Umumbigo


sorte
Junho 2, 2018, 11:16 pm
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A minha avó sofreu uma

cornada de um boi na barriga

quando estava grávida.

 

Por sorte não aconteceu nada.

 

Por sorte aconteceu tudo:

nasceu.

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Carta ao Chico
Abril 21, 2018, 12:10 pm
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Aqui é o tempo das cerejas e isso é certo como algumas certezas felizes de todos os dias

almoços de domingo, sol no jardim, as minhas sobrinhas pequenas dando abraços uns atrás dos outros

a tua música, a tua poesia

e olha, Chico, isto começa porque disse querer conhecer-te e o meu amigo provocou: escreve uma carta

encontro a casa ou entrego à Miúcha

depois vem a vida feita comboio que atropela as ideias e é preciso apanhá-las nos carris uma a uma

ou temos a sorte de vir alguém lembrar o que ficou lá atrás que é uma ideia de carta

e me faz sorrir muito ao pensar que podes estar a ler, és tu o Chico Buarque?

Como é ser o Chico, Chico. É saber que no fim da noite há a melodia, o poema, os olhos que mudam

de cor e fantasia mediante a luz? É entrar na savana sem medo vestindo só curiosidade?

O mar come a praia, guloso, e o tempo satisfaz-se inteiro na pele, nos cabelos, nos dentes

mas sabe que há casos raros em que não atravessa os olhos e ser raro é tão raro.

É de mim ou hoje é dia de escrever ao Chico e se a primavera é pontual porque se atrasam os homens.

Não me atraso, é um foguetão colorido escrever-te sobre o instante enorme

em que tatuei logo tudo o que ouvi e li teu, depois é foguete rebentando no ar

com a alegria de te ter descoberto antes dos vinte

e de poder por isso completar o quotidiano porque urgente e fundamental é abraçar dias cheios

como um ovo mas não assim tão frágeis ou o cuidado não nos deixaria dar um passo em vão

e eu que nunca entendi as mulheres que não borratam o batom nem um pouco só

como nunca entendi quem não morde a beleza ao cantar demasiado alto qualquer coisa do Chico

e que acham desvio nadar de noite ou lamber os dedos e a alma.

Ouvi que somos um sonho dentro de um sonho e de outro, também ouviste?

Uma coisa que me ajuda a lembrar isso é dançar dizendo que a moça está diferente

porque foi num instante que surpreendi-me com tudo, pareceu uma explosão esbanjando vida

mesmo sabendo que a vida não se esbanja, multiplica-se e cresce, então isto é criação

e quantas vidas já criaste, Chico?

O meu amigo disse acelera a carta.

Olha, Chico, tenho vagas de ti como marés cheias ou banhos de lua

e no fim fica qualquer coisa de mansidão feita revolução – talvez a maior de todas seja silenciosa.

Queria fazer perguntas que perguntam como é o fundo do oceano

ou como pode o mundo nascer e morrer tantas vezes torto se tem o Chico e o samba

ou como podem as rosas murchar quando há o Chico capaz do sonho e basta.

No trânsito canto muito alto que cada paralelepípedo da velha cidade essa noite vai se arrepiar

imagino-me mar de pé a aclarar a voz contra uma rocha feita estrondo da cabeça aos pés

logo sei que não há palavra onde caiba mar ou montanha e não há palavra onde caiba Chico

a não ser Chico, isso sim.

E se fosses Chico contabilista, Chico astronauta, Chico jardineiro seguirias sendo poeta e cantor

e em Chico talvez pudesse caber mar, deixo o estudo aos entendidos do tamanho das palavras

e distância intergaláctica a que chegam. Eu sei que chegam muito longe.

Olha que tem que haver espanto e arrepio quanto te vir

eu que quero um dia ouvir Chão de Esmeraldas ao vivo e se não vieres a Portugal irei ao Brasil

que é preciso combater a ferrugem dos olhos numa viagem, acordar o silêncio principal

é preciso ouvir o que ninguém diz, tocar a acústica dos espaços com e sem teto

e o meu amigo acabou de dizer acelera a carta.

