Umumbigo


A ilha do espanto no Índico
Maio 25, 2016, 4:37 pm
Filed under: Moçambique, reportagem

Acordámos quando o sol nascia, em Maputo. Pouco faltou para a lancha não poder partir com a descida do mar. Saímos no momento certo e ficámos a ver a cidade a afastar-se até estarmos só rodeados por água e depois avistarmos, do outro lado, o primeiro recorte de Inhaca. Tinha ouvido que esta ilha à entrada da baía de Maputo, no sul de Moçambique, era como uma pérola no Índico.

Quando a lancha já não podia avançar mais, descemos com a água pelos joelhos e a visão de um lugar em silêncio. Demos poucos passos até vermos no fundo da água estrelas-do-mar com cores inacreditavelmente vibrantes como azul, amarelo, verde ou cor-de-laranja. Nunca tinha visto estrelas-do-mar como estas. Sorrimos com as primeiras boas-vindas do clima tropical.

A tradição oral diz que o nome Ihaca vem de um ancião que viveu em Maputo por volta do século XVI, Tsonga Nhaca, que ofereceu hospitalidade ao comerciante português Lourenço Marques e aos navegadores em dificuldades que chegavam à ilha.

Quando pisámos o areal, também sentimos a hospitalidade dos primeiros sorrisos de alguns locais. As nuvens recortavam-se no céu azul e multiplicavam-se pela praia barcos de pesca. Começou aqui o encantamento por este lugar que é património biológico da humanidade e reserva natural. Em dois dias o tempo pareceu expandir-se magicamente. Talvez porque fizemos tantas coisas que para nós são raras. As experiências misturam-se agora numa onda de encantamento e constroem juntas o espanto que nasce perante a ilha.

Em Inhaca vimos os recifes de coral com enormes cardumes de peixes. Procurámos os mais coloridos e assombrámo-nos com a imensidão de vida no fundo do mar. Vimos uma tartaruga a espreitar várias vezes no mar calmo e logo a esconder-se, parecendo brincar connosco. Seguimos o voo de peixes que saltavam da água e imaginámos exibir-se perante os novos visitantes. Vimos búzios que deixam traços na areia como mensagens enigmáticas, caranguejos muito rápidos, alforrecas na onda que se espraia. Encontrámos um pescador com um peixe‑papagaio gigante. Era azul e salmão, extraordinário, talvez saído de um conto surrealista. Olhámos o sol que se reflecte no azul límpido do mar e o movimento da água que dança no corpo.

Admirámos a grande quantidade de borboletas diferentes a esvoaçar. Passámos por plantações de mandioca e milho e hortas cultivadas, sabendo que aqui existem rituais para uma boa colheita e cerimónias para pedir aos antepassados a chuva. Vimos galinhas e cabritos soltos. Como música constante, os pássaros e o vento. Curvámos o pescoço para trás para ver as palmeiras altíssimas onde sabemos que podemos chegar aos nossos sonhos.

Observámos com curiosidade os locais nas suas vidas diárias. A caminhar nos trilhos longos de terra vermelha, questionámo-nos de onde viriam e para onde iriam. Ou a vender ou comprar no mercado local, ainda a irem juntos para cerimónias religiosas muito bem vestidos, no domingo. No meio do nada tivemos um encontro feliz: havia um campo de futebol com chão de terra cheio de crianças que logo correram a dizer-nos olá e adeus entre gritos e sorrisos. Não nos podemos nunca esquecer desta miragem de alegria genuína e esperança.

A gente de Inhaca contribui muito para o encanto da ilha. As mulheres com capulanas coloridas que transportam alimentos na cabeça e bebés ao colo, os homens a trabalhar nos barcos, as crianças com olhos ávidos e sorrisos de orelha a orelha ao ver aquilo que é diferente deles – nós – e ao mesmo tempo tão igual.

Ao regressarmos da praia, dois meninos escondidos atrás de uma árvore correram com ar de reguilas para se agarrar ao jipe. Chamavam-se João e António e traziam num saco os peixinhos que tinham pescado. Perguntámos quem ia cozinhar o jantar.

– A mãe – sorriram.

