Umumbigo


iceberg
Julho 16, 2017, 4:09 pm
Filed under: citações

“A dignidade de movimento de um iceberg deve-se ao facto de este ter apenas 1/8 do seu volume acima do nível da água.”

Ernest Hemingway



último
Julho 10, 2017, 12:48 pm
Filed under: poesia

Penso até ao último segundo 

que vou perder o avião

o carro despistar-se-á

adormecerei, claro

não ouvirei a chamada

estarei na porta errada

não aceitarão a minha bagagem,

qualquer coisa imprevisível

e terrível e não podem

esperar por mim.

Entro no avião como quem 

procura o último sentido da vida –

consigo 

levantar

voo.

Penso desde o primeiro segundo

depois disto o quê?



zapping
Julho 9, 2017, 7:09 pm
Filed under: Uncategorized

Fiz zapping na tv e vi

o homem que fuma pensativo

ópera cheia de brilhos e agudos

números de valor acrescentado

sorteios gigantes e sevilhanas

um miúdo de pijama a olhar o teto

crise de migrantes, homens contra homens

o mundial de canoagem e a vitória

aplausos na partida de futebol de salão

vestidos de noivas com plumas rosas

um urso, um abutre, um peixe gigante

a grande pirâmide do Egito 

uma cena de romance num mercado

a junção de processos de coimas ex-scut

um telefonema muito tenso

desenhos animados cheios de esperança

um homem agarrado a uma rocha na corrente

um carro pintado de branco

bicicletas na estrada lisa, muito lisa

o tudo vai ficar bem com lágrimas nos olhos

apanhados e gargalhadas prolongadas

novelas mexicanas incompreensíveis

tráfico no aeroporto

uma mulher a dançar na banheira

ex-namorados a competirem

colecionadores loucos

o corpo todo tatuado

um concerto intimista

um filme mudo

traillers cheios de suspense

cartoons sarcásticos

receitas que dão fome

duas irmãs em desacordo

um ataque a um comboio 

o agente a desvendar o caso 

e lá fora carros e chuva.



azeitonas
Julho 9, 2017, 6:55 pm
Filed under: poesia

Há coisas de que não me posso esquecer

como o sorriso sereno do meu avô, agora usa suspensórios e diz que vai guardar a maior posta de bacalhau para mim,

a Leonor que gosta de figos, o que faz dela uma criança muito madura com olhos muito grandes como só as crianças sabem ter,
a Mimi que acorda da sesta distribuindo mimos e alegria antes de me ter adormecido contando a história da menina corajosa,
os meus pais olhando em pé o mar da Granja cheio de poças e algas com as costas direitas, grandes como só eles sabem ser,
o meu pai apanhando o pato bravo no areal que fez rir quem se banhava ao sol,
a minha mãe enrolando o melhor bolo de amêndoa do mundo para atravessar o oceano,
a força que me dá a família para encontrar qualquer coisa que procuro e procuramos todos, todos os dias,
os meus irmãos acenando no aeroporto com a carinho dos irmãos mais velhos,
o Pedro contando coisas de lá, perguntando coisas de cá, unindo o Atlantico-Índico,
os abraços abertos dos meus amigos que sabem parar o tempo no momento em que dissemos até
para quando nos reencontrarmos retomarmos a última conversa em suspenso
e a oliveira do nosso jardim que cresceu tanto desde a última vez
– quando regressar talvez tenha azeitonas.
agosto de 2016


borrão
Julho 9, 2017, 1:17 pm
Filed under: Uncategorized

Dilatou a minha pupila e eu olhei-me no vidro para

vê-la crescer como um poço negro para o interior de mim e

a íris desapareceu, eu desapareci num círculo que cresceu tanto.

Houve primeiro o susto de ver tudo desfocado

depois o prazer de ser uma névoa entre todas as névoas

foi o que pensei quando me chamaram ao consultório –

mediu a pressão do meu olho, avaliou a pupila dilatada

apertou-me a mão – sim, apertou-me a névoa de mão.

Levei na carteira a receita e no olho a alegria de tudo ser

mais bonito quando é um borrão que imaginamos

poder desenhar melhor.



se a vida é
Julho 9, 2017, 11:34 am
Filed under: música



Um tesouro
Junho 8, 2017, 8:57 pm
Filed under: crónica

O meu pai conta uma história que quero muitas vezes ouvir de novo. Gosto particularmente de ouvir contá-la com novos pormenores às netas. Então viajamos no tempo e conhecemos o pai e avô que também foi criança de joelhos rasgados e muitos sonhos nos bolsos.
A história é simples e, literalmente, doce: há 60 anos, o patrão do meu avô deu ao meu pai um pacotinho de quatro ou cinco bolachas de baunilha. Falamos das retangulares, finas, com recheio, estaladiças e propícias a deixarem vestígios de migalhas felizes. O meu pai conta que, na altura, sabia que aquelas bolachas existiam, mas nunca as tinha comido.
Vamos ao momento em que recebeu o pacotinho que embrulhava a oferta mágica. Olhou muito as palmas das mãos ou o que nelas segurava com todo o cuidado do mundo. Os homens adultos despediram-se e era tempo de regressar. O meu avô indicou o caminho, sempre em frente, e o menino caminhou algum tempo com o pacote nas mãos. Por que é que não o abriu de imediato e, neste ponto, já teria a boca lambuzada de baunilha? Talvez para prolongar o enorme espanto.
Estamos quase a chegar à loja dos seus avós maternos, meus bisavós, e é importante olhar para o chão – as ruas são esburacadas. Logo ali há um buraco maior, onde passa a água, e se alguém meter o pé cairá de imediato.
O Joaquim que ainda não sabia o que era ser pai ou avô, só criança de calções pequenos, meteu o pé e caiu de imediato. As bolachas, claro, ficaram esmagadas debaixo do corpo. Mal se levantou analisou os estragos: tudo era migalhas e pedacinhos de baunilha.
O meu pai conta que “foi uma tristeza infernal”. Veio de Grijó até Nogueira a pé sem comer uma única bolacha. Foram vários quilómetros a olhar um tesouro que ainda não queria abrir. Era um pacote só para ele, sem ter que dividir com o irmão. Juraria que seriam bolachas maravilhosas sem nunca as ter provado. Bastava olhar para elas e antecipar o momento em que trincaria uma a seguir à outra.
Mas não choremos sobre o leite derramado ou, neste caso, as bolachas esmagadas. Já sabemos que o buraco não se desviará do caminho e que o menino cairá com o maior susto. Mais tarde, provará as migalhas possíveis.
Hoje, o meu pai adora bolachas de baunilha. Elegeu-as as suas preferidas. E podem comprar-se pacotes grandes com muitas bolachas alinhadas, mas sei que ele, regrado, não comerá mais do que duas ou três de uma vez.
Eu também gosto muito destas bolachas, e gosto ainda mais quando penso neste episódio de infância. Lembra-me que os tesouros são do tamanho da nossa gratidão. Os maiores brilham tanto mais quanto mais agradecidos formos.
Parece simples, então, admirar um tesouro raro. Se soubermos, todos os dias, esquecer o que damos por garantido e surpreendermo-nos com as pequenas e deliciosas dádivas, a nossa felicidade dispara. É por isto mesmo que quero ouvir de novo esta história contada pelo meu pai: faz-me querer olhar para tudo como para um pacotinho de quatro ou cinco bolachas de baunilha que por obra improvável e generosa está nas minhas mãos. Nesse momento, tudo pode ser uma descoberta de olhos a brilhar, venham os trambolhões que vierem.