Logo agora que ia falar de rir à toa, logo agora que ia falar de favos de mel

do prazer de ter sede e beber água como é a sensação que provoca a tua música nos corpos eufóricos

e com água e poesia (pão também) vamos em frente na estrada com mais claridão

tendo a atenção essencial para reparar nas flores bravas, olha ali uma,

ia falar também sobre a vida ser bela, nós é que damos cabo dela se não ouvimos música nem lemos livros nem temos esperança, se abdicamos do inútil e da beleza

e tu nunca vais abdicar, pois não?

Tanta coragem, obrigada.

Queria ter a ousadia de dizer dá-me aí um poema, como quem pede isqueiro de cigarro na mão

dá-nos a poesia como cerejas que tingem os dedos, Chico, e fica tudo mais fácil.

Diz o meu amigo que hoje é o dia certo para partilhar a carta,

e se for verdade? Quem sabe, então até já.

 

30 de maio de 2015

 



O segredo dinamarquês
Setembro 25, 2017, 11:14 am
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Houve um período em que, por cá, um novo termo saltou para a luz da ribalta: hygge. Qual o motivo para a Dinamarca ser o país mais feliz do mundo? A resposta apontava os focos de novo para a palavra: hygge.

Entretanto, outros termos e temas ocuparam o espaço noticioso e não pensei muito mais no hygge até ler um livrinho que desvenda este segredo dinamarquês e que apresenta o hygge como a busca da felicidade quotidiana.

Qual o sabor do hygge? É quase sempre familiar e reconfortante. Pode ser um bolo delicioso ou o assado tradicional num domingo de família. Pode, simplesmente, ser uma chávena quente de chá com mel.

E o som? Imaginemos trovoada lá fora, e o som do crepitar da lenha na sala. Ou o som de um lápis a pintar uma folha. Uma música de que gostamos muito?

E o hygge tem cheiro? Talvez esteja numa manta que nos aquece, ou numa casa que traz recordações de infância. Para mim, o hygge tem o cheiro do mar.

Pode ver-se o hygge? Sim, vêmo-lo por exemplo num espaço iluminado por velas que ardem lentamente.

E qual é, afinal, a sensação do hygge? Um toque da mão na lã, na madeira rústica, um toque do vento morno na pele?

Falamos de um sentimento profundo de segurança. Estar com as pessoas de quem gostamos nos sítios de que gostamos. São as pequeninas coisas da vida que fazem os dias valer a pena e que devemos perseguir.

Os dinamarqueses encontraram um termo para esta sensação e procuram-na todos os dias. Talvez, por isso, sejam tão felizes. Vou então beber agora a chávena de café que está à minha frente, a repousar, acompanhada de um quadradinho de chocolate, e tirar o maior partido deste momento. E de todos os que se seguirem. Como escreveu Benjamin Franklin, “a felicidade consiste mais em pequenas conveniências ou prazeres que ocorrem todos os dias do que em grandes pedaços de sorte que acontecem raramente.”



A filosofia de Proust
Agosto 26, 2017, 4:48 pm
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Uma amiga está a mudar de casa. Ao esvaziar a prateleira, reencontrou um livro e antecipou que talvez eu gostasse de lê-lo. É de Alain De Botton e promete desvendar “Como Proust pode mudar a sua vida”. Tendo a suspeitar de títulos como este, mas neste caso não se anuncia algo em vão. São nove reflexões – olhando para a vida de Proust e partindo da obra Em Busca do Tempo Perdido – aplicadas ao nosso dia-a-dia: como podemos viver vidas melhores?

O último capítulo que li (e que felizmente ainda não é o último do livro) intitula-se: Como sofrer com êxito. Lemos o que Proust escreveu:

“Só a enfermidade nos faz estar atentos e aprender, permitindo-nos também analisar processos sobre os quais, de outra forma, nada saberíamos. Um homem que adormece diretamente na cama todas as noites e deixa de viver até ao momento em que acorda e se levanta, decerto nunca sonhará fazer, não necessariamente grandes descobertas, mas até mesmo pequenas observações sobre o sono. Mal sabe que está a dormir. Uma pequena insónia não deixa de ter o seu valor na medida em que nos faz apreciar o sono derramando um raio de luz sobre essa escuridão. Uma memória infalível não constitui um grande incentivo para o estudo dos fenómenos da memória.”