Conversámos com um biólogo da Estação de Biologia Marítima e o que sentimos é uma pessoa que genuinamente se interessa por te conhecer, que diz meu irmão. Há uma generosidade nas conversas rara de se encontrar.

Vimos o velho farol. E o por do sol estonteante, numa explosão de vermelho, cor-de-laranja, lilás, azul. Dançámos no boteco as kizombas e kuduros e vimos os locais libertarem os corpos num ritmo que vem do fundo do ser. E acima das nossas cabeças a lua gigante acesa, amarela, e as estrelas muito brilhantes.

Ao regressarmos, olhámos longamente outra imagem de que não nos vamos esquecer: a cidade de Maputo recortada contra o sol, dourada, onde a vida corre frenética a tão poucos quilómetros do silêncio do paraíso.

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Sair de casa para levantar os olhos
Janeiro 31, 2015, 9:18 pm
Filed under: reportagem, viagens

É domingo e acordamos com uma ideia a despontar dos cabelos despenteados. Talvez resistir à preguiça do último dia da semana, talvez arriscar viajar no Porto. Entramos por uma porta aberta: a rua.

O Joel é um miúdo com muitos sonhos nos pés. Repete passos rápidos com a bola numa rua íngreme que sobe ao Miradouro da Vitória. Está sozinho mas também acompanhado por Ronaldo e Messi. Diz serem os dois melhores jogadores do mundo, pois claro. E só perguntámos porque saímos de casa de olhos levantados e não pudemos passar pelo miúdo sem saber como se chama. Joel de brinco grande e ar de reguila, esqueceste-te de perguntar-nos o nome e dir‑te‑emos só que somos viajantes na nossa cidade, então bom treino e vê se chegas a casa a horas sem nenhum joelho rasgado.

As melhores histórias nascem da curiosidade em procurarmos coisas novas. Como esta de, ainda antes de nos cruzarmos com o Joel, termos querido conhecer o Centro Português de Fotografia. Afinal, neste dia de janeiro azul o tempo tem tempo. Quase a explorarmos o edifício que foi a Cadeia da Relação, erguido entre o casario e paredes meias com o convento de S. Bento da Vitória, vemos as últimas gaiolas a entrar em carrinhas. São resquícios da Feira dos Pássaros, todos os domingos juntando asas a bater aqui no coração do centro histórico do Porto, de onde vemos os Clérigos brilhando em contraluz e a Cordoaria tão quieta.

Ao entrarmos avisam-nos que podemos fotografar tudo. Encontramos no primeiro piso as enxovias, originalmente de granito, muito escuras e frias, onde se acedia apenas por alçapões. Hoje recebem exposições como The Other European Travellers. É um encontro curioso: procurámos a viagem e aqui está ela nas memórias da emigração.

Somos então convidados por Barros Bastos, o capitão das trincheiras, a subir ao segundo piso. As imagens da 4ª Companhia dançam na cabeça para contrastar depois com a ternura do Postal de ano novo com Hilda, fotografada em 1908 por Aurélio Paz dos Reis. O brinde sereno da criança é encimado por um relógio, uma camélia, um busto, um globo terrestre.

Ainda podemos subir mais. A última vez que a Miriam subiu estas escadas estava muito grávida. Subimos tudo, já a Mia dá os primeiros passos, e vemos a vista de postal emoldurada na janela. Neste último piso ficavam os quartos de Malta, prisões individuais que se encerravam apenas durante a noite para “pessoas de condição”. Camilo Castelo Branco era uma delas, Ana Plácido a amante proibida também encarcerada por delito de amor.

Sabemos que as celas se apropriaram dos corpos ao vermos fotografias dos presos e de repente ouvimos um miúdo perguntar à mãe:

– Onde é que está a barbuda?

Roda depois sobre si mesmo e olha de cabeça para trás as manchas no teto. A madeira a ranger debaixo dos pés e nós quase a percorrer a última sala onde sobreviveram malfeitores, larápios, revolucionários, vadios. A prisão seria desativada alguns dias depois da revolução de 74.

Já cá fora, no Largo Amor de Perdição, está o sol a rasgar nuvens e mais miúdos chutando uma bola gasta. Camilo ficou lá dentro, nas memórias de uma cela. Cá fora cresce só a liberdade de um destemido que grita ao mais pequeno quando falha um passe: És mesmo gordo! Podíamos chamar o Joel para reforçar a equipa ou então podemos já começar a descer ao Passeio das Virtudes. Lá onde há música e corpos estendidos na relva. Bebe-se da garrafa e fuma-se devagar.

