Umumbigo


Rail & Rest
Maio 8, 2017, 1:43 pm
Filed under: poesia

No Rail & Rest

paramos todos suspensos no tempo

a cortar a comida devagar

até à próxima partida.

A mulher em frente a mim

tem um desalento do tamanho

de toda a humanidade

não sei se pequena,

não sei se grande.

Passam marinheiros do lado

de lá da porta automática.

Eu não sabia que ainda

chegavam marinheiros à estação

de comboio fardados e

engomados, o branco imaculado.

A mulher de colher suspensa entre

a gelatina e a boca

pouco depois fecha os olhos:

parece rezar.

Dorme?

Atrás outra mulher mexe

freneticamente no telemóvel e ri-se

sem ver o desespero à sua frente

que pode ser tédio,

pode ser só muito cansaço.

Também estou cansada

vejo a mulher e não farei nada

– nunca sabemos onde começa

a ajuda ou o incómodo.

Entrou um marinheiro com

chapéu de marinheiro

e interrogação na testa,

quando parte o barco?

Entrou uma mulher de

saco a tiracolo com letras

garrafais: Lyon.

Há um verbo para o ato do

barco iniciar viagem.

Saiu um casal que falou

muito mas não pude perceber

nada, tentei, não pude perceber.

Tinham os dois óculos e

agora ficou silêncio.

Zarpar.

Fala quem serve

– já não tenho sopa nem massa

tenho o que vê –

e aquece a comida esfriada no

micro-ondas como quem se

desculpa de que possa haver

saudades das mães

dos pais, dos avós

do conforto de uma refeição

quente no centro da mesa

e uma família à volta.

Entrou outro marinheiro,

não tem fato como os outros,

no chapéu pude ler armada

mas nada sei sobre hierarquias.

Quando se lançam ao mar?

Quando os lançam ao mar?

O meu comboio não parte agora,

sobra-me tempo para ver

que a mulher frenética

pediu uma caneta, agradeceu.

Os marinheiros jantam e

o que não tem fato sentou-se

noutra mesa só.

Olhei para trás e por isso

a mulher do saco de Lyon

olhou-me nos olhos.

Azul-marinho, agora entendo.

A gelatina ficou a meio,

nunca fui a Lyon,

os sapatos dos marinheiros estão

engraxados, eu fiquei a meio

quando limpam o balcão

e levanto-me.



nada
Janeiro 29, 2017, 9:09 pm
Filed under: poesia

Quando era criança
pensava por vezes
como seria não existir
nada de nada de nada,
no absoluto ser nada
e tudo o que conhecemos
a nada ser reduzido
ou aumentado.

Quis dar-lhe uma forma
e imaginei a vastidão
do espaço estrelado
e empoeirado e também
um quarto sem paredes
nem teto tão branco
que quase nos cegaria.
Vi o negrume do interior
de uma gaveta sem fim.

Ainda procuro a resposta
como quem penteia o absurdo
ou tenta somar todos os detalhes
do mundo para ver a totalidade
que nunca compreendemos.
Mais do que não querer viver
sem conhecer o vazio integral
e o todo absoluto, quero
saber responder à
criança que me perguntar:
como é o nada?



G. Steiner
Janeiro 29, 2017, 8:34 pm
Filed under: poesia

Todos os dias encaramos

o espanto de sermos nós

e medimos com atenção a

profundidade do olhar

porque alguém nos disse

que é muito perigoso sentar

no fundo do poço, devemos sim

conhecê-lo mas em voltas

atentas e verticalmente de pé.

Nunca te sentes no fundo do

teu olhar e evita sempre

que puderes o de quem

ameaça puxar-te para lá.

 

Corre antes com coragem para

o grito na montanha-russa

e não perguntes de onde vem

TODO ESTE BARULHO.

 

Nunca houve tanto barulho

quando estamos calados.



átomo
Janeiro 29, 2017, 8:13 pm
Filed under: poesia

De que é feito o átomo

– perguntou Tatiana Tolstaya –

e o pai respondeu – quando ainda

não há linguagem, não podemos

perguntar. A filha ouviu.

Mas que olho vê o sonho quando

as pálpebras estão fechadas,

quem és tu para além de mim

que finalmente reconheço,

por que procuramos a harmonia

ou como a encontramos afinal

depois de tentarmos tanto?

Eu ainda não me reconheço,

Tatiana.



terra vermelha
Janeiro 29, 2017, 7:37 pm
Filed under: poesia

Disse à Ana que viveria

uns tempos em Moçambique

e ela de olhos enormes e

coração na boca: a terra é

vermelha, Marta, vermelha!

a rir e eu a rir sem saber, depois

a frase dançou-me na cabeça

todo o tempo desde então

até começar a aterragem e ver

a terra quente da cor que a

Ana me contou com o coração na

boca e os olhos inteiros de espanto

que nunca desaprendeu a ter.

Só aí percebi o que me quis dizer,

só entao pude compreender

uma ínfima parte da saudade

nos olhos de quem viveu em África.



Ilha
Janeiro 1, 2017, 11:32 pm
Filed under: poesia

Há uma ilha no Índico

de pele preta salgada e

olhos abertos a sorrir

com crianças lá dentro

que pegam-nos na mão

para contar a história

insular e também

o amor.

Do pescoço pende um

fio com um só búzio

a falar do fundo do mar

e partimos de barco

à vela para tesouros de

areia a flutuar no oceano

que serena as ideias

para logo vermos o

farol vermelho e branco

como no imaginário

de uma infância feliz.

O mar suspira canções

e o vento é uma carícia

leve e o corpo pede para

mergulhar agora e a

luz é uma promessa.

A língua é essa mesmo

que ouvimos sussurrar

no útero da mãe.

O toque diz que toda a

gente é gente de abraçar

no calor feito onda

de alegria que nos

embrulha como a

recém-nascidos

em capulanas

de todas as cores

do mundo.

 

Então é tempo de

renascer.

 

(entre a Ilha de Moçambique e a Ilha de Goa. novembro de 2016)

 



Patti
Dezembro 15, 2016, 3:08 pm
Filed under: poesia

Há esperança a desabrochar
quando batemos palmas
ao erro
a acertar o abalo
carnudo
a reconhecer
inteira a nossa
alma

levanta-se a verdade
nas nossas mãos:

palmas.