de tentarmos tanto?

Eu ainda não me reconheço,

Tatiana.