Pelo caminho um chafariz bonito nas Taipas, um coração vermelho grafitado na pedra. Teríamos visto isto se não estivéssemos a estrear os olhos? Hoje a cidade de sempre é uma surpresa e aqui está o Joel no momento do encontro, agora já subimos ao Miradouro da Vitória e demoramo-nos num casal a comer maças verdes. Pintam um Porto descomprometido e jovial.

– Porto es mi ciudad favorita.

Isto disse-o uma espanhola e outros três acenaram que sim. Sentimos orgulho. Queremos ser intrometidos mas ser turista na própria cidade pode intimidar, a língua aproxima‑nos e pode também afastar-nos. Íamos meter conversa mas já se levantaram com urgência de chegar a qualquer lado. Vamos também noutra direção, descendo sempre por ruas estreitas mas generosas, se pode isto ser, mais um pouco e aqui é a Ribeira. Ouvimos um sambinha junto ao rio. Há tanta gente.

Para perceber a evolução da cidade há que voltar a 96 quando a Unesco carimbou o Porto “Cidade Património Mundial”. Mais tarde, o Porto era com Roterdão elegido Capital Europeia da Cultura, em 2001. À cidade chegam milhares de turistas. Há tanta gente.

O Porto põe hoje as mãos nas ancas ainda com mais confiança e tem ganas de aventura. O Porto de Nasoni e dos Almadas, de D. Pedro IV ou da Dona Graça do Bolhão. Do quotidiano de grande cidade e da proximidade de aldeia onde todos veem as cuecas e meias uns dos outros no estendal.

Vamos guiados pela Maura e a imaginação já nos engorda, sabia-o bem Agostinho da Silva. O destino é uma tasca típica sem nome nas Escadas da Barreda. E quando entramos sabemos que não mais de lá sairemos até ser imperativo continuar a ordem dos dias. A Sr. Arminda vem ágil do balcão trazendo bolinhos de bacalhau, iscas de fígado, moelas, vinho a malgas e o bom receber portuense.

Saímos embrulhados em sonhos de viagens e óleo de fritar e abraçamos um desvio para irmos ver a ponte D. Luís toda pontos de luz. Ali está a Serra do Pilar dizendo-nos olá. Continuamos e junto a S. Bento toca o sino quando cai uma chuva de gaivotas. Talvez por sermos uma nuvem de fritos, quem sabe. É noite e olhamos para cima. A porta da rua fica entreaberta esperando a nossa próxima visita, então até ao próximo domingo.

janeiro 2015



Flor do Gás
Fevereiro 16, 2014, 1:17 am
Filed under: reportagem

Porto e Gaia cumprimentam-se. Plantadas em cada margem, as cidades lutam contra a chuva que fustiga a terra e o rio. Há gaivotas e tainhas nas águas marginais. E há a história do gato Bonito, apanhado no rio há nove anos por Maria de Lurdes. Um gato grande e muito branco que passeia ao seu redor. Afinal, não casou nem teve filhos, chegou-lhe “criar os 11 irmãos.” Vendeu “manjericos, sardinha assada e caldo verde, meias, caranguejo cozido, calcinhas de senhora.” Agora tenta vender cafés, dois a três por dia, algumas cervejas e travessias no Douro. “A minha vida dava um romance”, ri-se.

A bandeira de Portugal já se vê, vinda de Gaia. Esvoaça a bordo do Flor do Gás, pronto a atracar na margem do Porto. José Dias, 45 anos, é o único que atreve a entrada e compra o bilhete de um euro, preço que se mantém há perto de dez anos. “Desde novito” que o faz, explica. “A minha mãe diz que este barco tem mais de 50 anos”, continua. E tem. Em frente ao Largo do Ouro, antes de chegar ao Fluvial, vê-se o ponto de partida e de chegada do barco que cruza o rio Douro desde o século passado. É um barco onde se lêem as estórias marcadas na madeira do leme. Nas bóias vermelhas, a bordo, ainda se escreve Flor do Gaz.

