Umumbigo


que temos dentro de nós
Julho 25, 2012, 6:29 pm
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“deus é uma cobiça que temos dentro de nós. é um modo de querermos tudo, de não nos bastarmos com o que é garantido e já tão abundante. deus é uma inveja pelo que imaginamos. como se não fosse suficiente tanto quanto se nos põe diante durante a vida. queremos mais, queremos sempre mais, até o que não existe nem vai existir. e também inventamos deus porque temos de nos policiar uns aos outros, é verdade, é tão mais fácil gerir os vizinhos se compactuarmos com a hipótese de existir um indivíduo sem corpo que atravessa as casas e escuta tudo quanto dizemos e vê tudo quanto fazemos. é tão mais fácil se esta ideia for vendida a cada pessoa com a agravante de se lhe dizer que, um dia, quando morrer, esse mesmo sinistro ser virá ao seu encontro para o punir ou premiar pelo comportamento que houver tido em todo o tempo que gastou. e a comunidade respira mais de alívio por saber que assim estamos todos policiados da melhor maneira, temos um polícia dentro de nós, um que sendo só nosso também é dos outros e, a cada passo, pode debitar-nos ou acusar-nos e terminar o nosso percurso com facilidade. eu sei que a humanidade inventa deus porque não acredita nos homens e é fácil entender porquê. os homens acreditam em deus porque não são capazes de acreditar uns nos outros.”

a máquina de fazer espanhóis, valter hugo mãe

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tempero
Julho 23, 2012, 9:12 pm
Filed under: nostalgias

XIV

A chuva cai de baixo para cima, o mar enrola do areal para o horizonte, da frente para trás com forte rebentar de ondas frias, num silêncio ensurdecedor que acorda os ouvidos.

Petrúcio abriu os olhos depois do estalido nos tímpanos e olhou Maria. Pousou os pés frios no chão aquecido pelo sol que saltava a janela e sentiu-se febril. Saiu do quarto e estranhou que Maria ainda dormisse, observando a ausência de panelas ao lume e roupa ensaboada no tanque. Encontrou Lucília no jardim, brincando com um sardão, e disse-lhe: acorda a tua avó.

E Lucília obedecerá, com a alegria natural de uma criança que se vê com permissão para saltar em cima de uma cama adormecida a gritar bom dia, bom dia!, enrolando os pés pequenos no lençol. Mas ao quinto salto Maria não se mexe, ao sexto salto o olá de Lucília é já histérico, quase assustado. Ao sétimo salto olha pela janela e já grita num fio de voz por alguém. Não quer acordar, avô. Por que não acorda?

Maria, abanou Petrúcio com violência. Mandou Lucília para fora e caiu no chão quente. Como não pudera acudir. Sentiu a cabeça em voltas de luz branca e pensou que de pouco lhe valeria a metafísica, teria que cumprir agora o concreto. Concluiu que tinham batatas, tomate do quintal e alguma carne. Não tem que ser muito difícil, murmurou, enquanto se dirigiu para as panelas para cozinhar o almoço. Lucília gritava lá fora, embalada pelo abraço de incredulidade de Mariana. Quando o azeite começou a ferver, Mariana desabou num choro convulsivo. Dentro de portas, Petrúcio tirava os olhos das batatas com entrega minuciosa e pensava no epitáfio, na madeira do caixão e fotografia para emoldurar sobre a campa. Os dias continuam, murmurou, cortando com rapidez rodelas de cebola e chorando lágrimas como tempero.



é felicidade
Julho 14, 2012, 3:38 pm
Filed under: música


Ana Enes
Julho 8, 2012, 3:37 pm
Filed under: nostalgias

XIII

Os olhos amendoados de Ana Enes prometiam muitos mundos. Então, seguindo a ordem natural das coisas, Zózimo, Gaspar e Muriel apaixonaram-se.

Num fio de ouro, Muriel usava ao peito o último dentinho de leite que lhe caíra em criança. No braço esquerdo tatuara uma caveira-amor, emaranhado de facas, rosas e corações indestrutíveis. Tudo dedicado a Ana Enes. Amor de aço. Amor carnal. Amor-dor. Segurava o dentinho entre o indicador e o polegar, fechando o punho da outra mão com energia apaixonada, um quê de violência, e repetia mentalmente: é que um dia Ana Enes gostará de mim. Era uma alegria arrebatadora segui-la com o olhar aflito de emoção, enquanto exercitava músculos e alongava ossos na terra batida em frente à casa de Ana.

Mas não é preciso ajoelhar no milho para acreditar em Deus, diria Zózimo. Não demonstrava a insanidade de ardência que ganhava alguma forma, uma praga que crescia interiormente e incendiava a paz de espírito. Zózimo aparentava serenidade e paciência e, no geral, vivia contente. Não é preciso ajoelhar no milho, tudo virá. Nada viria.

Gaspar não saberia, numa fase inicial, se era amor o que sentia. Era?, talvez não. Duvidou uns meses. Ana Enes parecia sorrir-lhe com algum carinho. Duvidou novamente, até que concluiu numa manhã límpida que sim, claro que sim, se  tudo era tão claro, nunca poderia ser um talvez e era redondamente um sim eterno, juro-te, agora e para sempre, mas já Ana ia mais adiante.

Antes de adormecer para não mais acordar e entre o pensar as filhas e a carta que faltava escrever, Maria refletiu ainda que a união certa entre um homem e uma mulher era rara de acontecer – não a tivera com Petrúcio – e que em todo o caso já a presenciara: entre o caos e azar da vida de Ana Enes houvera um momento em que isso acontecera. E fora embora. Melhor teria sido não acontecer, murmurou, quando Petrúcio se voltou para o lado contrário e continuou a dormir.