Esta é uma visão otimista que pode mudar a nossa forma de sofrer. Acreditar que podemos extrair valor mesmo do maior sofrimento é, no momento da dor, quase impensável. Mas é importante não esquecê-lo.

Alain explica: “Apesar de podermos, é claro, usar a nossa mente sem estarmos em sofrimento, o que Proust sugere é que nos tornamos verdadeiramente inquisitivos quando estamos aflitos. Sofremos, logo pensamos, e fazemo-lo porque pensar ajuda-nos a contextualizar a dor, ajuda-nos a compreendera sua origem, a aferir a sua dimensão e reconciliar-nos com a sua presença.”

Sabemos que, entre a teoria e a prática, é preciso dar um salto grande. E muitas vezes o sofrimento tolda o pensamento e não parece ter nenhuma saída libertadora. Mas e quando conseguimos transformar as experiências e memórias negativas em ideias? Podem perder parte do poder de magoar, como defende Proust? E chegar a uma vivência mais profunda e significativa? Tentar é a única resposta e parece muito promissora.



epílogo
Agosto 1, 2017, 10:55 pm
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“Como é óbvio, não pode existir epílogo nem ponto final para uma estória que começa por portanto”

A Geração da Utopia, Pepetela



A menina dos olhos verdes
Agosto 1, 2017, 10:48 pm
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Depois de subir a pé a Avenida 24 de Julho e entrando na rua do meu trabalho, em Maputo, cruzei-me algumas vezes com uma menina alta e com uns olhos verdes gigantes. Deveria ter entre dez e catorze anos, mulata e sempre com missangas coloridas no cabelo encaracolado.

Dia após dia, a menina sorriu sempre que passei. Encontrava-a a caminhar no sentido oposto, ou então a brincar com alguém, ou sentada no passeio a contemplar alguma coisa entre as mãos. Costumava estar calçada, ao contrário de muitos meninos que passavam por ali. Devia ter um irmão mais novo e por vezes sentava-o no colo.

Um dia, a menina falou e disse-me apenas: – Tens os olhos bonitos.

Eu estava a comprar fruta – papaias, mangas e abacates – e a frase dita com tanta espontaneidade e doçura desarmou-me.

Talvez por não ter respondido imediatamente, a menina repetiu:

– Gosto dos teus olhos. São bonitos.

E gostar é simples assim. Disse-lhe que os olhos dela eram muito mais bonitos e riu-se imenso, com as mãos a tapar a boca, e depois começou a rir-se o vendedor de fruta, e rimo-nos todos. 

A partir daquele dia, a menina começou sempre a dizer-me olá com aqueles olhos de miúda muito curiosa a crescer. 

Também nessa rua, um pouco depois de cruzar-me normalmente com a menina, vivia um senhor de idade inimaginável que passava o dia sentado numa cadeira velha, à entrada da garagem. Não era segurança, estava simplesmente ali a ver quem passava e a acenar a todos. Cumprimentou-me todos os dias com alegria, como só poderia ser por ali. Quando estava quase a começar a tempestade, avisava-me que ia chover em pouco tempo e eu acelerava o passo. Quando estava demasiado calor, mostrava-se solidário com o meu possível ar de quem se habitua a um clima muito diferente. Quando lhe disse que não iria passar por ali tão cedo, disse-me só com o brilho nos olhos de sempre: Está bem. 

Por segurança, evitei sempre usar o telemóvel na rua e ainda bem. Restava poder olhar para tudo e todos e estar disponível para estes pequenos encontros que devolvem a esperança nos dias difíceis e redobram a felicidade nos dias bons.

Noutro dia ouvi um olá mas não vi ninguém. Olhei para os lados. O som vinha de cima e semicerrei os olhos por causa do sol violento. 

– Olá!

Olhei com mais atenção. No último andar de um prédio, atrás das grades características de Maputo e de muita roupa colorida a secar, vi os dois olhos verdes grandes a espreitar. Retribui o olá e a menina entrou em casa.

Nunca me perguntou o nome e eu também não. Nunca foi preciso mais do que aquele pequeno momento. Na minha última semana em Moçambique, olhei a rua com mais atenção e não a vi. Então temos um olá em suspenso e, quem sabe, talvez um dia pergunte o nome à menina da rua José Sidumo.



sonho lindo
Julho 31, 2017, 11:13 am
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