Em mais de 50 anos, a paisagem mudou drasticamente. A Ponte da Arrábida modernizou-se, os silos da antiga cimenteira desapareceram e ergue-se agora um edifício em construção. Os carros passam rápidos, quase miniaturas que correm na ponte, contra o vagar da embarcação. E o negócio já não é o que era: “nem para o gasóleo dá”, comenta o condutor do Flor do Gás, Jeremias, de 71 anos. Recorda prontamente os dias de pescador e, pensativo, conclui que não gosta de conduzir o barco. “É ingrato.” Num dia cinzento e chuvoso, conta que tudo “vai melhor” no verão. Atravessa o rio apenas há uns meses, mas as estatísticas estão bem sabidas. De manhã, 26 pessoas fizeram a viagem. De tarde, só se forem umas vinte, prevê. “Para esses é que é uma vida, é de inverno e tudo”, atira Jeremias, apontando para o cruzeiro turístico que passa e faz balançar a Flor do Gás. “É espanhóis, é franceses, é uma festa.” O esquema do Flor é então revelado. “Não se pode andar lá e cá com a lancha vazia.” Já na margem de Gaia, Jeremias diz que só atravessa se estiver gente. “A D. Maria dá-me um toque se estiver alguém do lado do Porto.”

Mestre e amarrador contemplam o cruzeiro, as bandeirinhas, os turistas que trazem máquinas fotográficas de último grito ao peito.

Aos quartos e às meias horas

Se já passaram muitos condutores pelo Flor? “Milhões!”, ri-se o ajudante e amarrador, Manuel Lopes, entre duas passas. “Se calhar alguns já morreram, só o Cabaça já foi há 20 anos, o Zé Pedro para aí há dez, não foi?”, interrogam-se. Os dois, da Afurada, contam que pouco ganham para o tabaco. “São dois maços por dia, uns cafés e já está”, diz Manuel. Jeremias mostra o cigarro electrónico que lhe ofereceram. “Carreguei isto esta noite”, diz para o amarrador. Não sabe onde poderá comprar novas cargas e o outro, adepto do cigarro que se extingue, ri-se da modernidade.

Numa nuvem de fumo e contra o barulho forte do motor, explicam a rotina do Flor de Gás. Das 6h00 às 21h30, “aqui sai aos quartos (Porto) e de Gaia é às meias.” Às 19h, há a troca: passa a sair do Porto às meia horas. Mas as Câmaras de um lado e outro deviam ajudar, frisam. “Está mau, isto.” E repetem: “isto está mau para ela.”

Voltamos a ela, Maria de Lurdes Gomes da Silva, 74 anos no BI (75 na realidade). “A minha mãe roubou-me à idade e, para não pagar multa de atraso, registou-a um ano depois.” No café Ponto de Encontro, um pré-fabricado de madeira na margem do Porto com 17 anos, cinco homens jogam às cartas em silêncio. Corta-se a solenidade do momento para perguntar qual é o naipe do trunfo.

“Construí isto para ajudar o negócio, a Flor do Gás e a Flor do Douro”, explica Maria. Fala das cheias que vão “até aqui”, aponta para a banca, a um metro do chão. Há uma frescura viva em cada ruga que carrega. “Mas sabe quem é que gosta muito disto?” “É o cantor, o Abrunhosa”, diz num sussurro. “Gosta muito de vir cá atravessar o rio.”

No Porto, comprova-se a rotina que Jeremias tinha revelado. “Tenho que avisar que está aí uma senhora, onde é que está o telemóvel?” Marca, atenta e pausadamente, o número que tem escrito num papel, colado na parede. Podia guardá-lo na memória do telemóvel, mas o ritual de ler o número e marcá-lo repete-se diariamente. “Deve ser isto, acho que não troquei nada.” O Bonito chama constantemente a atenção, levantando a pata e espetando uma unha na lã do casaco de malha de Maria.

A primeira empresa a atravessar o Douro

Quanto à Flor, está na sua mão há quase 40 anos, a cortar águas de sol a sol. E com licença vitalícia. Antes dela, apenas pertenceu a uma sociedade. “Foi a primeira empresa a atravessar e trabalhar no Douro, primeiro num barquinho a remos”, conta, orgulhosa. Depois veio a lancha, sempre cheia. “Havia gente que vinha da fábrica do sabão, da conserva, do alumínio, dos fósforos, agora fecharam tudo.” Já não passa ninguém.

Mostra o pequeno altar que construiu e reafirma a “muita fé em Deus”. Dorme no café improvisado. Tem casa na Afurada, mas precisa de ser arranjada, está sem tecto. “Durmo aqui com uns edredões no chão.” E conta uma noite que a marcou. Bateram na portada de madeira “muito tarde”, foi ver quem era. Um homem muito velho, de barbas muito grandes, muito brancas. Disse que vinha de uma longa viagem e pediu algo para comer. “Só tinha umas sandes e queria dar-lhe um prato quente.” Apresentou a sande de chouriço e propôs servir um copo de vinho. “Vinho não, prefiro água.” Água também não pode ser, pensou, e deu-lhe um copo de sumo. “Depois disto, nunca mais o vi, nunca mais. O que é que pensa disto?” Um vizinho disse-lhe que seria um profeta. “E eu acredito.”

Acredita, também, em melhorias no negócio, “talvez quando abrirem a marina”. Afinal, sorri, “isto não pode continuar assim. “Maria, há cerveja?”, pergunta-se. “E um copo de tinto maduro.”

“São pessoas reformadas que vêm para aqui, isto é chato”, continua a desenrolar o novelo da sua história. Explica que, às vezes, não se quer esperar na margem, “vem tudo cheio de pressa.” As pessoas são “ingratas, falam mal com o condutor.” Percebemos o que Jeremias dizia.

Mostra os papéis onde aponta o lucro do barco: 14 euros num dia, 20 noutro, 18 euros. Também mostra os bloquinhos de dez viagens, a 80 cêntimos cada, que se empilham na mesa. “O que tem segurado isto é o verão, uma festita.” Defende que “as coisas têm que ser certas e provadas” e insiste em mostrar o papel onde mostra o negócio do ouro que empenhou. “A vida dá trambolhões.” Diz que remodelou o barco sozinha, sem ajuda. “Fazem obras em todo o lado, menos aqui, parece que só se ajuda os ricos e não se ajuda os pobres.” Conta, até, que fizeram uma revista com as 50 melhores coisas da cidade do Porto. “O Flor vinha lá. Mas ajudar? Ninguém.” Lamenta que haja até quem tente prejudicar a empresa. Uma vez meteram areia no motor e o barco deixou de trabalhar, “ficou aí parado quatro meses, tive que pedir para pagar aos empregados”, confessa. E conclui, pensativa: “Para quê tanta corrupção e maldade? Vimos para cá fazer uma missão, fechamos os olhos e já lá vamos.”

O que já lá vai, também, é o Flor do Gás, chegando à outra margem, em voltas que se repetem aos quartos e às meias horas.

(maio de 2011)



Minuto e meio de sedução
Outubro 31, 2009, 8:46 pm
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Camp Matosinhos 034

Transpiram horas de treino. Transpiram perfeccionismo em frente ao espelho. Há movimento, expressão de emoções e descarga de energias. Juntam o peso de dois corpos num só e sabem que o erro não é admissível. Têm apenas um minuto e meio para provar o que valem. E todos ambicionam o 1º lugar.

POR MARTA OLIVEIRA NA SENHORA DA HORA

Elas vêm penteadas e maquilhadas, de mala de viagem na mão. Eles aproximam-se confiantes, com postura, mesmo que tudo não passe de uma máscara. Ambos partilham a ansiedade de mais uma competição. São 15 horas e lá dentro já se ouve o som de um tango. É o 5º ranking português de Clássicas e Latinas, desta vez no pavilhão desportivo da Senhora da Hora, e os dançarinos federados preparam-se para mais uma maratona de dança. Não ao estilo de Sydney Pollock, não por dinheiro. Aqui dança-se por paixão.

“Entrada no recinto só de sapatilhas.” Lê-se o aviso na entrada para os atletas. “Balneários 3 e 4 para a direita, 1 e 2 para a esquerda.” Há que espreitar os bastidores, explorar a dicotomia privado/público. O que é que está por detrás da actuação que um observador presencia? No mundo das danças de salão, a imagem é um factor determinante. Há uma metamorfose até ao resultado final, perfeito. Porque a dança é, também, teatro.

No balneário 1, os dançarinos criam uma personagem. Vinicius de Moraes, na sua receita de Mulher, retrata bem as exigências desta esfera desportiva: “As muitas feias que me perdoem, mas beleza é fundamental. É preciso que haja qualquer coisa de flor em tudo isso, qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture.” Maquilhagem, creme bronzeador, vestidos brilhantes e provocantes e penteados exuberantes. “Quando vi as dançarinas de Open pensei que nunca me vestiria e maquilharia assim, que tudo era um exagero.” Mas Ana, dançarina federada há oito anos e professora da modalidade há cinco, rapidamente adoptou os rituais.

Dificilmente se circula no balneário com as malas de viagem espalhadas pelo chão. A Isabel tem dez anos e abre uma mala do tamanho dela. “É o meu vestido, uns chinelos, a toalha e as pinturas.” Objectos pessoais indispensáveis para a competição. “E as meias de aquecimento.” Mostra mais uns quantos acessórios “E os sapatos da dança!” Maquilhada como uma mulher, abre entusiasmada a caixa das pulseiras e dos brincos. Para já, lamenta não poder ainda usar brilhantes nos vestidos. Para isso tem que passar ao escalão seguinte, Open.

Para Joana, dezanove anos, a liberdade de corte de vestido já era bem-vinda. “Não é um vestido de gola alta e até ao joelho que tenho em mente quando penso em danças de salão.” Competindo no escalão de Iniciados, a apresentação tem que obedecer a regras muito restritas. A lógica é simples: começa-se por uma apresentação elementar e igual para todos. O par só se poderá destacar pela qualidade de dança. Em Intermédios, o escalão da Isabel, já há mais liberdade, mas só em Open é que os dançarinos podem apresentar-se como desejam.

Colam-se unhas e pestanas postiças. Há troncos masculinos depilados e lábios bem vermelhos. Usam pó, não de arroz, mas sim Terrakota. O Ricardo está sentado em cima da mala, enquanto lhe põem uma base especial. “Comprada na Alemanha, no campeonato internacional do German Open. Numa loja italiana chamada Fabulous Cosmetics. É a base do Vescovo e do Di Filippo.”, informa. Nomes conhecidos de todos os que dedicam o corpo e a mente ao mundo da dança desportiva. São os campeões internacionais, dançarinos profissionais que são um modelo a seguir.

Fala-se das ambições deste campeonato. O Tiago tem catorze anos e dança há três. “Os meus amigos fazem algumas piadas mas não tenho problemas em dizer que danço.” Deixou o andebol pelos ritmos latinos e diz, entre sorrisos, que quer o primeiro lugar. A derrota dos outros é a vitória que deseja. E para entrar no espírito, tem os auriculares nos ouvidos a passar um samba.

Para lá dos bastidores, os últimos escalões interpretam as danças clássicas: Valsa vienense, Valsa inglesa, Slow foxtrot, Quickstep e Tango. Rigor e suavidade nos movimentos. Os vestidos são de gala, compridos e esvoaçantes. E, para eles, o fraque. Está um calor abrasador. Lá fora, trinta graus. Cá dentro, possivelmente mais dois. Nas bancadas os familiares, amigos ou meros curiosos abanam leques.

“Obrigado, pares”, ouve-se o apresentador. Passemos às classificações. “4º lugar – par 621.” Na plateia, um amigo critica a classificação e vaia o júri. Entregam-se as medalhas, sorriam para a foto. Há abraços efusivos.

Fora da pista principal, ainda com plumas que se libertaram dos vestidos, os pares começam a treinar as danças latinas. Há todo um jogo de rivalidade e intimidação. Quando um par está a aquecer já deve demonstrar confiança. Ana sabe que “a própria roupa de aquecimento deve ser agressiva, sensual na mulher”. E continua: “É mau se o par discute diante dos seus adversários. É preciso ter em conta que o par está constantemente a ser observado. Têm que parecer cúmplices em todos os momentos, quase apaixonados, nem que sejam irmãos ou primos.” Acrescenta que “nem sempre é fácil articular tempo, ideias e métodos de trabalho com outra pessoa, mas isso exige de nós uma verdadeira capacidade de saber ouvir, respeitar, ceder e intervir na altura certa.”

“A Joana é a seguir!”, grita entusiasmada a Isabel, enquanto come uma bolacha de chocolate. Que, a par de barras energéticas, bananas e Redbull, são as mais eleitas para dar a última energia precisa. Os últimos pormenores são revistos, bebem o último gole de água, respiram fundo e entram de cabeça erguida e ombros direitos. Aumenta a tensão.

Ouvem-se as primeiras batidas da música latina. É um cha cha cha, o mais conhecido do público em geral: El unico fruto del amor es la banana, es la banana… Passamos de um baile veneziano para os ritmos quentes de Cuba ou Cabo Verde. A pista é dividida, já que em latinas há mais pares a competir. “Juventude Iniciados: pista 1”, chama o apresentador. Os pares alinham-se por ordem de números. Elas ajeitam os vestidos, eles os laços. “Pares 303, 304, 308, 310, 312, 319 e 320”. Os pares apresentam-se e são aplaudidos. “Pista 2: Adultos Iniciados. Pares 434, 440, 441, 444, 454, 467 e 468.” O par 444 é o André e a Joana. “Samba!” Todos entram no ritmo, todos tentam libertar energias, trabalho, tensões e ambições. Vê-se uma mancha de cor que se movimenta. Ouvem-se gritos de apoio e é chamado o segundo grupo. Os júris dispõem-se à volta da pista, de grelha de avaliação na mão. E avaliam.

Avaliam o flectir e estender dos joelhos no samba, de modo a criar movimento de anca; a extensão dos tornozelos e o apontar dos dedos do pé que não tem o peso do corpo, de modo a realçar a linha de uma figura. No fundo, avaliam a postura, ritmo, linhas, sincronia, presença, energia, apresentação. Na teoria, pelo menos, deveria ser assim. Isto porque os factores que cada júri valoriza na performance de um par raramente são consensuais e podem variar segundo a influência de diversos factores exteriores. Ana sabe que “os júris muitas vezes juram pessoas, não dançarinos.” Acredita que não se pode andar em competição dependente de classificações. O par, Vasco, explica que há muitos interesses: “Os júris são professores, juram muitas vezes os próprios alunos e favorecem-nos. Juram muito pelo que conhecem dos alunos nas aulas quando a prestação no campeonato pode ser completamente diferente.” Assim, para um par conquistar um lugar numa final ocupada sistematicamente por um outro, não terá que ser apenas melhor do que ele. Terá que ser escandalosamente melhor.

Entretanto, os pares confirmam se passaram ou não à fase seguinte. A Sara e o Manuel, que têm tido lugar marcado na final, ficaram de fora. Enquanto despe o vestido que não usará mais hoje, diz que se sente desiludida e desmotivada. “Custa não passar quando ouvimos que merecemos estar na final.”

Importa questionar: como é que se traduzem horas de treino num minuto e meio de dança? Façamos as contas. Se pensarmos em quinze ou mais pares em simultâneo, como tem acontecido em competições nacionais, e tendo em conta o pouco tempo de cada dança, concluímos que cada júri dispõe de seis segundos para avaliar cada par. Às vezes basta um erro para não voltarem a ser alvo de atenção.

Na rumba, dois pares chocam. Um pára, o outro mantêm-se firme e confiante. “Em pista, é muito importante protegeres o teu espaço e, se conseguires não bater em ninguém, demonstras que és melhor dançarino”, explica Vasco. Há uma constante adaptação face aos imprevistos que vão surgindo.

Os dançarinos saem da pista cansados, relaxados ou frustrados. Corra melhor ou pior, a vontade é sempre de fazer melhor. Neste pavilhão já passaram os ritmos quentes do samba, cha cha cha e rumba. Chegou a vez do paso doble. É uma coreografia agressiva: o homem é o toureiro, a mulher a capa. E acabamos com o último escalão a dançar um jive enérgico, lembrando jitterbug ou o twist da década de cinquenta.

Para além da distinção de nível, os dançarinos dividem-se por idades. Na plateia, alguns familiares comentam curiosos como se consegue pôr “pequeninos tão pequeninos” a dançar assim. São pequeninos mas têm a garra de quem sabe que há uma taça para levar para casa. Alguns demasiado pressionados pelos pais, outros que levam o desporto na descontracção.

Mas agora vão todos descansar. É a hora de jantar. Lá fora há um parque de merendas: sardinhas assadas, entrecosto e caldo verde para quem não tiver o estômago demasiado contorcido pela ansiedade. Alguns preferem não abandonar o pavilhão e as dançarinas trazem espelhos para as bancadas: é preciso dar os últimos retoques na maquilhagem.

A Joana pergunta ao pai se reparou nalgum adversário em especial. Em casa, guarda as sabrinas do ballet. Trocou-o também pela dança. As diferenças são visíveis “No ballet trabalhava por mim e para mim.” Aqui, para o bem e para o mal, dois são um.

“Que se prepare Juventude Open!” As finais, reservadas para a noite, vão começar. Há um jogo de luzes que confere ao pavilhão um ambiente de espectáculo.

O primeiro par benze-se antes de entrar em pista. Outros fazem os últimos aquecimentos, os últimos alongamentos. Voltamos às clássicas. A valsa que poderia ser a de Amélie. Um Slow Fox muito ao estilo de um New York, New York de Frank Sinatra. Assistimos agora ao ritmo alucinante do Quick Step e ninguém se admiraria se na pista entrasse a mítica Máscara Verde, contorcendo todo o seu corpo, deslocando-se a uma velocidade impressionante e dançando como Fred Astaire, Gumby e Baryshnikov. Atrás viria a bela Tina Carlyle num vestido justo e vermelho. Perdemo‑nos na imaginação e já dançam um tango. Europeu, não argentino. É uma melodia trágica de Julio Bocca, uma dança que desperta o fatalismo.

Voltamos aos ritmos latinos e quentes. O vestido comprido é substituído pelas pernas descobertas. António Lobo Antunes defendeu que “a sensualidade é o intervalo entre a luva e o começo da manga.” Por aqui assistem-se a diferentes conceitos de sensualidade, desde a discreta, que estimula a imaginação, até à provocação despida de preconceitos. Na pista há mulheres enigmáticas e homens viris e quase que somos transportados para a época dourada do cinema, a época da magnitude, da exuberância e da irreverência. Por aqui poder-se-ia encontrar uma Sophia Loren ou uma Rita Hayworth. Há cortes de cabelo que imitam a Louise Brooks. Vê-se o sorriso sedutor de um Marcello Mastroianni. O cabelo puxado para trás com gel de um Gary Cooper. Ou a sobrancelha arqueada de Robert Mitchum.

Há glamour e os vestidos cintilam. E quanto custa este brilho? Ana fala‑nos da sua experiência. “Gasto, em média, um pacote de pedras brilhantes Swarovsky por vestido. 1440 brilhantes, 10 grosas. Cada pacote custa 90 euros. Já fiz à volta de 15 vestidos. E cada vestido custa, em média, 500 euros.” Exagero? Nada comparado com as dançarinas que fazem um vestido por competição. “Há muitas mães de miúdas de doze ou treze anos que vão às costureiras de danças de salão e gastam 1500 ou 2000 euros. E os sapatos custam perto de 100 euros. Aulas com professores estrangeiros? Acima dos 75 euros por 45 minutos.” É, efectivamente, um desporto de luxo. Entretanto, os Séniores pisam a pista, dançarinos com mais de trinta e cinco anos que alimentam a jovialidade.

Por aqui também se vendem vestidos usados e tecidos especias: de chita, de leopardo, com magnólias, acetinado. Mas não é hora para se explorar os stands. Carlos Custódio e Elena Plescenco, actuais campeões nacionais no escalão máximo, Adultos Internacionais, preparam-se para entrar em pista. A plateia já canta a música que conhece pelos acordes. Depois deste escalão, entregam-se as taças. E o Tiago vai levar uma para casa, como ambicionou.

Vêm de Espanha, do Algarve, de Lisboa, da Beira Interior ou do Douro Litoral. Por muito longa que seja a viagem, estes atletas federados têm uma certeza: em breve encontramo-nos de novo numa pista de dança.